Capítulo 0 – Apresentação de personagem

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 Conectei o meu fone de ouvido no celular, na musica do Cazuza: “O tempo não para”. Amarrei o meu tênis e comecei a caminhar no lago igapó:
- “Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso, minha metralhadora cheia de mágoas, eu sou um cara. Cansado de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada,
eu sou mais um cara.” – cantava.
      As pessoas me olhavam estranhamente, mas eu nem ligava. Gosto muito de Cazuza e de cantar. Parei um pouco, bebi agua e fiquei espantado com a beleza do lago e com a magia do por do sol. Sentei a beira do lago e fiquei assistindo aquele espetáculo. Queria que minha mãe visse isso. Ela esta longe, em uma cidade pequena, junto com meu pai e minha irmã.
      Estou aqui em Londrina, faz um mês. Meus pensamentos voltaram para o dia em que meus pais me chamaram na sala e meu pai começou a perguntar:

- Paulo, você tem certeza que quer mesmo ir para Londrina?
- Tenho!
 Olhando para a minha mãe ele comentou:
- Eu e sua mãe conversamos e decidimos apoiar você. Ajudamos a pagar as suas contas, até você achar um emprego.
- Sério pai? – perguntei animado. Ele afirmou. Corri, dei um abraço nele e em minha mãe, que já estava ficando triste – Obrigado, vocês são os melhores pais do mundo.
- Filho, porque você quer ir para lá? Fica aqui com a gente, não vai não. Você é o meu caçulinha, não quero que você vá – comentou a minha mãe.
- Fica calma, dona Rosa -  falei -  Mãe, sabe aquele crescimento que dizem que a gente só tem quando mora fora? Eu quero ter, quero aprender com a vida, ter mais privacidade, sair das asas de vocês. Quero virar um adulto.
Meus pais são as melhores pessoas do mundo, sempre me ajudaram em tudo o que eu precisei. Minha mãe, Rosa, é a pessoa mais incrível do mundo, a flor mais perfeita do mundo. Meu pai, Sr Osvaldo, o homem que teve vários irmãos e por causa que seu pai morreu cedo, ele teve que cuidar deles. Teve a responsabilidade muito cedo. Era um senhor teimoso. Ele não era tanto de dizer palavras bonitas, era mais de agir, nunca deixou nada faltar em casa. Ele continuou dizendo:
- Paulo, então arranja um emprego e compra uma chave pra trancar a porta do seu quarto, assim você terá privacidade –  comentou meu pai brincando. Depois ele chegou perto de mim muito sério e disse – Olha filho, a vida é muito dura e você estando aqui com a gente, nós podemos te uma vida mais fácil. Você ainda é novo, tem 20 anos só.
- Pai, eu sei que vocês querem que eu fique, mas uma hora isso tem que acontecer. Mas Londrina é perto e sempre que der, eu venho ver vocês. Fica a 1 hora e 45 de carro, ou 3 horas de ônibus.
- Promete meu, “Caipira Simprão”? – disse minha mãe, lembrando meu apelido.
- Sim, dona Rosa.  Você ainda vai ter que fazer muito bolo de chocolate, porque eu vou vir sempre. Agora vêm aqui vocês dois. Quero um abraço e um beijo.
        Eles me abraçaram ao mesmo tempo. Sabe, eu não menti quando falei com eles, mas omiti alguns detalhes. Eu sou gay não assumido. Nasci assim, tentei até ficar com mulher, mas eu me enganava e isso é péssimo. Ao contrario do que as pessoas dizem, isso não é uma escolha. Eu tive que me aceitar assim. Mas viver em uma cidade,  aonde a maioria das pessoas são muito homofóbicas e acham que quem é gay quer virar mulher, não dá.
- “Não para não, não para!“ – continue cantando enquanto lembrava daqueles momentos.
       Levantei-me da beira do lago e voltei a caminhar. A música que tocava agora era: “Eu preciso dizer que eu te amo”, também do Cazuza.
- “Quando a gente conversa, contando casos, besteiras. tanta coisa em comum, deixando escapar segredos.”.
       No dia em que eu estava vindo para Londrina, estavam todos esperando o caminhão de verdura sair. Sim, um caminhão de verdura. Um caminhoneiro ia para Londrina e ofereceu me levar junto. Ele já conhecia os meus pais, é um sujeito de confiança. Pai, mãe, Irmã e cunhado, estavam todos lá esperando pra me “despachar”.
- Paulo, você liga quando chegar? – perguntou a minha mãe, segurando a minha mochila.
- Sim mãe.
- Paulo, pegou o seu celular, escova, R.G e C.P.F?  Tem dinheiro? – perguntou meu pai.
- Só falta o dinheiro, já que você não me deu – falei rindo.
      O caminhoneiro nos disse que já estávamos indo.
- Só um momento moço, deixa só eu me despedir do meu filho – disse minha mãe começando a chorar – Meu menino esta indo embora. Meu filho eu te amo! Não esquece de mim, tá bom? Me liga todos os dias? -  dei um beijo e um abraço demorado nela.
- Mãe, esta tudo bem. Você vai ver, você vai se acostumar e eu também vou me acostumar. E tudo ficará bem. Confia em mim? – ela fez que sim com a cabeça, mas continuou chorando copiosamente.
       Abracei meu papai, que mesmo se fazendo de forte, dava para ver que não estava muito bem.
- Desculpa por alguma coisa meu filho, eu devia ter sido um pai mais presente, mas eu estava trabalhando para você pode estudar e ter tudo de melhor – agora ele também chorava – Você é o meu menino, eu nunca pensei que você iria embora tão cedo, mas saiba que nós somos um tripé: Eu, sua mãe e irmã. Estamos aqui para te dar apoio sempre, qualquer coisa volta.
Fui me despedir da minha irmã, mas me pai me puxou pelo braço e chorando muito me disse:
- Filho, eu acho que nunca te disse isso, mas “Eu te amo!”. Amo mais você do que a mim mesmo.
       Eu queria dizer que eu também amo muito ele e que o meu herói não era o “Homem Aranha” e sim ele. Gosto de heróis de verdade. Também gostaria de dizer que só estava indo embora porque eu tinha que viver e não queria ficar escondendo a minha sexualidade.
- Eu também pai, amo você! Você não errou em nada. Obrigado por tudo.
Fui até a minha irmã, que estava dizendo:
- Eu não vou chorar, eu não vou chorar! – ela começou a chorar – Desculpa não aguentei.
       Minha irmã era a única pessoa que sabia de mim, ela perguntou o que houve em um dia que estava chorando no cantinho do meu quarto. Assim contei tudo para ela e a nossa amizade aumentou disparadamente.
- Meu irmão lindo, não confia em todo mundo. Nem todo mundo tem um coração tão grande como o seu, as pessoas pode achar que essa bondade sua é fingimento, elas não conseguem enxergar que você é puro.
- Obrigado Flavia, você é perfeita! Meu anjo da guarda. Te amo, se cuida e cuida da mãe, por favor – falei.
     Olhei pro meu “cunhadão” e cumprimentei:
-  Falou “Manolo”!
- Tchau Paulo, vai com Deus!
- Fica com ele também.
      O caminhoneiro buzinava. Ele não estava vendo que aquilo era uma despedida de até logo? Parece que não tem sensibilidade.
- Estou indo! – falei irritado – Mãe, pai, Flavia meu anjo, se cuidem. Me liguem quando quiser.
      Entrei no caminhão, do lado do carona e dai uma ultima olhada para eles. Minha mãe chorava muito. Senti uma vontade indescritível de pular do caminhão que já andava e dizer que ela não precisava chorar.
- Mãe é mentira, não chora por favor. Eu fico! Tudo não passou de uma brincadeira minha e do pai. Mãe para de chorar. Feliz dia primeiro de abril em novembro. Mas por favor, mãe, para de chorar – pensei.
     Mas não foi o que eu fiz. Acenei para eles, me encostei-me ao banco do carona e fiquei quieto a viagem inteira. Agora era um sujeito que nem casa eu tinha. Não morava mais com os meus pais e não conhecia a pensão que eu ia morar em Londrina. Era um quase sem teto.
     Desliguei a música e com os meus pensamentos voltando para aquele momento, reparei que já estava quase escuro.
- Nossa, é bom eu voltar. Eu não sei andar nessa cidade nem de dia, imagina de noite? – falei sozinho.
      Passou um rapaz loiro e novo me olhando e perguntou:
- Você estava falando comigo?
- Desculpa moço, eu sou meio louco, falo sozinho mesmo – falei sério.
- Você é engraçado – falou ele rindo – Qual o seu nome?
- Paulo e o seu?
- Tiago.
     O que será que aquele rapaz queria? Podia ser um cara hétero, que reparou que eu sou gay e iria me bater até a morte: “Não confia em todo mundo”. Se bem que ele é bonito, bem bonito.
- Prazer Tiago, mas eu tenho que ir pra casa. Abraços, a gente se vê por ai.
- Paulo, será que eu posso pegar o seu número de celular?
- Fala o seu que eu anoto – ele falou e eu anotei – Eu te ligo.
- Liga mesmo?
- Sim, pode esperar – falei mentindo.
- Ta bom! Valeu – falou ele indo embora.
     O que aquele rapaz queria? Não vou ligar para uma pessoa que eu não conheço. Mas ele parecia que realmente estava a fim de falar comigo. Olhei para trás e ele estava me olhando também. O jovem acenou e eu também acenei.

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