Capítulo 1 - Do mercado pra boate

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   O ano de 2007 já estava quase no fim. Eu estava prestando serviço temporário em um grande supermercado da cidade, como empacotador. Enquanto eu ia colocando os produtos na sacola, o caixa conversava comigo:
- Então você é novo aqui na cidade, não é?
- Sim. Estou morando em uma pensão. Não conheço ninguém ainda.
- Agora eu sou ninguém? – falou Carlos meio irritado.
- Não é isso, você é meu conhecido de trabalho. Mas eu só te vejo aqui, amigo de sair juntos eu ainda não tenho.
- Então a gente vai dar um jeito nisso – Carlos me olhou sério e depois perguntou – Você é gay não é?
       O cliente ficou me olhando esperando a resposta. Senti as minhas bochechas queimando. Eu não disse nada, fiquei quieto colocando os produtos nas sacolinhas.  Quando o cliente foi embora, eu dei uma tapa na cabeça do Carlos:

- Ta louco? Fica me perguntando essas coisas perto das pessoas.
- O que é que tem? Isso é supernormal, as pessoas já estão acostumadas com isso – falou ele rindo – Não bate que eu gamo.
- Ok. Eu sou gay, mas como você sabe disso?
- “Gaydar” meu filho. Já ouviu falar? A gente tem um radar que nos diz quando a pessoa é ou não é. Você tem esse jeito de hétero, meio caipira, sem nenhum jeito de gay, mas eu sempre descubro quem é.
- Eu ainda não tenho esse: “Gaydar” – falei refletindo.
- O meu já esta super afinado. Isso você vai adquirindo, conforme vai conversando e vendo as bichas por ai.
- Entendi – falei meio sem graça.
- Próximo! – falou ele para o cliente. Olhando para mim, ele perguntou – Então, será que você não quer ir à boate hoje à noite comigo e com meus amigos?
- Em uma boate? Eu nunca fui em uma boate.
     Boate em cidade pequena, significa: Zona.
- Que tipo de boate?
- Uma boate  G.L.S, é super legal. Tipo, as pessoas vão lá para conversar, paquerar, para beber. E você vai fazer o maior sucesso. Você é um cara bonitão. Qual a sua altura?
- 1,75 cm.
- Branquinho, magro, do cabelo preto, com 1,75 e com essa carinha de virgem, nossa você vai arrasar lá. Só deve colocar esse seu cabelo um pouco para cima, ele não fica tão legal penteadinho pro lado. Mas isso a gente resolve depois. E ai topa ir com a gente?
- Sim, vamos - falei para o Carlos. Uma boate aonde só iria ter pessoas como eu? Seria um bom lugar para fazer novas amizades.
  Eu estava amando essa cidade que me adotou com tanto carinho. Desde que cheguei aqui em Londrina só fazia a mesma coisa, do trabalho pra pensão onde eu estava morando, da pensão para o Igapó da barragem para caminhar e depois para a casa de novo. Para falar a verdade eu nem sei andar nessa cidade direito. O povo de Londrina é um povo muito divertido, muito receptivo. Esses dias eu pedi uma informação para alguém na rua para chegar a um endereço e a pessoa foi super interessado em me explicar. Quase fez um desenho para ilustrar como chegar no lugar que eu queria: “Vira por ali, depois para aquele outro lado, depois você chega nessa rua que você quer”. Só faltava ligar para mim depois para ver se tinha chego corretamente. Eu estava apaixonado pela cidade, podendo ser livre, eu não estava fingindo que era hetero e sim sendo o que eu queria ser.
      Minha mãe me ligava todos os dias querendo saber como eu estava. Confesso que eu sempre tive tudo o que eu precisava em casa. Sério, eu não sabia nem como fazer compras.
- Mãe, tudo bem? – perguntou para ela pelo telefone enquanto estava no mercado -  O que eu compro para comer mãe? Eu estou no mercado.
Ela riu.
- Você  pode comprar feijão, arroz, macarrão, carne, salada e leva óleo também. Faz uma jantar pra você.
- Tá bom mãe, pode deixar -  falei concordando.
Comprei suco, bolacha, pão, margarina, presunto e queijo. Eu não sabia fazer nada do que ela tinha me dito. Agora morando sozinho eu iria aprender, até porque agora eu realmente preciso, não posso viver de suco, bolacha, pão, margarina, presunto e queijo.


  As 23:00 horas como combinado, havia um gol cinza, na frente da pensão. Desci as escadas e quando saio Carlos e mais três amigos estavam todos fora do carro. Eram todos homens, vestidos muito diferentes.
- Esse é o Henrique – apresentou Carlos. Henrique vestia uma camiseta rosa, com um cachecol no pescoço.
- Prazer – cumprimentou Henrique.
- Este é o Matheus – Matheus estava com um cabelo preto e liso, chegando até as costas e com uma maquiagem meio de japonesa.
- Pode me chamar de “Madeusa”. Matheus sou só de manhã e a tarde – ele ria sozinho.
- Esse é o Beto, ou Betão, como ele gosta de ser chamado – o rapaz era um armário de quase 2 metros. Vestia uma camiseta azul, bem apertada. Dava para ver que ele é bem forte.
- Encantado! – falou Betão.
      Entrei no carro e fomos para a boate. Carlos estava dirigindo, Henrique estava no banco da frente. No banco de trás estavam Betão, Madeusa e eu.  Eu devo ser um rapaz muito louco, estou no carro com pessoas que eu nem conheço direito. Se bem que é assim que nós fazemos amizades. Os meninos conversavam muitas coisas, da qual eu nunca tinha ouvido falar.
- É sério amiga, quase bati cabelo na frente dela, só pra ela aprender que Madeusa não é as negas dela – contou a Madeusa.
- Você quase fez o que? – perguntei interessado.
- Bati cabelo, bicha. Vai dizer que não sabe o que é isso?
- Ele é novo nessas coisas ainda – falou Carlos.
- Deixa eu te mostrar como é, Bebê.
     Ele começou a balançar os cabelos de um lado para o outro e depois para frente e para trás freneticamente. Achei legal, se não fosse por todas as vezes que ele me “chicoteou” com os cabelos. Eu nunca conseguiria fazer algo assim, já estava ficando até com tontura.
- Aprendeu, bebê? – perguntou ela.
- Aprendi sim – falei.
- Então faz para a titia ver – pediu ele.
Comecei a ir para frente e para trás.
- Bicha, a senhora parece que a senhora é um “Oioi” humano em câmera lenta. Tem que ir mais rápido – falou ele mostrando como fazer.
Tentei novamente. Agora eu estava indo muito rápido. Ainda bem que eu ainda não tinha comido, porque senão eu ia vomitar tudo.
- Gente, agora já mandou bem. Arrasou viado! – falou Madeusa.
Eu estava achando engraçado tudo isso, mas esse negocio de bater o cabelo não era para mim. Tocou meu telefone e eu falei:
- Esperai, meu celular esta tocando, só um momento – pedi ao pessoal – Alô? Oi mãe, tudo bem? A senhora esta preocupada? Por quê? Porque eu não liguei? Desculpa mãe, mas é que foi muito corrido hoje no mercado. Sim, estou na pensão, daqui a pouco eu vou dormir já.
      Madeusa abriu a janela e gritou para um rapaz que passava na rua:
- E “ain”? Ta gato hem! – era um alucinado. Estava adorando ele.
- Que barulho é esse? É um gato mãe! Ele esta miando, acho que esta no cio – falei, os meninos riam muito, inclusive a Madeusa.
- Sempre estou no cio – falou Madeusa para nós ouvirmos.
- Pode deixar que me cuido sim mãe, manda beijos a todos. Amo vocês – desliguei o telefone.
- Que feio menino, mentindo para a sua mãe? – falou Betão -  Qual o nome dela?
- Rosa. E do meu pai é Osvaldo -  falei.
- Mentindo para Dona Rosa e pro seu Osvaldo, que feio menino -  brincou Betão.
- Eu sei que é feio, mas vou fazer o que Betão? Não posso falar para a minha mãe que estou indo em uma boate gay, senão ela iria ter um ataque.
- Você ainda não contou para eles? – perguntou ele. Eu fiz que não com a cabeça - Toda mãe sabe, Paulo, mas para a minha eu contei.
- E ficou tudo bem? – perguntei.
- Ela chorou um pouco, mas depois passou e hoje em dia ela até pergunta se eu estou junto com alguém. Ela é o máximo – respondeu ele.
 Carlos dirigia muito quieto. Às vezes eu percebia que ele olhava para mim pelo retrovisor. Eu estava me divertindo muito ali no carro com os meninos. Estava tocando as musicas da Britney Spears. Acho que sou o único que gay do mundo que não gosta muito dela. Sou mais do MPB, do Rock Pop, do POP americano, de musicas clássicas, de rocks antigos do Brasil.
       Finalmente chegamos.
- Seu RG -  pediu o segurança.
Mostrei o R.G e fomos entrando. Essa boate era separada por duas áreas: Um lugar para as pessoas conversarem: cheia de sofás e uma parte só para elas dançarem. Enquanto eu olhava as pessoas, fiquei vendo vários homens conversando animadamente, eles riam, se abraçavam e comentavam sobre a semana.  Me senti muito bem ali, pois parecia que a homossexualidade não era algo “anormal”, como dizem. Ouvi pessoas falando do seu trabalho como dentista, ou como médico. Eles simplesmente são homens que gostam de homens. Carlos pegou uma bebida para nós.
- A primeira é na minha conta.
- E o resto também vai ser por sua conta – comentou Henrique.
- Carlos, eu agradeço, mas não sou muito acostumado a beber.
- Você vai fazer essa desfeita para mim, Paulinho? -  perguntou Carlos.
Cheguei perto dele e disse:
- Carlos, você é a pessoa que eu mais conheço nesse lugar, então não deixa eu ficar bêbado, ta bom? Eu costumo beber não máximo um copo de cerveja só, com isso já fico bem tonto, imagina beber um monte – pedi para ele.
- Claro, pode contar comigo.
-  Então por favor, não quero ficar bêbado na primeira vez que eu venho a boate, ok? – pedi
- Pode deixar meu amigo – falou ele – Vou cuidar de você vou cuidar muito bem você.
       Nós brindamos e fomos dançar. Tocaram muitas musicas eletrônicas, só as mais legais de 2007: Set me free , Rise up, Rockafeller Skank , Rock This Party  e outras tantas que eu nem sei o nome.
Estava dançando lá do lado da Madeusa, quando passa uma mulher grande do meu lado. Eu reparei melhor e vi que era um homem.
-  Carlos, quem são elas, ou eles?
- Essas, Paulo, são as Drag Queen. São homens que se vestem de mulher e sempre fazem alguma apresentação no meio da noite. Algumas cantam, dançam e outras são as Drags caricatas, que fazem brincadeiras com o publico. Acho que você vai gostar, é super divertido – falou Carlos.
- Acredito que vou sim – concordei – Elas são lindas.
- São sim, dançam muito bem e são engraçadíssimas.
Madeusa reparando o meu interesse nas Drag queen, perguntou:
- Gente, vai querer ser Drag também?
- Se eu tivesse talento até seria, mas eu não tenho – falei brincando.
  Na boate era dia de festa double. Ou seja, você comparava uma bebida e ganhava mais uma. E todo mundo dava a sua segunda para mim.
- Gente, era para eu beber uma cerveja só – falei para eles. Olhando para o Carlos, eu disse – Você não disse que ia cuidar de mim?
- Claro que eu estou cuidando, mas não faz mal você beber um pouco mais, isso vai te deixar mais solto, mas extrovertido, isso pode fazer você até conhecer alguém – falou Carlos.
Eu estava ficando meio tonto já. Eu fui sentar nos sofá e os meninos vieram junto comigo. Eu ouvi Henrique falando com o Carlos:
- Carlos, você disse que ele gostava de beber, por isso estamos dando bebida para ele a noite toda. Você disse que ele estava acostumado – falou Betão.
- Viado, o que você esta planejando? – perguntou Madeusa -  Ta querendo deixar o gato bêbado?
Eu estava ouvindo tudo, com a cabeça encostado no sofá.
- Ta bom Madeusa, eu to curtindo ele. Eu chamei ele aqui na boate para ver se eu consigo ficar com ele, estou dando várias indiretas, mas acho que ele não esta entendendo. – falou ele para Madeusa.
- Você acabou de conhecer o menino, Carlos. Ele é um rapaz legal mesmo, mas não é melhor ir com calma? – pergunta Madeusa -  A gente não vai dar bebida mais para ele, ele já esta passando mal ali no sofá – falou ele para o resto dos meninos e me mostrando ali no sofá.
Todo mundo concordou em não me dar mais bebidas.
- Fica ai com ele no sofá, a gente vai voltar lá dançar – falou Madeusa para Carlos - Cuida dele viado, não é para atacar ele e sim para cuidar.
Eles voltaram lá dançar. Carlos foi até o bar e pegou uma água para mim. Ele sentou do meu lado e disse:
- Paulinho, eu trouxe um pouco de água para você. Toma, você vai ficar melhor.
Eu estava me sentindo muito mal, não tinha nem certeza de ter ouvido a conversa do Carlos com os outros meninos, acho até que cochilei ali no sofá. Que bonito hem senhor Paulo, primeira vez na boate, já fica bêbado e dorme? Deixa a dona Rosa saber.
- Obrigado Carlos – falei para ele, enquanto bebia a água – Você é um grande amigo.
- Posso te falar uma coisa? -  perguntou Carlos.
- Claro! -  falei muito mole.
- Desde que você começou a trabalhar lá no mercado eu tenho te visto de uma maneira diferente – falou ele pegando em minhas mãos – Sei que parece muito rápido, talvez você pode me achar até bobo falando isso, mas eu estou gostando de você. Você tem esse jeito caipira, meio bobo, inocente, eu não resisto isso. Queria saber se você queria ficar comigo – perguntou ele para mim.
Quando ele me olhou, eu estava novamente dormindo. Não cheguei nem a ouvir a declaração dele.
- Paulinho? – disse ele mexendo em mim – Paulinho? Acorda, amor? – ele mexia para ver se eu acordava. Mesmo assim eu não acordei.
- Deixa quieto, depois eu falo com ele -  falou ele me deixando ali no sofá e voltando a  encontrar os meninos.
Uns 20 minutos acordei, fui ao banheiro e vomitei tudo.
- Sério, eu juro que nunca mais vou beber mais bebida alcoólica de novo e se eu beber, eu vou ter comido antes e não dessa forma que eu fiz hoje.
Fui até a pia joguei uma água no rosto, fiz um bocejo com água para o gosto e o cheiro de vomito. Eu fui até o bar comprei um chicletes e fui dançar com meus amigos. Eu já estava me sentindo bem melhor.
- Olha quem chegou – disse Henrique, festando a minha chegada.
- Esta melhor meu querido? – perguntou Madeusa. Ele era muito querido, parecia que gostava de cuidar das pessoas.
- Estou sim. Muito obrigado por ter perguntado.
- Viado, agora vamos curtir, porque a noite é nossa! Ta meu bem! Ta querida – gritou Madeusa.
Eles bebiam e dançavam muito. Carlos estava me olhando de um jeito de diferente, confesso que com um certo carinho. Ele chegou perto de mim e disse:
- Você esta bem, Paulo?
- Estou sim.
- Que bom. Acho que a agua que eu te dei te ajudou.
- Você me levou agua? Não lembro, muito obrigado – falei.
- Você não lembra? Você esqueceu que eu te dei agua? -  perguntou ele de certo modo estressado.
- Esqueci sim Carlos. Eu lembro que eu deitei no sofá e depois parece que o álcool apagou tudo da minha memoria, eu só lembro da vontade de vomitar tudo, dai eu fui correndo para o banheiro e melhorei.
- Você não deve ter ouvido o que eu te falei – falou ele bem baixinho.
- Desculpa? Eu não entendi o que você disse agora – perguntei.
- Falei que bom que você está melhor -  falou ele fingindo.
- Graças a você ter cuidado de mim – eu cheguei perto dele e disse – Olha, eu disse que você não era meu amigo e sim conhecido, mas hoje você provou que merece a minha amizade. Você é meu amigo sim.
- Amigo... – resmugou ele, muito baixinho.
Carlos saiu e me deixou ali dançando perto dos meninos.
- Paulo, o Carlos esta te falando alguma coisa que você não gosta? -  perguntou Madeusa para mim.
- Não, ele esta sendo super gentil comigo. Até falei para ele que ele é um grande amigo.
- Amigo – repetiu Madeusa, querendo dar risada -  Por isso que ele estava com aquela cara de bravo.
- Ele esta bravo? Como assim?
- Por nada, lindo. Aproveita a festa, bora dançar – disse ele.

Algumas pessoas viam falar comigo e depois de conversar terminavam falando queriam me beijar. Eu sempre dizia que estava acompanhado. Beijo para mim sempre foi algo complicado, eu era do tipo de pessoa que queria guardar o beijo para alguém especial. Ok, eu sei que hoje em dia ninguém faz isso, mas era o meu pensamento. E outra coisa, na cidade que eu morava não ia conseguir beijar ninguém. Se eu desse um beijo em um rapaz na cidade, em alguns instantes a minha mãe e meu pai já estariam sabendo da onde eles estivessem.  Acreditem, a cidade era cheio de pessoas homofóbicas e fofoqueiras. Eu ainda não tinha achado essa pessoa especial, ou seja, ainda não tinha beijado ninguém.
  Um rapaz baixinho, com uma camiseta regata preta, com um desenho de um esqueleto branco, veio falar comigo.
- Qual o seu nome? – perguntou o rapaz. Ele estava com um cheiro horrível, parecia que tinha pulado em um alambique.
- Paulo.
- Paulo de que?
- Por enquanto só Paulo – respondi grosseiramente. Eu não tinha gostado dele.
- Quantos anos?
- Eu tenho 20 anos.
- Nossa, parece que você é muito mais velho – falou ele querendo fazer gracinha.
- O que? Ah não, eu não mereço isso –  falei para os meninos, mostrando o rapaz que estava cambaleando -  Gente me ajuda aqui?
- Esse rapaz está te atrapalhando Paulo? – perguntou Betão.
O rapaz olhou para o Betão, que era alto, ele tinha que levantar o muito cabeça para pode ve-lo.
- Não estou não moço, estou querendo só conversar com o bofinho aqui – respondeu ele.
- Mas ele não quer falar com você – respondeu ele – Sai daqui!
Ele saiu. Eu fui um pouco pra frente junto com os meus amigos. Alguns minutos depois eu senti uma mão me puxando. Era o bêbado dizendo novamente.
- Eu gosto de homens mais velhos, por isso que falei que você era mais velho. Não precisava levar a mal e também chamar o seu segurança -  falou mostrando o Betão -  Mas e ai você beija?
Eu normalmente diria que não, mas como eu já estava morrendo de raiva, eu já não estava ligando para mais nada.  Eu falei gritando:
- Beijo, beijo sim seu animal, beijo a minha mão na sua cara – falei bem perto dele -  Vai tomar um banho para ver se sai essa carniça toda.
- Como você é chato velhinho – falou muito bravo - Você nunca deve ter beijado ninguém.
- Isso não é da sua conta, seu fedido. No seu caso eu não beijo mesmo. Não encontrei a minha boca no lixo -  falei. Todos estavam parados ouvindo eu gritar com ele.
  Ele saiu e foi para o meio do salão conversar com outro rapaz. Eu continuei gritando com ele:
- E fique sabendo você, que eu nunca beijei nenhum homem mesmo – falei bem alto.
     Nesse instante a música parou, um foco de luz foi em mim, todo mundo passou a me olhar e eu ouvi uma voz dizendo:
- Tá meu bem! Mas esse problema nós vamos resolver agora – disse a Drag Queem, no palco.
  - Pode vir meu bem – falou a Drag do cabelo ruivo, comprido e com um vestido vermelho – Menino pode subir, não tenho todo o tempo do mundo não, quando o sol nascer eu volto a ser homem de novo.
- Não, eu não vou ai não – falei com muito medo. Os meninos me empurravam – Gente para, eu não quero ir lá. Vocês podem parar de ser desagradáveis?
- Vai sim, Paulo – suplicou Betão – Vai ser legal.
- Eu tenho medo – falei.
Do palco ela disse:
- Não precisa ter medo não meu querido, eu não mordo, a não ser que você peça, dai eu mordo sim – todos da boate riram.
- Eu tenho vergonha, não quero subir – falei para os meus amigos.
Madeusa muito tranquila me disse:
- Suba no palco e divirta-se Paulinho.
- Jura Paulinho? – perguntei tremendo.
- Sim, elas são super tranquilinhas – falou Henrique.
    Quando ele disse isso a Drag do palco, pegou um leque, bateu com força no ar fazendo um grande barulho , fazendo o som “Vraaaa!” e perguntou:
- Se a senhora não for subir, eu vou ai te buscar. Para de conversar com o seu namorado e vem logo.
- Eu não tenho namorado – falei subindo ao palco.
     Ouvi Carlos falando bem baixinho: “ Não tem namorado, ainda!”. Subi no palco sendo aplaudido pelos meus amigos e pelas outras pessoas que estavam lá.
- Qual o seu nome? – perguntou a Drag.
- Paulo – falei com muita vergonha.
Para de tremer Paulo, para de tremer.
- Ai gente, já gostei de você. Adoro tudo o que começa com  pau – e segurando a minha mão  e mostrando para todos, ela continuou – Gente, olha a mão dele, ta tremendo tanto que eu não sei se ele é uma pessoa um liquidificador humano.
Novamente todos riram.
- Paulo, qual a sua idade?
- Eu tenho 20 anos.
- Ativo ou passivo? -  perguntou a Drag.
- Claro que ativo – respondi -  Você acha que eu sou homem de ficar parado? Eu sou um cara produtivo, sempre ajudei o meu pai na loja dele – respondi. Eu estava tentando me soltar um pouco.
- Ai bicha, como a senhora é lesada, vai dizer que você não sabe o que ativo ou passivo?
- Não é a pessoa hiperativa? Aquela que se mexe o tempo todo? – perguntei -  Ela é uma pessoa ativa – eu estava gostando dos risos das pessoas.
- Ativo é quem comi e passivo é quem dá – falou ela rindo, junto com todo mundo da boate.
     Já não estava achando mais tão engraçado como antes.
– Você disse que nunca beijou ninguém na sua vida? – perguntou ela
- Ainda não beijei.
- Ou seja, não deve ter feito sexo também – disse ela.
Eu não respondi, mas também não tinha feito.
- Mas como temos que resolver um problema por cada vez, vamos primeiro resolver o problema do beijo. Quem quer beijar o pau aqui? Quer dizer, o Paulo aqui?
     Varias pessoas levantaram a mão, vi até o Carlos com a mão levantada, mas quando ele viu que eu havia percebido, ele abaixou.
- Ta podendo em passiva? Escolhe quem você quer, todo mundo quer beijar você - disse a Drag.
- Não sei – disse com vergonha -  Eu realmente tenho que beijar alguém?
- Com certeza, se a senhora não beijar alguém, eu mesmo vou te beijar – falou ela levando todo o publico a loucura - Se você não escolher eu escolho, hem.
 - Por mim tudo bem -  falei.
 - Ok, deixa eu procurar.
Ela desceu do palco e foi andando entre as pessoas. Enquanto ela andava, um foco de luz ia acompanhando ela.
- Dei achei, esse aqui? – falou pegando no braço de um magrinho – Melhor não, faltou um pouco de feijão para esse – ela chegou do lado de um gordinho e perguntou – E esse aqui? Melhor não, esse comeu todo o feijão da outra bicha ali – o rapaz gordinho estava rindo. Parecia que todo mundo achava engraçado que a Drag brincasse com eles.
Ela parou do lado de um rapaz, eu não estava conseguindo ver direito com ele era.
- Olha Paulo, parece que eu achei um bofinho aqui – falou ela do Palco – Você esta acompanhado? – perguntou ela para o rapaz.
- Não, eu estou sozinho.
- O que acha de subir de no palco e conhecer o meu amigo passivo, ou ativo Paulo? – perguntou ela.
- Adoraria, ele é lindo – respondeu o moço. Eu ainda não tinha visto direito quem era. Mas tinha uma voz linda.
Eu consegui ouvir Madeusa gritando:
- Paulinho, ele é lindo!
    Eles subiram no palco, eu ainda não estava conseguindo ver quem era direito, acho que o efeito do álcool ainda fazia efeito em mim. Ela começou a conversar com ele.
 - Nossa, como você é bonitão, esta belíssimo com essa camiseta em “V” azul escura. Inclusive gato, se você não quiser beijar ele, pode beijar eu mesma – falou a Drag rindo - Qual o seu nome?
- Tiago – falou o moço.
      Como era o nome dele? Tiago? Seria muita coincidência se fosse o menino do lago. Com certeza não era. Me forcei para ver. Sim, era ele mesmo, é o rapaz que me parou no igapó da barragem, me disse que eu sou engraçado e  perguntou se eu poderia me ligar depois. Eu com muito medo fingi que anotei o seu telefonei e disse que iria ligar para ele. Eu não anotei nada.
O Tiago me olhando disse:
- Você disse que iria me ligar e não ligou – ele estava com um sorriso de cachorro. Era lindo.
- Vocês já se conhecem? – falou a Drag espantada - Assim não vale, eu vou trocar você, vem outro  - falou ela falando para todos.
- Não - gritamos ao mesmo tempo.
  Ela olhou para nós, depois também para o publico e disse:
- Hum, acho que vai rolar alguma coisa aqui, de repente já acaba com tudo o que não conseguiu fazer ainda, né? – perguntou ela se referindo ao sexo.
       Ele era uma gracinha, devo confessar. Loirinho, um pouco menor do que eu, com os dentes perfeitos, o cabelo penteado meio moicano e realmente estava muito bonito com a camiseta em “V” azul escura.
- Dj, música para o primeiro beijo – ordenou a Drag.
    Começou a tocar:  More Than Words  da banda  Extreme. Ele me olhou, deu uma piscadinha e fez um sorriso bem malandro. Eu gostei. Fiquei parado, enquanto ele vinha até a mim cantando a música em um inglês perfeito:
- “Saying I love you , Is not the words I want to hear from you.
It's not that I want you , not to say, but if you only knew. How easy it would be to show me how you feel”.
Ele chegou de frente do meu rosto, colocou a mão em meu pescoço, segurou a minha mão bem forte, aproximou minha cabeça com a dele, me olhou nos olhos, chegou a boca dele perto da minha e cantou – “More than words is all you have to do to make it real ,then you wouldn't have to say that you love me, Cause I'd already know.”
Ele me beijou. Tiago beijava muito bem, muito bem mesmo. Eu não sabia como eu estava me saindo. Parece que ele também gostando do beijo. A musica continuava tocando deixando aquele momento mais romântico ainda.  Depois de um tempo beijando, ele disse baixo e carinhosamente em meu ouvido:
- Você tem que usar a língua para beijar, não pode deixar ela no fundo da sua boca. Vai ver, ficará bem melhor.
- Desculpa – falei.
- Não precisa pedir desculpas, eu estou aqui para te ajuda, lindão. Fica tranquilo.
      Eu só sorri, enquanto tremia. Todo mundo aplaudiu o meu primeiro beijo.
- Muito lindo, podem parar de beijar – disse a Drag.
A gente não obedeceu. Ela foi no meio da gente e brincando nos separou.
- Para gente, daqui a pouco eu vou ter que jogar uma água para separar vocês dois? - perguntava ela. O povo ia à loucura com as piadas dela.
 Nós paramos!
 – Pessoal, vocês acham que o Pau aqui deve ganhar um cd de músicas eletrônicas da nossa boate, para lembrar dessa noite?
     Todo mundo aplaudiu e gritaram freneticamente. Eu agradeci, fazendo reverencias.
- Passiva, não se empolgue, o povo sem apoia o mais fraco – todo mundo riu – Ta meu bem! Ta querida! – “vraaaa!” fazia o som do leque dela -   Aplausos para o Paulo e para o meu namorado, Tiago – falou ela me entregando o cd.
     Sai aplaudido do palco, com o Tiago segurando minhas mãos. Fomos até a rodinha dos meus amigos que estavam com a boca aberta.
- Arrasou bicha – falou Madeusa, batendo em minha mão – Nossa, que sortuda a senhora, beijando esse lindo.
- Sortuda mesmo – falou Henrique – Mas ele também é sortudo, porque você é bonitão.
      Todo mundo ficou olhando para o Carlos, para ver se ele iria dizer alguma coisa.
- Achei legal – disse ele muito sem graça.
- Valeu Carlos – agradeci.
- Podia ser melhor – falou ele.
Madeusa fingiu que estava espirrando e fez o som de “Inveja!”, depois de novo “Ta com muita inveja!”.
Carlos nos deixou lá.
- Olha esse viado – falou Madeusa - Legal? Foi um conto de fadas aqui na nossa frente.
 – Foi lindo, nossa! Acho que vocês super combinam -  disse Betão.
       Estávamos na pista de dança, Tiago me propôs para sentarmos no sofá da outra área, para podemos ficar mais a vontade. Fomos. Eu sentei primeiro, ele sentou atrás de mim e ficou fazendo carinho em minha cabeça.
- Você não iria me ligar, né? – perguntou ele.
- Desculpa, eu fiquei com medo. Eu confio muito nas pessoas e por isso eu acabo sempre quebrando a cara – falei olhando para ele. Ele tinha olhos verdes.
      Ele pegou o celular dele, foi em contatos e ligou. Meu celular começou a tocar.
- Esse é o meu numero – falou ele -  Anota ai em seus contatos.
- Como você tem o meu número? Agora não entendi nada, que brincadeira é essa? - falei levantando do colo dele.
- Relaxa moço – falou ele rindo e me puxando de volta – Quando você foi anotar o meu celular, eu vi que atrás do seu celular tinha um número anotado. Deduzi que fosse o seu, então depois que você saiu, eu anotei ele no meu celular. Mas não liguei porque fiquei esperando você ligar. Mas o destino foi muito mais criativo com essa história de primeiro beijo.
- Eu sou muito desligado e esquecido, nem lembrava que o meu numero estava atrás do celular. Esse numero é novo e eu ainda não decorei, por isso deixa aqui atrás do meu aparelho celular - e dando um beijo nele, eu disse -  Pois é, o destino mandou muito bem.
- Eu também achei – falou ele, me dando mais um beijo demorado.
Deveria ser umas 04 horas da manhã, as pessoas já estavam indo embora. Meus amigos passaram por nóis dois e Carlos disse:
- Oh casal, a gente esta indo embora já, vamos Paulo? – ele estava de um jeito bravo.
Eu estava me levantando para ir, quando o Tiago disse:
- Lindo, eu também estou indo, se você quiser eu posso te levar, claro se quiser e se seus amigos não se importarem.
- Claro que não importamos – disse Carlos.
- Sem problemas – disseram Henrique, Betão e Madeusa.
Carlos resmungou alguma coisa e  depois disse:
-  Não esqueci que amanhã você trabalha as 14 horas viu – falou ele, como se fosse meu chefe.
Depois disso ele virou as costas e foi pagar para ir embora.
- Por mim tudo bem – falei olhando para o Tiago e para os meninos.
- Cuida dele viu, Tiago – falou Madeusa.
- Pode deixar, vou cuidar, essa encomenda será entregue com sucesso – falou ele brincando.
Eles foram. Ficamos ali no sofá, até que Tiago me perguntou:
- Esse tal de Carlos, gosta de você?
- Não, ele é meu amigo, por quê?
- Pelo modo como ele te olha, ele tem jeito de te olhar que parece que gosta de você. Vocês nunca tiveram nada?
- Ele é o meu único amigo aqui em Londrina – falei – Mas, ele é somente meu amigo, pode ficar tranquilo.
Ele olhou no relógio e disse:
- Lindão, vamos indo? Amanhã você trabalha, eu não quero te atrapalhar – falou ele.
- Vamos sim, Thiago.
Nós pagamos e fomos embora da boate.
- Onde você mora? – perguntou Tiago abrindo a porta do carro para mim.
- Moro no centro, na rua Mossoró, em cima da academia, em uma pensão.
       Ele disse que sabia aonde era. Me olhou e perguntou:
- Você esta se sentindo bem Paulinho?
-  Mais ou menos, porque? – minha cabeça estava doendo um pouco.
Ele colocou a minha em minha cabeça e disse:
 -  Porque você esta ardendo em febre. Vamos embora, lá eu cuido de você.
Ele ligou o som do carro baixinho e fomos ouvindo o cd da Vanessa da mata, tocava Boa sorte. Encostei no banco e fiquei quieto até lá. Depois de uns 20 minutos ele perguntou:
- É aqui? – perguntou ele.
- Oi? Desculpa, eu cochilei aqui – falei meio que saindo de uma transição – É aqui sim – falei.
  - Paulinho, eu  vou entrar com você, pelo menos para te colocar na cama, você não esta nada bem.
- Pode subir, mas se alguém perguntar alguma coisa, você é meu primo. Ninguém sabe de mim aqui.
- Mas alguém vai estar acordado uma hora dessa? São 04:30 da manhã.
- Esse povo não dorme. Sempre tem alguém que esta assistindo televisão, ou alguém que esta acordando – comentei.
         Nós subimos a escada, eu peguei a chave do meu quarto e abri a porta. Tudo no mínimo de barulho. O meu quarto era muito pequeno, com uma mesa, uma cadeira, um mini armário e uma cama de solteiro.
- Desculpa pela bagunça – falei sentando na minha cama - Nossa meu, minha cabeça esta ardendo demais – falei.
- Fica ai, eu vou fazer alguma coisa para você comer. Você tem macarrão instantâneo?
- Tenho sim, esta no meu armário. Pode pegar se quiser. Vou deitar aqui, esta bom? – eu já estava delirando um pouco. Eu era a perfeita mistura sono, febre e um restinho de álcool que não tinha ido embora ainda.
       Ele pegou o macarrão, me deu um beijo e foi na cozinha. Alguns minutos depois ele voltou, com um prato e foi me dando na boca:
- Toma bem devagarzinho, que esta muito quente – disse ele assoprando a minha sopa.
       Eu até podia estar meio bêbado, com febre, mas parece que nunca tinha me sentindo tão feliz quanto aquele momento. Tinha um menino lindo na minha frente, preocupado comigo.
- Só vou comer se você fizer aviãozinho – falei rindo.
- “Vum” – falou ele mexendo a colher em minha direção – Atenção passageiros, aqui quem fala é o comandante Tiago, estamos nos preparando para aterrissar no aeroporto boca linda. Por favor, apertem o cinto.
       Comi toda a sopa e logo comecei a suar, ou seja, a febre havia passado.
- Paulo, eu estou preocupado com você, será que eu posso dormir um pouco aqui? Relaxa, eu não vou abusar de você, eu só quero ter certeza que você vai ficar bem o restinho da noite.
- Pode sim! – falei.
      Ele tirou a camiseta, dava para ver que ele fazia academia, tinha tudo bem definido. O rapaz continuou com a calça. Tiago deitou atrás de mim, passou o braço pelo meu pescoço e a outra mão em minha barriga.
- Isso aqui é dormir de conchinha – falou ele me dando um beijo no pescoço.
- É bom isso – falei com muito sono - Boa noite, Tiago.
- Boa noite meu anjo- falou ele, me dando mais um beijo no pescoço e me puxando para bem perto dele.

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