Capítulo 2° - Revelações
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Meu celular estava configurado para me despertar às 12h30min e nesse horário, ele tocou a música: Umbrella da Rihanna. Sabe aquela sensação que tem alguém gritando em seus ouvidos? Era essa sensação que eu tinha. Eu não estava acostumado a beber, mas eu bebi tanto que acabei passando muito mal. Minha cabeça estava estranha, mas era o sono junto com o finalzinho do álcool.
- Mas já é hora de levantar? - falei bocejando - Cadê o Tiago?
Do lado meu lado não havia ninguém, só uma carta, com as escritas:
“Bom dia meu lindo, como você esta? Dormiu bem? Desculpa por não ter te acordado, mas é que eu tive que ir trabalhar. E você estava dormindo tão bem, que nem quis te acordar. Você deve estar com fome, não é? Eu fiz um lanche e um copo de suco de laranja para você. Estão em cima da mesa.”
Eu olhei e os dois estavam lá.
“Uma senhora que esta na melhor idade, me perguntou quem sou eu, então lembrei que você me disse, que se alguém perguntasse, eu era seu primo e foi isso o que eu disse. Gostaria muito de vê-lo hoje à noite depois do seu trabalho. O que acha? Passo de carro te buscar no mercado, pode ser? Eu sei que nos conhecemos a pouco tempo, que nesse mundo gay tem muitas pessoas que não querem nada, mas pode acreditar que eu sou diferente. Eu curti muito você e se você quiser a gente vai se conhecendo melhor. Você tem o meu numero de celular, é só me ligar caso queira me falar alguma coisa. Beijos do seu Tiago. P.S: Tenha um dia perfeito, assim como o meu já esta sendo.”.
Será que tudo isso era verdade? Parecia mais um conto de fadas incrível.
- Eu nunca mais vou a uma festa de compra uma bebida e ganha outra – falei levantando da cama.
Tomei um banho, comi o lanche que o Tiago fez e fui correndo para o mercado. Cheguei as 14h00min em ponto. Eu estava me sentindo muito animado. Seria o Tiago a pessoa que eu sempre quis conhecer? Foi tão bonito o nosso beijo, foi muito especial. Cheguei no caixa que estava o Carlos e perguntei:
- Bom a tarde Carlos, tudo bem? – cumprimentei.
- Oi ativo! Gente eu nunca dei tanta risada como eu dei ontem – falou ele rindo demais. E me imitando, disse - Claro que ativo, você acha que eu sou homem de ficar parado? Eu sou um cara produtivo, sempre ajudei o meu pai na loja dele.
Eu também ri junto com ele.
- Falei que você iria fazer sucesso, seu caipira? Aquela boate parou para te ver, todo mundo queria você. Essas bichas não podem ver uma carne nova que atacam. Você é novidade aqui na cidade, Paulo - e falando um pouco mais sério, ele me perguntou - E como foi com o bofe ontem?
- Depois de me levar para casa, ele fez uma sopa e nós dormimos juntos.
- Nossa, mas já? Resolveu o problema do beijo e da virgindade tudo em um dia só? – perguntou ele sério mais ainda – Você é muito ágil.
- Claro que não bobo, é que eu estava com febre e ele cuidou de mim.
- Mas agora você esta bem?
- Sim, estou – falei sorrindo – Carlos, deixa eu te perguntar uma coisa?
- Claro, pode sim.
- Por que o apelido do Matheus, é Madeusa?
- Olha, é porque ele ama aquela musica assim: " Como uma Deusa, você me mantem - falou ele levantando as mãos sensualmente. Eu não estava me aguentando de tanto rir – Dai ele disse que ele é uma Madeusa. Ele é muito engraçado.
- Adorei, muito criativo.
Ele fez um ar de chateado.
- O que aconteceu, Carlos? Eu fiz algo para você? Reparei ontem que de uma hora para outra você começou a me tratar diferente, estou fazendo alguma coisa que eu não devia?
- Sabe, eu ando sentindo uma coisa estranha esse dias e não sei como dizer para a pessoa o que eu estou sentindo – falou ele com a cabeça baixa - Aliás, eu já até disse, mas ele estava tão bêbado que nem ouviu.
- Nossa, esse povo que bebe muito é complicado – falei - Ele estava na boate ontem?
- Estava sim – falou ele.
- Conta para mim, se eu puder te ajudar, eu ajudo. Você agora não é mais meu conhecido de trabalho e sim meu amigo. Eu quero te ajudar, Carlos.
Ele suspirou e depois concordou:
- Tudo bem, eu acho que você merece saber. Paulo, eu queria saber se... – mas ele não conseguiu falar, porque um cliente chegou com as mercadorias para ele passar. Me olhando ele disse – Vamos fazer o seguinte, na hora do intervalo a gente conversa. Pode ser “Caipirão ativo”?
- Claro que pode – falei rindo do novo apelido.
No mercado, nós tínhamos um refeitório, onde vários pratos eram servidos. O refeitório tinha varias mesas grandes e vários bancos também do mesmo tamanho. Nesse horário, só estava eu e o Carlos. Nesse dia estava sendo servido: lasanha de presunto e queijo, com carne, tomate e arroz.
- Que delicia! – falei colocando o meu prato de comida na mesa.
Na minha frente estava o Carlos. Ele estava muito inquieto.
- Você não vai comer, Carlos? – perguntei enquanto comia.
Ele estava muito sério, nem me respodeu.
- O que você gostaria de me dizer? O que esta te atormentando? - perguntei.
- Sabe Paulo, ontem eu te falei isso, mas você não esta lembrando, estava muito bêbado – disse ele dando uma pausa. Eu já imaginava o que ele ia dizer - Tem uma pessoa que me encanta demais, mas acho que ele não se tocou.
- Sério? Ele deve ser muito besta – falei.
- Estou falando sério sim, mas ele não é besta não, é inocente mesmo. Estou apaixonado por ele, ele me faz sentir algo tão estranho, tão enigmático, que se ele me pedir o mundo, eu dou.
- Esse cara é um sortudo, você é uma pessoa incrível, meu amigo.
Ele começou a rir, um riso quase se transformando em um choro.
- O que foi que aconteceu? – perguntei.
- Você me chamando de amigo – falou Carlos agora puxando os cabelos.
- Mas você é meu amigo – falei colocando a mão nos ombros dele, por cima da mesa.
Ele segurou a minha mão, me olhou e disse:
- Eu estou gostando de você, Paulo – ele se levantou do banco, foi até o outro lado, sentou do meu lado e continuou – Eu sou completamente apaixonado por você, eu penso em você o tempo inteiro, eu estou sonhando com você, eu só quero você. Até mesmo quando eu estou perto de ti, eu te desejo.
Eu não sabia o que falar, o que eu tinha ouvido na boate era verdade, achei que fosse sonho, isso explicava o modo como ele estava tratando o Tiago e eu ontem.
- Eu tenho tantas qualidades – falou ele - Deixa eu te mostrar como eu sou um cara legal? Me dá uma chance de te mostrar isso. Posso te levar para a praia para vermos o por do sol juntos. Você quer ir para Marte? Eu te levo, eu faço o que você quiser, Paulo. Eu estou completamente louco por você. Eu não sei nem como me comportar – falou ele ainda segurando a minha mão.
O Carlos é uma boa pessoa, mas não me atrai. Ele sempre estava usando sua camisa rosa da empresa, com um rosto cheio de cravos e espinhas, pele branca, do cabelo preto liso. O seu corte de cabelo era diferente, parecia que ele tinha colocado uma tigela na cabeça e cortado em volta, lembrava cabelo de Índio. Deveria ter uns 15 cm de altura a menos do que eu. Independente de ele ser assim, eu poderia gostar dele, mas ele não fazia meu coração acelerar, eu não sentia química com ele.
- Eu sei que você tem um monte de qualidades, eu te acho uma pessoa fantástica. Mas eu estou curtindo o Tiago.
- Para de falar desse Tiago – falou ele tirando as mãos da minha, de uma forma agressiva - Fica comigo caipira? – pediu ele se aproximando de mim, mais ainda.
- A gente não escolhe de quem gosta. Mas eu escolhi você para ser o meu melhor amigo - falei tentando acalma-lo - Não estou falando que eu vou ficar com ele para sempre, até porque faz menos de um dia que a gente conversa, mas mesmo assim, eu estou curtindo ele e eu quero ver no que vai dar isso – falei me afastando, chegando na ponta do banco.
- Para de me chamar de amigo, eu não quero ser seu amigo, eu quero ser seu namorado.
O modo como ele estava falando me assustava.
- Carlos, você pode ir um pouco para lá? Você esta muito perto – pedi para ele. Mas ele não foi.
- É perto mesmo que eu quero ficar de você - falou Carlos - Caipira, presta atenção em mim, eu sou louco por você.
- Realmente você é louco – falei de forma irritada - Você esta me assustando com esse seu jeito. Dessa forma você não vai me conquistar.
Os olhos dele estava diferente. Seria paixão mesmo? Não estava parecendo. Ele voltou a pegar as minhas mãos e apertava forte.
- Fica comigo caipira – pediu de novo.
- Carlos, você esta machucando as minhas mãos, me solta – falei - Você quer que eu grite aqui?
Não era ele quem estava ali, era um louco, um maluco.
- Você não sabe, mas você vai me amar – disse ele.
- Não vou dizer que não, mas nesse momento eu não amo – falei – Eu gosto de você como amigo.
- Cala a boca, eu não sou seu amigo, para de me chamar de amigo, eu não quero ser seu amigo, eu quero ser seu namorado. Cada vez que você me chama de amigo você enfia uma espada em meu peito e tira. Para com isso Paulo - ele gritava bem perto de mim, quase que me beijando - Fica comigo caipira?
- Socorro! Tem um maluco aqui me atacando.
- Não adianta gritar por socorro, essa sala é a prova de som, meu querido – falou Carlos – E agora só eu e você temos esse intervalo de almoço, ou seja, você vai ter que me aguentar, vai vir ninguém aqui.
Eu tentei empurrar ele, mas me desequilibrei e nos caímos do banco. Carlos aproveitou o momento para me beijar. Ele segurou as minhas mãos e me beijou a força.
- E não é que você realmente beija bem - falou Carlos.
Meu celular começou a tocar, eu dei um chute no meio de sua perna, fazendo ele gritar e se afastar de mim. Me levantei e atendi ao telefone:
- Alô? Oi Tiago, tudo bem? – falei, vendo o Carlos gritando de dor no canto da sala – Também estou com saudades – agora ele me imitava e fazia uma cara de nojo - Sim, pode passar aqui as 22:15 para a gente se encontrar. Estou aguardando. Bom trabalho, beijos.
Desliguei o telefone e fui para cima do Carlos:
- O que você pensa que estava fazendo me beijando a força? - falei com muita raiva - Sabia que você pode ser demitido por isso? Você é um louco.
- Alguém viu isso? Desculpa lindão, mas você não tem prova?
- Eu conto tudo pra eles – falei apontando o dedo na cara dele.
- Em quem eles vão acreditar, em uma pessoa que já esta trabalhando a anos na empresa, ou em um empacotador temporário? – insinuou Carlos – Fica comigo caipira? eu gosto de você.
- Nem morto eu fico com você, eu tenho ódio de você.
- Você vai se arrepender de tudo o que você está me falando caipira, isso ainda vai ter troco e você vai pedir para ficar comigo, você ainda vai ser meu. Escrevi isso que eu estou te falando – falou ele me ameaçando.
Meu sangue estava fervendo de raiva.
- Escrevo, pode deixar que eu escrevo sim, escrevo no seu cu, seu imbecil – falei - Não é forçando uma pessoa a ficar com você, que ela vai se apaixonar. Eu queria você só como seu amigo.
- Se não for para ter o seu amor, então eu não quero – falou ele irritado.
- Era a única coisa que eu tinha para te oferecer, mas depois disso tudo o que você fez, nem isso.
Ele deu as costas, foi pegar uma maça para comer e me deixou ali sozinho. Eu voltei a comer a minha lasanha, porque mesmo com raiva do Carlos, eu ainda estava com fome.
Até o final do expediente, o Carlos não falou mais comigo e também nem tentei falar com ele. Fiquei ajudando a empacotar as compras, no caixa de outra pessoa. Às vezes reparava que ele me olhava, mas depois fingia que estava olhando para outro lugar. Eu sei que é horrível alguém te dizer que está apaixonado por ti e você retribuir com um: “Você é meu amigo.” Mas eu não poderia fingir para ele que eu sentia um amor, ou uma paixão só para satisfazer a vontade dele. E outra, eu deveria ter ido a policia, tinha as marcas da mão dele ainda no meu braço, o que ele fez foi uma agressão. Mas preferi ficar no meu trabalho tranquilo, imagina em menos de um mês eu já falar no trabalho que fui agredido e forçaram me beijar? Ou alguém contando para os meus pais porque eu tinha feito um boletim de ocorrência?
- Um rapaz queria beijar o seu filho, senhor Osvaldo – diria algum policial.
- Por isso que eu odeio viado! – responderia meu pai.
Essa é a conversa que eu imaginava que eles teriam. Por isso resolvi ficar no meu canto.
Meu supervisor me chamou e disse:
- Paulo, amanhã é véspera de natal e você esta de folga – e me entregando uma caixa, ele continuou – E esse é uma lembrança nossa para você.
Era um kit de natal, eu queria muito abrir, mas achei que fosse falta de educação, por isso decidi abrir só na pensão, ou então junto com o Tiago, a noite.
- Você vai passar o natal junto com a sua família? – perguntou o supervisor.
- Não, eles vão passar junto com a minha avó em Curitiba.
- Então tenha uma ótima folga – falou ele me abraçando – Um feliz natal para você e te espero aqui na quarta feira, dia 26.
- Muito obrigado! Para você também e pode deixar que eu estarei aqui na quarta.
Podia ser mais perfeito? Véspera de natal de folga e hoje anoite iria ficar junto com o Tiago. O que estava me magoando mesmo era o Carlos.
Ás 22h15min, eu estava na frente do mercado aguardando o Tiago. Liguei no celular dele, tocou, tocou e ele não atendeu. Liguei novamente e caiu na caixa postal. Então mandei uma mensagem:
“ Oi Tiago, tudo bem? Estou te esperando aqui na frente do mercado. Quando estiver vindo me manda uma mensagem ou então me liga”. Beijos.” Enviei.
Ouvi barulho de trovão, corri para de baixo do ponto de ônibus. Sentei e fiquei esperando o Tiago chegar. Que estranho, aonde será que ele esta? Começou a chover muito. Na minha mochila não tinha nenhuma jaqueta, ou outra roupa, só escova de dente, pasta e a roupa do meu trabalho. O Tiago estava demorando demais. Os carros passavam em alta velocidade, jogando água do meio fio e na calçada.
“Tiago cadê você?” mandei novamente uma mensagem.
- Talvez ele esteja no carro dirigindo e não pode me responder ou atender ao telefone – falei sozinho.
Nesse instante, um carro passou em uma poça de água e acertou em um rapaz que estava passando na calçada.
- Que merda! – gritou ele. E me olhando, ele disse – Olho só isso moço, olha isso! Não acredito, molhou toda a minha roupa.
Eu não aguentei e comecei a rir, me achando inconveniente, eu disse:
- Desculpe, mas eu não estou rindo de você. Acho que estou rindo de desesperado.
Ele estava com um ar de riso. Eu continuei falando:
- Estou pensando aqui, que se eu molhar essa minha roupa, também não terei outra.
- Se me molhar te fez rir, para alguma coisa boa serviu – falou ele rindo.
O rapaz tinha um sorriso muito bonito e perfeito. Ele estava usando uma jaqueta cinza, com uma camiseta branca por baixo, uma calça jeans azul e calçando um all star preto. Ele era loiro, com o cabelo loiro escuro, novinho, sem barba no rosto, olhos castanho claros. O seu cabelo estava penteado para o lado, ele tinha um cabelo curto bem liso. Ele sentou do meu lado no banco. Aparentava ser novo, com os seus 17 ou 18 anos de idade. Ele me perguntou:
- Esta esperando alguém?
- Sim, um amigo meu disse que iria vir me buscar, mas pelo jeito esta me dando os canos – falei olhando as horas. Porque ele queria saber disso? Será que vai me assaltar?
Eu recebi uma mensagem do Tiago dizendo que ele não poderia ir e que iria me explicar o motivo depois.
- Eu estou indo pra minha casa, a minha mãe esta vindo me buscar. Desculpe a minha má educação, o meu nome é Marcus e o seu? – falou ele me cumprimentando.
- Paulo – falei pegando na mão dele. Peguei o meu celular, liguei para o Tiago e novamente caiu na caixa postal – Acabei de receber uma mensagem do meu amigo, ele me disse que não vai pode vir. O que será que aconteceu?
- Não deve ter acontecido nada demais – falou o moço.
- Espero – falei – Prazer em conhece-lo Marcus, vou indo nessa então.
- Mas você vai nessa chuva? Espera um pouco que eu peço para a minha mãe te levar – falou o Marcus.
- Não precisa, não quero te incomodar.
- Não será incômodo. Depois você pega uma gripe e ai como é que fica? – falou ele rindo – Sem problemas.
O telefone dele tocou e ele atendeu:
- Alô? Oi mãe. Como assim não atender telefone quando tem chuva? Foi a senhora que me ligou, eu tinha que atender – ele olhava para mim rindo - Não vai pode vir? Ta bom mãe, eu vou de ônibus então. Pode deixar que eu vou me cuidar sim mãe, jajá eu estou ai. Fez janta? To com fome – falou ele rindo.
Não tinha jeito de ser um assaltante. Ele era muito educado, se fosse para me roubar já tinha roubado. Ele desligou a ligação.
- Eu vou ter que retirar a carona que eu te ofereci. Vou de ônibus embora. Parece que nós dois perdemos as nossas caronas – comentou ele - Tenho que ir para o terminal central e de lá ir embora.
- Se você não se incomodar eu também tenho que ir pra lá, se quiser companhia – falei. Eu não estava dando em cima dele. Espero que ele não tivesse achando isso também.
- Não vai ser incomodo não.
Enquanto o ônibus não chegava nós ficamos mais algum tempo conversando sobre o calor que estava fazendo e sobre as músicas mais tocadas daquele ano.
- 2007 foi um grande ano para a música, teve muitas músicas legais – falei.
- Qual por exemplo? – perguntou o rapaz.
- Teve Umbrella, da Rinhanna, Because of you, do Neyo, Boa sorte, da Vanessa da mata, Open your eyes, do snow patrol, razões e emoções, do Nx zero – falei contando na minha mão - Nossa muitas musicas mesmo.
- Você entende mesmo de musica, hem Paulo? – falou ele abismado.
- Não é que eu entenda, é que eu sou 80% composto por musica – falei rindo.
- E os outros 20%?
- Água – falei rindo muito. Ele também riu.
- Vou lembrar dessa – falou ele.
- Eu amo músicas, eu amo rock antigo, amo muito MPB, Elis Regina para mim é a maior cantora do mundo, sou louco pelo Cazuza, Caetano Veloso, Nando Reis, música clássica, eu gosto de tudo.
O ônibus chegou, nós pagamos, entramos no ônibus e fomos conversando até o terminal.
- Marcus, qual é a sua idade?
- Tenho 18 anos e você? - perguntou ele.
- Tenho 20 anos. Você estuda?
- Terminei o ensino médio o ano passado e estou fazendo faculdade de processamento de dados, achei que iria aprender a desmontar computador, mas eles não ensinam nada direito, eu nem gosto desse curso – falou ele rindo – Estou indo para não magoar os meus pais.
- Você gosta de que? – perguntei.
- De música.
- Olha só, então você conhece também – falei - Tava fingindo que não conhecia.
- Eu não conheço muito sobre musica, eu só gosto, mas você sabe o nome das bandas, das músicas, sabe tudo.
- Sabe tocar algum instrumento? – perguntei.
- Violão – disse ele - Só sei mesmo tocar um pouco de violão e dizem que eu canto bem – falou ele – Eu sinceramente não acho.
Eu queria ouvir ele cantando:
- Será pedir muito te pedir para cantar algo?
Ele olhou em volta, não viu ninguém dentro do ônibus além de nós e disse:
- Eu sou um pouco vergonhoso, mas tudo bem – então ele começou - “Assim que o día amanheceu lá no mar alto da paixão, dava pra ver o tempo ruir. Cadê você? Que solidão! Esquecera de mim . Enfim de tudo que há na terra não há nada em lugar nenhum que vá crescer sem você chegar. Longe de ti tudo parou, ninguém sabe o que eu sofri” - ele estava cantando afinadisso, ele cantava uma das minhas músicas prediletas, Oceano - Canta comigo Paulo.
- “Amar é um deserto e seus temores vida que vai na sela dessas dores, esqueço que amar, é quase uma dor. Só sei viver, se for com você!" - cantamos nós dois.
Perfeito.
- Que lindo, você canta muito bem, tem uma voz maravilhosa – eu estava muito animado – Deveria fazer algum curso, você tem o dom Marcus, não desperdício.
Chegamos no terminal e descemos do ônibus. Ele desceu falando:
- Não sei nem o que te dizer – falou ele – Obrigado pelos elogios – agradeceu ele.
- Obrigado nada, vai fazer algum curso de música, o mundo que vai te agradece – falei. Ele realmente era muito afinado.
- Meu ônibus chegou – falou ele – A gente se encontra por ai, combinado?
- Combinado! – falei cumprimentando ele - Boa noite e feliz natal.
Ele entrou no ônibus e foi embora. Depois de uns 15 minutos meu ônibus também chegou e fui pra pensão. Quando eu cheguei na pensão, coloquei meu celular para carregar e recebi uma mensagem do Tiago, dizendo:
“Oi gatinho, desculpa eu não ter ido te buscar, mas é que a minha tia morreu e para ajudar acabou a bateria do meu celular. Amanha a gente se vê, pode ser? Qualquer coisa me liga. Beijos do seu Tiago.”
Sabia que tinha uma explicação plausível. Liguei para ele, o telefone tocou e ele atendeu:
- Oi meu anjo? – falou ele – Como você está?
- Bem e você como esta?
- Triste, pois era uma tia que eu gostava muito, era minha madrinha também. Amanhã nós vamos enterra-la.
- Que trágico enterrar uma madrinha na véspera de natal – falei.
- Nem me fale, trágico mesmo. Eu queria passar o meu natal com você, mas pelo jeito vou ter que passar com a minha família, dando apoio a minha mãe e ao meu pai. Você entende, não é?
- Sim, entendo sim. Isso é muito tenso, mas você pode ter certeza que tudo vai ficar bem – falei.
- Vai sim meu lindo. Obrigado por me entender. Beijos, vou desligar, porque ainda estou no velório. Te adoro!
- Também te adoro lindo. Beijos, se cuida, fica com Deus e tenha uma ótima segunda feira, pelo menos dentro do possível.
- Beijos gatinho – disse ele, desligando.
Sentei na minha cama, abri a caixa de natal do mercado e vi o que tinha. Havia um vinho, um pacote de castanhas, um pacote de amendoim, um panetone, um pacote de azeitonas e duas barrinhas de cereal. Abri os amendoins e comi, enquanto pensava no meu dia: “Acordei animado, por causa do Tiago, perdi o meu melhor amigo porque ele gosta de mim e não é correspondido, a madrinha do Tiago morreu e ele não pode me buscar, conheci o Marcus, a gente cantou no ônibus igual a dois loucos e agora estou aqui comendo todo as coisas da caixa do mercado. Que dia maluco. Eu amo essa cidade!
Acordei meio dia e fui lavar algumas roupas e cuecas, pois morando sozinho descobri que elas não se lavam sozinhas. Liguei para o Tiago e ele me disse que estavam enterrando a tia dele naquele momento, mas que passaria mais tarde, para me ver. Mais tarde eu fiz um lanche para comer e fiquei vendo televisão com o pessoal da pensão.
Umas 18h00 ele me mandou mensagem dizendo que estava me esperando na rua da pensão. Eu desci e ele estava lá.
- Oi meu anjo? – falou ele – Nossa, estava morrendo de saudades de você!
- Eu também estava com saudades de você. E como foi no enterro, hoje?
- Foi muito triste, eu chorei demais, a minha tia era tudo para mim, minha mãe também esta acabada, ela não consegue entender como aquilo aconteceu com a irmã dela.
- Ela morreu do que?
- Ataque cardíaco, ela estava dormindo e se foi. Muito triste.
- Esse é o jeito que todo mundo quer morrer, dormindo quietinho na cama – falei.
- Era o sonho dela também – falou ele triste.
- Então ela morreu realizando o sonho dela – falei rindo e reparando que eu tinha feito uma piada de mau gosto, eu disse – Desculpa, foi uma piada muito idiota, mas é que eu estou tão feliz em te ver, que eu não posso fazer de conta que eu estou triste, mas eu sinto muito pela sua tia. De verdade.
- A única coisa que esta me animando hoje é ver você também meu anjo – falou ele.
- Pode contar comigo no que precisar Tiago. Sei que nós nos conhecemos a pouco, mas pode contar comigo sempre.
- Até tem uma coisa que você pode me ajudar, mas melhor não falar, a gente se conhece a pouco tempo. Eu já estaria abusando de você.
- Pode falar, não tem problemas – eu disse – Para de ser bobo, Tiago.
- Minha tia era muito pobre, a minha família também não tem muito dinheiro e esta faltando pouco para conseguir pagar as despesas com o vélorio. Até quando a gente morri temos que pagar as coisas – falou ele.
- Quanto esta faltando?
- R$: 300,00 reais já ajuda a cobrir as despesas.
- Eu não tenho esse dinheiro comigo, mas se quiser eu falo com a minha mãe, sei lá, invento alguma desculpa falando que eu preciso desse dinheiro e te dou.
- Não, meu lindo, me empresta, porque eu vou te devolver – falou ele segurando em minhas mãos – Muito obrigado, você é maravilhoso.
O celular dele tocou, ele olhou quem era e atendeu:
- Oi mãe, to aqui na casa de um amigo, você está melhor? Não fica triste mãe, não precisava chorar, vai ficar tudo bem. Já estou indo para ai ficar com a senhora, ok? Beijos – ele desligou e me disse – Minha mãe anda muito sensível tadinha, ela esta chorando em casa. Desculpa, mas eu tenho que ir.
- Tudo bem, sem problemas.
- Assim, mas não vim aqui só para te ver, também vim aqui para te trazer isso – falou ele tirando uma caixa pequena do porta luvas do carro – É uma lembrancinha para você. Feliz natal!
- Não precisava – falei pegando o presente – Eu não comprei nada para você – ele fez um gesto que não precisava.
Abri a caixinha e dentro tinha uma corrente de prata, no formato de uma cruz. Era a coisa mais linda que eu já tinha ganho.
- Obrigado meu amor – falei agradecendo.
- Nossa, você deve ter gostado mesmo, me chamou até de meu amor.
- Desculpa, falei sem querer.
- Pedir desculpar por chamar alguém de meu amor? Eu que devo ficar lisonjeado por você me chamar assim, coisa linda.
- Pedi desculpa, porque acho que é meio cedo para eu te chamar assim.
- Por que você acha isso, meu amor? – falou ele mostrando aquilo sorriso incrível e dando uma piscadinha – Mas eu tenho que ir. Feliz natal meu anjo, que papai do céu te abençoe.
- Beijos.
Ele foi embora e me deixou ali na calçada com uma cara de apaixonado. Depois tomei banho, coloquei uma camiseta vermelha e por cima usei a corre de prata. Com a ajuda de uma moradora da pensão, nos fizemos purê de batata, arroz, peito de peru e eu comprei refrigerante, além do sorvete de sobremesa, essa seria a nossa ceia.
Nós comemos e ela me contou sobre os seus netos, sobre como era ruim ficar ali sem família e disse também que sempre que precisasse eu podia ir lá conversar com ela. Ela me estava me olhando muito séria, disse:
- Sabe Paulo, eu vejo que a sua vida vai mudar – e colocando as mãos no meu ombro, continuou – Você terá uma prova de resistência na sua vida e vai ter que se cuidar muito para não sair ferido dessa guerra.
- Guerra? Mas esta tudo dando tão certo para mim.
- Vou te dar um conselho de uma pessoa que já viveu bastante, que já apanhou de mais dessa vida e que tem muita experiência – e me olhando nos olhos, ela disse – Não grite para todo mundo que você esta feliz, a inveja tem sono leve.
- Você consegue prever as coisas? – perguntei.
- Não, eu tenho muitos anos de vida que me ajudam a perceber as coisas. Você é muito inocente, meu querido.
- Todo mundo me diz que eu sou inocente. Esta tão na cara assim? – perguntei a ela.
Ela fez que sim com a cabeça.
Ela me deu um beijo na testa e foi dormir. As 23: 30 a minha mãe me ligou e disse que estava com muita saudades e que todos estava me mandando beijos e mais beijos. Depois de meia hora, ela desligou. Liguei para o Tiago e não consegui falar com ele: Caixa postal. Fui para a sacada da pensão.
- Feliz Natal, Londrina – gritei com os braços abertos.
- Feliz Natal, moço! – gritou uma voz feminina vindo de algum lugar.
Abri os olhos, não vi ninguém. Olhei para trás, para os lados e nada. Ouvi risos.
- Estamos aqui rapaz – agora era uma voz masculina – Feliz natal!
- Onde vocês estão? – gritei aos quatros ventos.
Eles novamente riram.
- No outro prédio, aqui ao lado do seu – agora era a moça quem falava novamente.
Eles estavam na sacada do prédio, do lado direito do meu. Era uma moça branca, com uma camiseta lilás, com o cabelo comprido, pretos e lisos. Ela sorria demais, era altamente contagiante a alegria dela. O rapaz que a acompanhava, era magro, com os cabelos encaracolados, curtos e castanhos claros. Ele vestia uma camiseta azul clara, com três botões. Tinha os olhos pequenos, parecia japonês, dava pra ver que era novos.
- Feliz natal – gritaram os dois levantando os copos de champanhe.
- Feliz natal para vocês também – falei levantando o copo de refrigerante.
- Refrigerante? – perguntou o rapaz – Cadê o champanhe?
- Eu bebi demais esses dias, então eu resolvi dar uma diminuída.
Novamente eles riram. Tudo o que eu dizia eles riam? Acho que era champanhe fazendo efeito.
- Qual o nome de vocês? – perguntei.
- Eu sou a Laira. - disse ela.
- E o meu é Jerson – falou o rapaz – E o seu?
- Paulo.
- Paulo do que? Só Paulo? – perguntou o Jerson.
- Paulo Mendes Gradiole.
- Nossa, que nome lindo - falou a Laira.
- Pois é, arrasou no nome – falou o rapaz.
Arrasou? Isso é uma gíria gay. Nesse momento meu “GayDar” apitou.
- Cadê a sua família?- perguntou a moça.
- Então, eles estão passando o natal com a avó em Curitiba. Eu estou aqui sozinho.
- Nossa, passar o natal sozinho é tenso – continuou ela. E olhando o Jerson ela perguntou – Tive uma ideia, vamos chama-lo para vir aqui?
- Claro que sim! – concordou ele – Ei, Paulo Mendes Gradiole, quer continuar o seu natal aqui com a gente?
- Se não for incomodar vocês e se não forem me matar depois, eu aceito sim.
- Não, a gente não mata no dia de natal, mas não venha aqui amanhã – falou a Laira com um sorriso contagiante.
Ela me passou o numero do andar deles e em cincos minutos eu estava lá. Eles me abraçaram e novamente me desejaram feliz natal. Depois me mostraram a casa.
- Que casa linda. Vocês moram aqui? – perguntei.
- Sim moramos – falou ela.
- Vocês são o que?
- Somos os melhores amigos – disse ele dando um abração nela – A Laira é a paixão da minha vida, eu amo essa mulher.
Eles falaram para eu sentar na poltrona, eu sentei e eles começaram a contar tudo para mim. Eles são gays também, que se conheceram na boate, viraram os melhores amigos e resolveram morar juntos para pode aproveitar a vida. Falei de mim também, que meus pais não sabem, onde eu estava trabalhando e que estava a menos de um mês ali na pensão e em Londrina.
- Você parece ser muito legal, Paulo – falou a Laira - Né, Jerson?
- Verdade, seja bem vindo sempre aqui em casa - falou ele.
- Que legal, valeu pela hospitalidade.
Campainha.
- Ele chegaram, que bom! – falou a Laira.
- Quem chegou? – perguntei.
- Um amigo da Laira e o namorado dele – falou o Jerson.
Minha poltrona ficava de costa para a porta, então só ouvi ela dizendo aos rapazes:
- Feliz natal Rodolfo! Feliz natal Tiago.
- Feliz natal! – respondeu o Tiago.
Era o meu Tiago? A voz era idêntica. Me virei na poltrona e vi, era ele sim, abraçado com um outro rapaz, os dois de alianças iguais.
- Tiago – gritei.
Ele se assustou
- Quem é esse amor? - perguntou o Rodolfo.
Tiago estava vermelho.
- Não é ninguém meu amor – falou ele com medo – Nunca vi esse rapaz antes.
Ah isso não poderia estar acontecendo, era muita brincadeira do destino? Filho da mãe, minha cabeça estava muito confusa, eu não estava entendendo mais nada.
- Não esta me conhecendo Tiago? Espera um pouco, deixa eu te mostrar uma coisa – peguei o meu celular e liguei para ele.
- Anota ai, esse é o meu número de celular – falei, igualzinho ele me disse na boate.
Ele ficou irritado e perguntou:
- Como você conseguiu o meu celular? – perguntou o cara de pau – Pode apagar ele agora.
Meu sangue estava fervendo. Fui nas minhas mensagens e mostrei para o Rodolfo as coisas que ele tinha mandado para mim.
- Isso aqui é inventado por um acaso, Tiago? – perguntou Rodolfo a ele.
Nós dois ficamos olhando para ele com os braços cruzados.
- Como você explica isso, Tiago? – perguntou Rodolfo gritando com ele.
- Eu nunca gostei desse Tiago mesmo – falou Jerson em um tom de deboche. Desculpa Laira, mas nunca fui para a cara dele.
Também mostrei as fotos dele comigo na boate antes de ontem.
- Você falou sobre isso com ele, Tiago? Disse que foi na boate? – perguntei.
- Você foi à boate no sábado? Mas você não tinha ido pescar com o seu amigo? – perguntou Rodolfo - Gente quantas mentiras em uma pessoa só. Não estou acreditando nisso.
- Ele não só foi na boate, como subiu em cima do palco e me beijou – falei para o Rodolfo – Eu não sabia que ele estava namorando, eu peço desculpas por isso Rodolfo – e olhando para o Tiago, eu disse - Eu achei que você estava livre, seu idiota!
A Laira e o Jerson estavam no canto, só vendo toda a confusão.
- Desculpe por isso, Laira e Jerson – implorei – Eu conheço vocês a pouco tempo e já estou armando uma confusão aqui na casa de vocês.
- Por mim pode continuar, também nunca suportei esse falso do Tiago, só aguentei porque ele é namorado do meu amigo Rodolfo – falou a moça - Por mim pode quebrar a cara dele.
- Ex namorado - falou Rodolfo - Rodolfo o encostou na parede e perguntou - O que mais você mentiu? Fala cachorro! – ele estava gritando.
Jerson e Laira faziam barulho de cachorro uivando. Eu estava querendo rir, os dois estavam muito bêbados. Tiago continuava quieto.
- Me responde!– gritava Rodolfo.
- O Tiago e aquela sua tia véia que morreu de “morte morrida”, como ela está? – perguntei em um tom de dechoche.
- Como assim tia? – perguntou Rodolfo – Ele não tem tia nenhuma, ele nem conhece a mãe e o pai dele. Como vai ter uma tia?
- Eu tinha uma tia, sim – Tiago gaguejava muito – Ela, ela morreu, de ataque epilético – falou olhando para nós dois. Rodolfo estava do meu lado.
- Mas não era ataque cardíaco? Ela não morreu dormindo e quando acordou viu que tinha morrido? Tinha quer ser a besta da sua tia mesmo – falei - Você teve para quem puxar essa sua incapacidade mental– gritei com ele.
- Incapaz é você que teve que ir em uma boate para ser beijado – falou Tiago me irritando.
Eu fingi que não estava ouvindo e continue falando:
- Agora estou pensando aqui, se o Rodolfo não sabia de nada e você não tem tinha nenhuma tia e nem conhece os seus pais, com quem você estava falando pelo telefone fingindo que era a sua mãe hoje?
Ele fez um ar de superior e contou:
- Tudo bem, é um outro cara que eu to pegando. Porque? Vocês acham que é só vocês que eu estou fazendo de trouxa? Tem Tiago para todo mundo.
- E aquela história de dinheiro emprestado da minha mãe? Você queria me extorquir, né? Você disse que precisava de dinheiro para pagar as despesas dá dá sua tia, nas como ela não morreu, o que você já fazer? Pegar o dinheiro todo para você, né? - falei.
- Alguém tem pagar as minhas contas – falou ele de um jeito muito arrogante.
- Você pediu dinheiro para um cara que conheceu a poucos dias? – perguntou Rodolfo. E me olhando e disse – Acredita que ele pediu dinheiro para mim também, Paulo? Ele queria R$: 300,00.
- O mesmo tanto que ele pediu para mim – falei.
- Deve ser porque ele tem que pagar o aluguel da casa dele de R$: 600,00. O Tiago não tem capacidade mental para arranjar emprego, dai tem que ficar enganando a gente para pagar as suas contas – falou Rodolfo.
- Tenho muita capacidade sim, eu sou superior a vocês dois, tanto que foram completamente enganados por mim – falou ele.
- Para com isso Tiago – falei.
- Pra quer arranjar emprego se eu tenho vocês para pagar as minhas contas? - perguntou ele – Quem é o desprovido de inteligência agora, Paulo?
- Se eu pudesse eu tacaria alguma coisa no meio dessa sua testa, seu animal – falei.
Jerson foi até o seu quarto correndo, voltou com um abajur e sorrindo me disse:
- Paulo, eu tenho esse abajur que eu não gosto muito, pode jogar nele.
- Muito agradecido – peguei o abajur e taquei nele, acertando na porta – Eu quero acabar com você Tiago.
A vizinha do apartamento debaixo batia com alguma coisa no teto da casa dela, querendo que nós fizéssemos silêncio. Rodolfo abriu a porta da casa e gritando ordenou:
- Vai embora agora Tiago, eu não quero nunca mais vê-lo.
O Jerson e a Laira aplaudiam. Ele estava saindo, quando eu cheguei perto dele e falei, com ele ainda de costa:
- Vai sim, mas não antes disso – ele se virou e dei um soco nele.
Ele caiu alguns degraus da escada do prédio, o Jerson foi até lá e chutou no meio da perna dele (nas partes intimas).
- Isso é por enganar o Rodolfo – falou ele. E dando um novo chute ele completou – E esse é por enganar o meu novo amigo, Paulo Mendes – e deu mais um chute muito forte.
Tiago ficou sem voz, depois que ela voltou, ele perguntou:
- E esse é por quem? – perguntou Tiago com pouca voz.
- Esse é por mim mesmo - ele disse – Pra você deixar de ser babaca.
Ele deixou o menino caído lá e volto para o apartamento sorrindo. Rodolfo foi atrás dele e os dois saíram do prédio. Vendo pela janela que eles tinham ido embora, eu comecei a chorar.
- Não acredito que ele fez isso comigo – falei tirando a correntinha de cruz e jogando pela janela da casa da Laira – Ele me enganou e me iludiu.
- Ai meu amigo, Deus te livrou de uma péssima, esse rapaz não merecia você – falou a Laira me abraçando – Eu nunca gostei dele, eu não sei o que ele tinha que encantava o Rodolfo.
Bonito, bom de papo, loiro, olhos verdes, uma voz bonita e cheiroso. Eu contei para eles como aconteceu toda a história nossa e os deixei de boca aberta.
- Quer dizer que ele estava caçando no igapó, anoite? – perguntou o Jerson.
- Como assim? – perguntei.
- Paulo, o lago a noite, normalmente vira local para o pessoal ficar fazendo sexo, ou ficar procurando pessoas para fazerem sexo – falou o Jerson calmamente – Claro, que vai muita gente de bem caminhar lá a noite, por estar mais fresco, mas calmo, mas geralmente é para caçar mesmo.
- Não acredito! Nossa! Eu estava achando tudo tão romântico, achando que o destino estava me ajudando.
- Ele esta te ajudando, ele te livrou daquele maníaco do lago igapó – disse a Laira.
Nesse momento chega Rodolfo, com os olhos cheios de lagrimas, dizendo que ele tinha conversado e que o Tiago falado um monte de coisas chatas pra ele.
- Eu o amava – falou o rapaz – Nós estávamos juntos faziam um ano mais ou menos.
- Mas já passou e quem vive de passado é a história e essa história vocês já passaram de ano – falou a Laira nós fazendo rir.
- É isso mesmo amigo – falou o Jerson - Bola pra frente e esquece esse cara.
Eu estava quieto no canto, quando ele veio até a mim e disse:
- Eu sei que não é culpa sua, Paulo. Ele é um cara encantador e você não sabia que ele estava comigo. Ele pode ser cachorro, idiota, mas ele é tão bonito né? – disse ele.
- Sim, ele realmente é muito bonito mesmo – falei – Nós dois não resistimos.
- Quem resiste aqueles olhos verdes e cabelinho loirinho de anjo? – perguntou Rodolfo.
- Nós dois que não – falei rindo – Que bom que você entende. Peço mil desculpas.
- Relaxa – falou ele – Porque pedir desculpas?
- Desculpa por não ter dado mais um soco nele – falei rindo.
- Deve ter sido ótimo – disse o Rodolfo.
- Foi bom - falei.
- Mas muito melhor foram os três chutes que eu dei no meio da perna dele – falou o Jerson.
A Laira voltou da cozinha com mais dois copos de champagne e disse entregando para mim e para o Rodolfo:
- Aquele babaca não vai acabar com o nosso natal, a gente tem que comemorar e beber bastante – disse ela.
- Isso mesmo – falei – E que o Tiago se exploda.
- Isso mesmo – gritaram os outros três brindando comigo.
Continuamos bebendo até o sol se por.
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- Mas já é hora de levantar? - falei bocejando - Cadê o Tiago?
Do lado meu lado não havia ninguém, só uma carta, com as escritas:
“Bom dia meu lindo, como você esta? Dormiu bem? Desculpa por não ter te acordado, mas é que eu tive que ir trabalhar. E você estava dormindo tão bem, que nem quis te acordar. Você deve estar com fome, não é? Eu fiz um lanche e um copo de suco de laranja para você. Estão em cima da mesa.”
Eu olhei e os dois estavam lá.
“Uma senhora que esta na melhor idade, me perguntou quem sou eu, então lembrei que você me disse, que se alguém perguntasse, eu era seu primo e foi isso o que eu disse. Gostaria muito de vê-lo hoje à noite depois do seu trabalho. O que acha? Passo de carro te buscar no mercado, pode ser? Eu sei que nos conhecemos a pouco tempo, que nesse mundo gay tem muitas pessoas que não querem nada, mas pode acreditar que eu sou diferente. Eu curti muito você e se você quiser a gente vai se conhecendo melhor. Você tem o meu numero de celular, é só me ligar caso queira me falar alguma coisa. Beijos do seu Tiago. P.S: Tenha um dia perfeito, assim como o meu já esta sendo.”.
Será que tudo isso era verdade? Parecia mais um conto de fadas incrível.
- Eu nunca mais vou a uma festa de compra uma bebida e ganha outra – falei levantando da cama.
Tomei um banho, comi o lanche que o Tiago fez e fui correndo para o mercado. Cheguei as 14h00min em ponto. Eu estava me sentindo muito animado. Seria o Tiago a pessoa que eu sempre quis conhecer? Foi tão bonito o nosso beijo, foi muito especial. Cheguei no caixa que estava o Carlos e perguntei:
- Bom a tarde Carlos, tudo bem? – cumprimentei.
- Oi ativo! Gente eu nunca dei tanta risada como eu dei ontem – falou ele rindo demais. E me imitando, disse - Claro que ativo, você acha que eu sou homem de ficar parado? Eu sou um cara produtivo, sempre ajudei o meu pai na loja dele.
Eu também ri junto com ele.
- Falei que você iria fazer sucesso, seu caipira? Aquela boate parou para te ver, todo mundo queria você. Essas bichas não podem ver uma carne nova que atacam. Você é novidade aqui na cidade, Paulo - e falando um pouco mais sério, ele me perguntou - E como foi com o bofe ontem?
- Depois de me levar para casa, ele fez uma sopa e nós dormimos juntos.
- Nossa, mas já? Resolveu o problema do beijo e da virgindade tudo em um dia só? – perguntou ele sério mais ainda – Você é muito ágil.
- Claro que não bobo, é que eu estava com febre e ele cuidou de mim.
- Mas agora você esta bem?
- Sim, estou – falei sorrindo – Carlos, deixa eu te perguntar uma coisa?
- Claro, pode sim.
- Por que o apelido do Matheus, é Madeusa?
- Olha, é porque ele ama aquela musica assim: " Como uma Deusa, você me mantem - falou ele levantando as mãos sensualmente. Eu não estava me aguentando de tanto rir – Dai ele disse que ele é uma Madeusa. Ele é muito engraçado.
- Adorei, muito criativo.
Ele fez um ar de chateado.
- O que aconteceu, Carlos? Eu fiz algo para você? Reparei ontem que de uma hora para outra você começou a me tratar diferente, estou fazendo alguma coisa que eu não devia?
- Sabe, eu ando sentindo uma coisa estranha esse dias e não sei como dizer para a pessoa o que eu estou sentindo – falou ele com a cabeça baixa - Aliás, eu já até disse, mas ele estava tão bêbado que nem ouviu.
- Nossa, esse povo que bebe muito é complicado – falei - Ele estava na boate ontem?
- Estava sim – falou ele.
- Conta para mim, se eu puder te ajudar, eu ajudo. Você agora não é mais meu conhecido de trabalho e sim meu amigo. Eu quero te ajudar, Carlos.
Ele suspirou e depois concordou:
- Tudo bem, eu acho que você merece saber. Paulo, eu queria saber se... – mas ele não conseguiu falar, porque um cliente chegou com as mercadorias para ele passar. Me olhando ele disse – Vamos fazer o seguinte, na hora do intervalo a gente conversa. Pode ser “Caipirão ativo”?
- Claro que pode – falei rindo do novo apelido.
No mercado, nós tínhamos um refeitório, onde vários pratos eram servidos. O refeitório tinha varias mesas grandes e vários bancos também do mesmo tamanho. Nesse horário, só estava eu e o Carlos. Nesse dia estava sendo servido: lasanha de presunto e queijo, com carne, tomate e arroz.
- Que delicia! – falei colocando o meu prato de comida na mesa.
Na minha frente estava o Carlos. Ele estava muito inquieto.
- Você não vai comer, Carlos? – perguntei enquanto comia.
Ele estava muito sério, nem me respodeu.
- O que você gostaria de me dizer? O que esta te atormentando? - perguntei.
- Sabe Paulo, ontem eu te falei isso, mas você não esta lembrando, estava muito bêbado – disse ele dando uma pausa. Eu já imaginava o que ele ia dizer - Tem uma pessoa que me encanta demais, mas acho que ele não se tocou.
- Sério? Ele deve ser muito besta – falei.
- Estou falando sério sim, mas ele não é besta não, é inocente mesmo. Estou apaixonado por ele, ele me faz sentir algo tão estranho, tão enigmático, que se ele me pedir o mundo, eu dou.
- Esse cara é um sortudo, você é uma pessoa incrível, meu amigo.
Ele começou a rir, um riso quase se transformando em um choro.
- O que foi que aconteceu? – perguntei.
- Você me chamando de amigo – falou Carlos agora puxando os cabelos.
- Mas você é meu amigo – falei colocando a mão nos ombros dele, por cima da mesa.
Ele segurou a minha mão, me olhou e disse:
- Eu estou gostando de você, Paulo – ele se levantou do banco, foi até o outro lado, sentou do meu lado e continuou – Eu sou completamente apaixonado por você, eu penso em você o tempo inteiro, eu estou sonhando com você, eu só quero você. Até mesmo quando eu estou perto de ti, eu te desejo.
Eu não sabia o que falar, o que eu tinha ouvido na boate era verdade, achei que fosse sonho, isso explicava o modo como ele estava tratando o Tiago e eu ontem.
- Eu tenho tantas qualidades – falou ele - Deixa eu te mostrar como eu sou um cara legal? Me dá uma chance de te mostrar isso. Posso te levar para a praia para vermos o por do sol juntos. Você quer ir para Marte? Eu te levo, eu faço o que você quiser, Paulo. Eu estou completamente louco por você. Eu não sei nem como me comportar – falou ele ainda segurando a minha mão.
O Carlos é uma boa pessoa, mas não me atrai. Ele sempre estava usando sua camisa rosa da empresa, com um rosto cheio de cravos e espinhas, pele branca, do cabelo preto liso. O seu corte de cabelo era diferente, parecia que ele tinha colocado uma tigela na cabeça e cortado em volta, lembrava cabelo de Índio. Deveria ter uns 15 cm de altura a menos do que eu. Independente de ele ser assim, eu poderia gostar dele, mas ele não fazia meu coração acelerar, eu não sentia química com ele.
- Eu sei que você tem um monte de qualidades, eu te acho uma pessoa fantástica. Mas eu estou curtindo o Tiago.
- Para de falar desse Tiago – falou ele tirando as mãos da minha, de uma forma agressiva - Fica comigo caipira? – pediu ele se aproximando de mim, mais ainda.
- A gente não escolhe de quem gosta. Mas eu escolhi você para ser o meu melhor amigo - falei tentando acalma-lo - Não estou falando que eu vou ficar com ele para sempre, até porque faz menos de um dia que a gente conversa, mas mesmo assim, eu estou curtindo ele e eu quero ver no que vai dar isso – falei me afastando, chegando na ponta do banco.
- Para de me chamar de amigo, eu não quero ser seu amigo, eu quero ser seu namorado.
O modo como ele estava falando me assustava.
- Carlos, você pode ir um pouco para lá? Você esta muito perto – pedi para ele. Mas ele não foi.
- É perto mesmo que eu quero ficar de você - falou Carlos - Caipira, presta atenção em mim, eu sou louco por você.
- Realmente você é louco – falei de forma irritada - Você esta me assustando com esse seu jeito. Dessa forma você não vai me conquistar.
Os olhos dele estava diferente. Seria paixão mesmo? Não estava parecendo. Ele voltou a pegar as minhas mãos e apertava forte.
- Fica comigo caipira – pediu de novo.
- Carlos, você esta machucando as minhas mãos, me solta – falei - Você quer que eu grite aqui?
Não era ele quem estava ali, era um louco, um maluco.
- Você não sabe, mas você vai me amar – disse ele.
- Não vou dizer que não, mas nesse momento eu não amo – falei – Eu gosto de você como amigo.
- Cala a boca, eu não sou seu amigo, para de me chamar de amigo, eu não quero ser seu amigo, eu quero ser seu namorado. Cada vez que você me chama de amigo você enfia uma espada em meu peito e tira. Para com isso Paulo - ele gritava bem perto de mim, quase que me beijando - Fica comigo caipira?
- Socorro! Tem um maluco aqui me atacando.
- Não adianta gritar por socorro, essa sala é a prova de som, meu querido – falou Carlos – E agora só eu e você temos esse intervalo de almoço, ou seja, você vai ter que me aguentar, vai vir ninguém aqui.
Eu tentei empurrar ele, mas me desequilibrei e nos caímos do banco. Carlos aproveitou o momento para me beijar. Ele segurou as minhas mãos e me beijou a força.
- E não é que você realmente beija bem - falou Carlos.
Meu celular começou a tocar, eu dei um chute no meio de sua perna, fazendo ele gritar e se afastar de mim. Me levantei e atendi ao telefone:
- Alô? Oi Tiago, tudo bem? – falei, vendo o Carlos gritando de dor no canto da sala – Também estou com saudades – agora ele me imitava e fazia uma cara de nojo - Sim, pode passar aqui as 22:15 para a gente se encontrar. Estou aguardando. Bom trabalho, beijos.
Desliguei o telefone e fui para cima do Carlos:
- O que você pensa que estava fazendo me beijando a força? - falei com muita raiva - Sabia que você pode ser demitido por isso? Você é um louco.
- Alguém viu isso? Desculpa lindão, mas você não tem prova?
- Eu conto tudo pra eles – falei apontando o dedo na cara dele.
- Em quem eles vão acreditar, em uma pessoa que já esta trabalhando a anos na empresa, ou em um empacotador temporário? – insinuou Carlos – Fica comigo caipira? eu gosto de você.
- Nem morto eu fico com você, eu tenho ódio de você.
- Você vai se arrepender de tudo o que você está me falando caipira, isso ainda vai ter troco e você vai pedir para ficar comigo, você ainda vai ser meu. Escrevi isso que eu estou te falando – falou ele me ameaçando.
Meu sangue estava fervendo de raiva.
- Escrevo, pode deixar que eu escrevo sim, escrevo no seu cu, seu imbecil – falei - Não é forçando uma pessoa a ficar com você, que ela vai se apaixonar. Eu queria você só como seu amigo.
- Se não for para ter o seu amor, então eu não quero – falou ele irritado.
- Era a única coisa que eu tinha para te oferecer, mas depois disso tudo o que você fez, nem isso.
Ele deu as costas, foi pegar uma maça para comer e me deixou ali sozinho. Eu voltei a comer a minha lasanha, porque mesmo com raiva do Carlos, eu ainda estava com fome.
Até o final do expediente, o Carlos não falou mais comigo e também nem tentei falar com ele. Fiquei ajudando a empacotar as compras, no caixa de outra pessoa. Às vezes reparava que ele me olhava, mas depois fingia que estava olhando para outro lugar. Eu sei que é horrível alguém te dizer que está apaixonado por ti e você retribuir com um: “Você é meu amigo.” Mas eu não poderia fingir para ele que eu sentia um amor, ou uma paixão só para satisfazer a vontade dele. E outra, eu deveria ter ido a policia, tinha as marcas da mão dele ainda no meu braço, o que ele fez foi uma agressão. Mas preferi ficar no meu trabalho tranquilo, imagina em menos de um mês eu já falar no trabalho que fui agredido e forçaram me beijar? Ou alguém contando para os meus pais porque eu tinha feito um boletim de ocorrência?
- Um rapaz queria beijar o seu filho, senhor Osvaldo – diria algum policial.
- Por isso que eu odeio viado! – responderia meu pai.
Essa é a conversa que eu imaginava que eles teriam. Por isso resolvi ficar no meu canto.
Meu supervisor me chamou e disse:
- Paulo, amanhã é véspera de natal e você esta de folga – e me entregando uma caixa, ele continuou – E esse é uma lembrança nossa para você.
Era um kit de natal, eu queria muito abrir, mas achei que fosse falta de educação, por isso decidi abrir só na pensão, ou então junto com o Tiago, a noite.
- Você vai passar o natal junto com a sua família? – perguntou o supervisor.
- Não, eles vão passar junto com a minha avó em Curitiba.
- Então tenha uma ótima folga – falou ele me abraçando – Um feliz natal para você e te espero aqui na quarta feira, dia 26.
- Muito obrigado! Para você também e pode deixar que eu estarei aqui na quarta.
Podia ser mais perfeito? Véspera de natal de folga e hoje anoite iria ficar junto com o Tiago. O que estava me magoando mesmo era o Carlos.
Ás 22h15min, eu estava na frente do mercado aguardando o Tiago. Liguei no celular dele, tocou, tocou e ele não atendeu. Liguei novamente e caiu na caixa postal. Então mandei uma mensagem:
“ Oi Tiago, tudo bem? Estou te esperando aqui na frente do mercado. Quando estiver vindo me manda uma mensagem ou então me liga”. Beijos.” Enviei.
Ouvi barulho de trovão, corri para de baixo do ponto de ônibus. Sentei e fiquei esperando o Tiago chegar. Que estranho, aonde será que ele esta? Começou a chover muito. Na minha mochila não tinha nenhuma jaqueta, ou outra roupa, só escova de dente, pasta e a roupa do meu trabalho. O Tiago estava demorando demais. Os carros passavam em alta velocidade, jogando água do meio fio e na calçada.
“Tiago cadê você?” mandei novamente uma mensagem.
- Talvez ele esteja no carro dirigindo e não pode me responder ou atender ao telefone – falei sozinho.
Nesse instante, um carro passou em uma poça de água e acertou em um rapaz que estava passando na calçada.
- Que merda! – gritou ele. E me olhando, ele disse – Olho só isso moço, olha isso! Não acredito, molhou toda a minha roupa.
Eu não aguentei e comecei a rir, me achando inconveniente, eu disse:
- Desculpe, mas eu não estou rindo de você. Acho que estou rindo de desesperado.
Ele estava com um ar de riso. Eu continuei falando:
- Estou pensando aqui, que se eu molhar essa minha roupa, também não terei outra.
- Se me molhar te fez rir, para alguma coisa boa serviu – falou ele rindo.
O rapaz tinha um sorriso muito bonito e perfeito. Ele estava usando uma jaqueta cinza, com uma camiseta branca por baixo, uma calça jeans azul e calçando um all star preto. Ele era loiro, com o cabelo loiro escuro, novinho, sem barba no rosto, olhos castanho claros. O seu cabelo estava penteado para o lado, ele tinha um cabelo curto bem liso. Ele sentou do meu lado no banco. Aparentava ser novo, com os seus 17 ou 18 anos de idade. Ele me perguntou:
- Esta esperando alguém?
- Sim, um amigo meu disse que iria vir me buscar, mas pelo jeito esta me dando os canos – falei olhando as horas. Porque ele queria saber disso? Será que vai me assaltar?
Eu recebi uma mensagem do Tiago dizendo que ele não poderia ir e que iria me explicar o motivo depois.
- Eu estou indo pra minha casa, a minha mãe esta vindo me buscar. Desculpe a minha má educação, o meu nome é Marcus e o seu? – falou ele me cumprimentando.
- Paulo – falei pegando na mão dele. Peguei o meu celular, liguei para o Tiago e novamente caiu na caixa postal – Acabei de receber uma mensagem do meu amigo, ele me disse que não vai pode vir. O que será que aconteceu?
- Não deve ter acontecido nada demais – falou o moço.
- Espero – falei – Prazer em conhece-lo Marcus, vou indo nessa então.
- Mas você vai nessa chuva? Espera um pouco que eu peço para a minha mãe te levar – falou o Marcus.
- Não precisa, não quero te incomodar.
- Não será incômodo. Depois você pega uma gripe e ai como é que fica? – falou ele rindo – Sem problemas.
O telefone dele tocou e ele atendeu:
- Alô? Oi mãe. Como assim não atender telefone quando tem chuva? Foi a senhora que me ligou, eu tinha que atender – ele olhava para mim rindo - Não vai pode vir? Ta bom mãe, eu vou de ônibus então. Pode deixar que eu vou me cuidar sim mãe, jajá eu estou ai. Fez janta? To com fome – falou ele rindo.
Não tinha jeito de ser um assaltante. Ele era muito educado, se fosse para me roubar já tinha roubado. Ele desligou a ligação.
- Eu vou ter que retirar a carona que eu te ofereci. Vou de ônibus embora. Parece que nós dois perdemos as nossas caronas – comentou ele - Tenho que ir para o terminal central e de lá ir embora.
- Se você não se incomodar eu também tenho que ir pra lá, se quiser companhia – falei. Eu não estava dando em cima dele. Espero que ele não tivesse achando isso também.
- Não vai ser incomodo não.
Enquanto o ônibus não chegava nós ficamos mais algum tempo conversando sobre o calor que estava fazendo e sobre as músicas mais tocadas daquele ano.
- 2007 foi um grande ano para a música, teve muitas músicas legais – falei.
- Qual por exemplo? – perguntou o rapaz.
- Teve Umbrella, da Rinhanna, Because of you, do Neyo, Boa sorte, da Vanessa da mata, Open your eyes, do snow patrol, razões e emoções, do Nx zero – falei contando na minha mão - Nossa muitas musicas mesmo.
- Você entende mesmo de musica, hem Paulo? – falou ele abismado.
- Não é que eu entenda, é que eu sou 80% composto por musica – falei rindo.
- E os outros 20%?
- Água – falei rindo muito. Ele também riu.
- Vou lembrar dessa – falou ele.
- Eu amo músicas, eu amo rock antigo, amo muito MPB, Elis Regina para mim é a maior cantora do mundo, sou louco pelo Cazuza, Caetano Veloso, Nando Reis, música clássica, eu gosto de tudo.
O ônibus chegou, nós pagamos, entramos no ônibus e fomos conversando até o terminal.
- Marcus, qual é a sua idade?
- Tenho 18 anos e você? - perguntou ele.
- Tenho 20 anos. Você estuda?
- Terminei o ensino médio o ano passado e estou fazendo faculdade de processamento de dados, achei que iria aprender a desmontar computador, mas eles não ensinam nada direito, eu nem gosto desse curso – falou ele rindo – Estou indo para não magoar os meus pais.
- Você gosta de que? – perguntei.
- De música.
- Olha só, então você conhece também – falei - Tava fingindo que não conhecia.
- Eu não conheço muito sobre musica, eu só gosto, mas você sabe o nome das bandas, das músicas, sabe tudo.
- Sabe tocar algum instrumento? – perguntei.
- Violão – disse ele - Só sei mesmo tocar um pouco de violão e dizem que eu canto bem – falou ele – Eu sinceramente não acho.
Eu queria ouvir ele cantando:
- Será pedir muito te pedir para cantar algo?
Ele olhou em volta, não viu ninguém dentro do ônibus além de nós e disse:
- Eu sou um pouco vergonhoso, mas tudo bem – então ele começou - “Assim que o día amanheceu lá no mar alto da paixão, dava pra ver o tempo ruir. Cadê você? Que solidão! Esquecera de mim . Enfim de tudo que há na terra não há nada em lugar nenhum que vá crescer sem você chegar. Longe de ti tudo parou, ninguém sabe o que eu sofri” - ele estava cantando afinadisso, ele cantava uma das minhas músicas prediletas, Oceano - Canta comigo Paulo.
- “Amar é um deserto e seus temores vida que vai na sela dessas dores, esqueço que amar, é quase uma dor. Só sei viver, se for com você!" - cantamos nós dois.
Perfeito.
- Que lindo, você canta muito bem, tem uma voz maravilhosa – eu estava muito animado – Deveria fazer algum curso, você tem o dom Marcus, não desperdício.
Chegamos no terminal e descemos do ônibus. Ele desceu falando:
- Não sei nem o que te dizer – falou ele – Obrigado pelos elogios – agradeceu ele.
- Obrigado nada, vai fazer algum curso de música, o mundo que vai te agradece – falei. Ele realmente era muito afinado.
- Meu ônibus chegou – falou ele – A gente se encontra por ai, combinado?
- Combinado! – falei cumprimentando ele - Boa noite e feliz natal.
Ele entrou no ônibus e foi embora. Depois de uns 15 minutos meu ônibus também chegou e fui pra pensão. Quando eu cheguei na pensão, coloquei meu celular para carregar e recebi uma mensagem do Tiago, dizendo:
“Oi gatinho, desculpa eu não ter ido te buscar, mas é que a minha tia morreu e para ajudar acabou a bateria do meu celular. Amanha a gente se vê, pode ser? Qualquer coisa me liga. Beijos do seu Tiago.”
Sabia que tinha uma explicação plausível. Liguei para ele, o telefone tocou e ele atendeu:
- Oi meu anjo? – falou ele – Como você está?
- Bem e você como esta?
- Triste, pois era uma tia que eu gostava muito, era minha madrinha também. Amanhã nós vamos enterra-la.
- Que trágico enterrar uma madrinha na véspera de natal – falei.
- Nem me fale, trágico mesmo. Eu queria passar o meu natal com você, mas pelo jeito vou ter que passar com a minha família, dando apoio a minha mãe e ao meu pai. Você entende, não é?
- Sim, entendo sim. Isso é muito tenso, mas você pode ter certeza que tudo vai ficar bem – falei.
- Vai sim meu lindo. Obrigado por me entender. Beijos, vou desligar, porque ainda estou no velório. Te adoro!
- Também te adoro lindo. Beijos, se cuida, fica com Deus e tenha uma ótima segunda feira, pelo menos dentro do possível.
- Beijos gatinho – disse ele, desligando.
Sentei na minha cama, abri a caixa de natal do mercado e vi o que tinha. Havia um vinho, um pacote de castanhas, um pacote de amendoim, um panetone, um pacote de azeitonas e duas barrinhas de cereal. Abri os amendoins e comi, enquanto pensava no meu dia: “Acordei animado, por causa do Tiago, perdi o meu melhor amigo porque ele gosta de mim e não é correspondido, a madrinha do Tiago morreu e ele não pode me buscar, conheci o Marcus, a gente cantou no ônibus igual a dois loucos e agora estou aqui comendo todo as coisas da caixa do mercado. Que dia maluco. Eu amo essa cidade!
Acordei meio dia e fui lavar algumas roupas e cuecas, pois morando sozinho descobri que elas não se lavam sozinhas. Liguei para o Tiago e ele me disse que estavam enterrando a tia dele naquele momento, mas que passaria mais tarde, para me ver. Mais tarde eu fiz um lanche para comer e fiquei vendo televisão com o pessoal da pensão.
Umas 18h00 ele me mandou mensagem dizendo que estava me esperando na rua da pensão. Eu desci e ele estava lá.
- Oi meu anjo? – falou ele – Nossa, estava morrendo de saudades de você!
- Eu também estava com saudades de você. E como foi no enterro, hoje?
- Foi muito triste, eu chorei demais, a minha tia era tudo para mim, minha mãe também esta acabada, ela não consegue entender como aquilo aconteceu com a irmã dela.
- Ela morreu do que?
- Ataque cardíaco, ela estava dormindo e se foi. Muito triste.
- Esse é o jeito que todo mundo quer morrer, dormindo quietinho na cama – falei.
- Era o sonho dela também – falou ele triste.
- Então ela morreu realizando o sonho dela – falei rindo e reparando que eu tinha feito uma piada de mau gosto, eu disse – Desculpa, foi uma piada muito idiota, mas é que eu estou tão feliz em te ver, que eu não posso fazer de conta que eu estou triste, mas eu sinto muito pela sua tia. De verdade.
- A única coisa que esta me animando hoje é ver você também meu anjo – falou ele.
- Pode contar comigo no que precisar Tiago. Sei que nós nos conhecemos a pouco, mas pode contar comigo sempre.
- Até tem uma coisa que você pode me ajudar, mas melhor não falar, a gente se conhece a pouco tempo. Eu já estaria abusando de você.
- Pode falar, não tem problemas – eu disse – Para de ser bobo, Tiago.
- Minha tia era muito pobre, a minha família também não tem muito dinheiro e esta faltando pouco para conseguir pagar as despesas com o vélorio. Até quando a gente morri temos que pagar as coisas – falou ele.
- Quanto esta faltando?
- R$: 300,00 reais já ajuda a cobrir as despesas.
- Eu não tenho esse dinheiro comigo, mas se quiser eu falo com a minha mãe, sei lá, invento alguma desculpa falando que eu preciso desse dinheiro e te dou.
- Não, meu lindo, me empresta, porque eu vou te devolver – falou ele segurando em minhas mãos – Muito obrigado, você é maravilhoso.
O celular dele tocou, ele olhou quem era e atendeu:
- Oi mãe, to aqui na casa de um amigo, você está melhor? Não fica triste mãe, não precisava chorar, vai ficar tudo bem. Já estou indo para ai ficar com a senhora, ok? Beijos – ele desligou e me disse – Minha mãe anda muito sensível tadinha, ela esta chorando em casa. Desculpa, mas eu tenho que ir.
- Tudo bem, sem problemas.
- Assim, mas não vim aqui só para te ver, também vim aqui para te trazer isso – falou ele tirando uma caixa pequena do porta luvas do carro – É uma lembrancinha para você. Feliz natal!
- Não precisava – falei pegando o presente – Eu não comprei nada para você – ele fez um gesto que não precisava.
Abri a caixinha e dentro tinha uma corrente de prata, no formato de uma cruz. Era a coisa mais linda que eu já tinha ganho.
- Obrigado meu amor – falei agradecendo.
- Nossa, você deve ter gostado mesmo, me chamou até de meu amor.
- Desculpa, falei sem querer.
- Pedir desculpar por chamar alguém de meu amor? Eu que devo ficar lisonjeado por você me chamar assim, coisa linda.
- Pedi desculpa, porque acho que é meio cedo para eu te chamar assim.
- Por que você acha isso, meu amor? – falou ele mostrando aquilo sorriso incrível e dando uma piscadinha – Mas eu tenho que ir. Feliz natal meu anjo, que papai do céu te abençoe.
- Beijos.
Ele foi embora e me deixou ali na calçada com uma cara de apaixonado. Depois tomei banho, coloquei uma camiseta vermelha e por cima usei a corre de prata. Com a ajuda de uma moradora da pensão, nos fizemos purê de batata, arroz, peito de peru e eu comprei refrigerante, além do sorvete de sobremesa, essa seria a nossa ceia.
Nós comemos e ela me contou sobre os seus netos, sobre como era ruim ficar ali sem família e disse também que sempre que precisasse eu podia ir lá conversar com ela. Ela me estava me olhando muito séria, disse:
- Sabe Paulo, eu vejo que a sua vida vai mudar – e colocando as mãos no meu ombro, continuou – Você terá uma prova de resistência na sua vida e vai ter que se cuidar muito para não sair ferido dessa guerra.
- Guerra? Mas esta tudo dando tão certo para mim.
- Vou te dar um conselho de uma pessoa que já viveu bastante, que já apanhou de mais dessa vida e que tem muita experiência – e me olhando nos olhos, ela disse – Não grite para todo mundo que você esta feliz, a inveja tem sono leve.
- Você consegue prever as coisas? – perguntei.
- Não, eu tenho muitos anos de vida que me ajudam a perceber as coisas. Você é muito inocente, meu querido.
- Todo mundo me diz que eu sou inocente. Esta tão na cara assim? – perguntei a ela.
Ela fez que sim com a cabeça.
Ela me deu um beijo na testa e foi dormir. As 23: 30 a minha mãe me ligou e disse que estava com muita saudades e que todos estava me mandando beijos e mais beijos. Depois de meia hora, ela desligou. Liguei para o Tiago e não consegui falar com ele: Caixa postal. Fui para a sacada da pensão.
- Feliz Natal, Londrina – gritei com os braços abertos.
- Feliz Natal, moço! – gritou uma voz feminina vindo de algum lugar.
Abri os olhos, não vi ninguém. Olhei para trás, para os lados e nada. Ouvi risos.
- Estamos aqui rapaz – agora era uma voz masculina – Feliz natal!
- Onde vocês estão? – gritei aos quatros ventos.
Eles novamente riram.
- No outro prédio, aqui ao lado do seu – agora era a moça quem falava novamente.
Eles estavam na sacada do prédio, do lado direito do meu. Era uma moça branca, com uma camiseta lilás, com o cabelo comprido, pretos e lisos. Ela sorria demais, era altamente contagiante a alegria dela. O rapaz que a acompanhava, era magro, com os cabelos encaracolados, curtos e castanhos claros. Ele vestia uma camiseta azul clara, com três botões. Tinha os olhos pequenos, parecia japonês, dava pra ver que era novos.
- Feliz natal – gritaram os dois levantando os copos de champanhe.
- Feliz natal para vocês também – falei levantando o copo de refrigerante.
- Refrigerante? – perguntou o rapaz – Cadê o champanhe?
- Eu bebi demais esses dias, então eu resolvi dar uma diminuída.
Novamente eles riram. Tudo o que eu dizia eles riam? Acho que era champanhe fazendo efeito.
- Qual o nome de vocês? – perguntei.
- Eu sou a Laira. - disse ela.
- E o meu é Jerson – falou o rapaz – E o seu?
- Paulo.
- Paulo do que? Só Paulo? – perguntou o Jerson.
- Paulo Mendes Gradiole.
- Nossa, que nome lindo - falou a Laira.
- Pois é, arrasou no nome – falou o rapaz.
Arrasou? Isso é uma gíria gay. Nesse momento meu “GayDar” apitou.
- Cadê a sua família?- perguntou a moça.
- Então, eles estão passando o natal com a avó em Curitiba. Eu estou aqui sozinho.
- Nossa, passar o natal sozinho é tenso – continuou ela. E olhando o Jerson ela perguntou – Tive uma ideia, vamos chama-lo para vir aqui?
- Claro que sim! – concordou ele – Ei, Paulo Mendes Gradiole, quer continuar o seu natal aqui com a gente?
- Se não for incomodar vocês e se não forem me matar depois, eu aceito sim.
- Não, a gente não mata no dia de natal, mas não venha aqui amanhã – falou a Laira com um sorriso contagiante.
Ela me passou o numero do andar deles e em cincos minutos eu estava lá. Eles me abraçaram e novamente me desejaram feliz natal. Depois me mostraram a casa.
- Que casa linda. Vocês moram aqui? – perguntei.
- Sim moramos – falou ela.
- Vocês são o que?
- Somos os melhores amigos – disse ele dando um abração nela – A Laira é a paixão da minha vida, eu amo essa mulher.
Eles falaram para eu sentar na poltrona, eu sentei e eles começaram a contar tudo para mim. Eles são gays também, que se conheceram na boate, viraram os melhores amigos e resolveram morar juntos para pode aproveitar a vida. Falei de mim também, que meus pais não sabem, onde eu estava trabalhando e que estava a menos de um mês ali na pensão e em Londrina.
- Você parece ser muito legal, Paulo – falou a Laira - Né, Jerson?
- Verdade, seja bem vindo sempre aqui em casa - falou ele.
- Que legal, valeu pela hospitalidade.
Campainha.
- Ele chegaram, que bom! – falou a Laira.
- Quem chegou? – perguntei.
- Um amigo da Laira e o namorado dele – falou o Jerson.
Minha poltrona ficava de costa para a porta, então só ouvi ela dizendo aos rapazes:
- Feliz natal Rodolfo! Feliz natal Tiago.
- Feliz natal! – respondeu o Tiago.
Era o meu Tiago? A voz era idêntica. Me virei na poltrona e vi, era ele sim, abraçado com um outro rapaz, os dois de alianças iguais.
- Tiago – gritei.
Ele se assustou
- Quem é esse amor? - perguntou o Rodolfo.
Tiago estava vermelho.
- Não é ninguém meu amor – falou ele com medo – Nunca vi esse rapaz antes.
Ah isso não poderia estar acontecendo, era muita brincadeira do destino? Filho da mãe, minha cabeça estava muito confusa, eu não estava entendendo mais nada.
- Não esta me conhecendo Tiago? Espera um pouco, deixa eu te mostrar uma coisa – peguei o meu celular e liguei para ele.
- Anota ai, esse é o meu número de celular – falei, igualzinho ele me disse na boate.
Ele ficou irritado e perguntou:
- Como você conseguiu o meu celular? – perguntou o cara de pau – Pode apagar ele agora.
Meu sangue estava fervendo. Fui nas minhas mensagens e mostrei para o Rodolfo as coisas que ele tinha mandado para mim.
- Isso aqui é inventado por um acaso, Tiago? – perguntou Rodolfo a ele.
Nós dois ficamos olhando para ele com os braços cruzados.
- Como você explica isso, Tiago? – perguntou Rodolfo gritando com ele.
- Eu nunca gostei desse Tiago mesmo – falou Jerson em um tom de deboche. Desculpa Laira, mas nunca fui para a cara dele.
Também mostrei as fotos dele comigo na boate antes de ontem.
- Você falou sobre isso com ele, Tiago? Disse que foi na boate? – perguntei.
- Você foi à boate no sábado? Mas você não tinha ido pescar com o seu amigo? – perguntou Rodolfo - Gente quantas mentiras em uma pessoa só. Não estou acreditando nisso.
- Ele não só foi na boate, como subiu em cima do palco e me beijou – falei para o Rodolfo – Eu não sabia que ele estava namorando, eu peço desculpas por isso Rodolfo – e olhando para o Tiago, eu disse - Eu achei que você estava livre, seu idiota!
A Laira e o Jerson estavam no canto, só vendo toda a confusão.
- Desculpe por isso, Laira e Jerson – implorei – Eu conheço vocês a pouco tempo e já estou armando uma confusão aqui na casa de vocês.
- Por mim pode continuar, também nunca suportei esse falso do Tiago, só aguentei porque ele é namorado do meu amigo Rodolfo – falou a moça - Por mim pode quebrar a cara dele.
- Ex namorado - falou Rodolfo - Rodolfo o encostou na parede e perguntou - O que mais você mentiu? Fala cachorro! – ele estava gritando.
Jerson e Laira faziam barulho de cachorro uivando. Eu estava querendo rir, os dois estavam muito bêbados. Tiago continuava quieto.
- Me responde!– gritava Rodolfo.
- O Tiago e aquela sua tia véia que morreu de “morte morrida”, como ela está? – perguntei em um tom de dechoche.
- Como assim tia? – perguntou Rodolfo – Ele não tem tia nenhuma, ele nem conhece a mãe e o pai dele. Como vai ter uma tia?
- Eu tinha uma tia, sim – Tiago gaguejava muito – Ela, ela morreu, de ataque epilético – falou olhando para nós dois. Rodolfo estava do meu lado.
- Mas não era ataque cardíaco? Ela não morreu dormindo e quando acordou viu que tinha morrido? Tinha quer ser a besta da sua tia mesmo – falei - Você teve para quem puxar essa sua incapacidade mental– gritei com ele.
- Incapaz é você que teve que ir em uma boate para ser beijado – falou Tiago me irritando.
Eu fingi que não estava ouvindo e continue falando:
- Agora estou pensando aqui, se o Rodolfo não sabia de nada e você não tem tinha nenhuma tia e nem conhece os seus pais, com quem você estava falando pelo telefone fingindo que era a sua mãe hoje?
Ele fez um ar de superior e contou:
- Tudo bem, é um outro cara que eu to pegando. Porque? Vocês acham que é só vocês que eu estou fazendo de trouxa? Tem Tiago para todo mundo.
- E aquela história de dinheiro emprestado da minha mãe? Você queria me extorquir, né? Você disse que precisava de dinheiro para pagar as despesas dá dá sua tia, nas como ela não morreu, o que você já fazer? Pegar o dinheiro todo para você, né? - falei.
- Alguém tem pagar as minhas contas – falou ele de um jeito muito arrogante.
- Você pediu dinheiro para um cara que conheceu a poucos dias? – perguntou Rodolfo. E me olhando e disse – Acredita que ele pediu dinheiro para mim também, Paulo? Ele queria R$: 300,00.
- O mesmo tanto que ele pediu para mim – falei.
- Deve ser porque ele tem que pagar o aluguel da casa dele de R$: 600,00. O Tiago não tem capacidade mental para arranjar emprego, dai tem que ficar enganando a gente para pagar as suas contas – falou Rodolfo.
- Tenho muita capacidade sim, eu sou superior a vocês dois, tanto que foram completamente enganados por mim – falou ele.
- Para com isso Tiago – falei.
- Pra quer arranjar emprego se eu tenho vocês para pagar as minhas contas? - perguntou ele – Quem é o desprovido de inteligência agora, Paulo?
- Se eu pudesse eu tacaria alguma coisa no meio dessa sua testa, seu animal – falei.
Jerson foi até o seu quarto correndo, voltou com um abajur e sorrindo me disse:
- Paulo, eu tenho esse abajur que eu não gosto muito, pode jogar nele.
- Muito agradecido – peguei o abajur e taquei nele, acertando na porta – Eu quero acabar com você Tiago.
A vizinha do apartamento debaixo batia com alguma coisa no teto da casa dela, querendo que nós fizéssemos silêncio. Rodolfo abriu a porta da casa e gritando ordenou:
- Vai embora agora Tiago, eu não quero nunca mais vê-lo.
O Jerson e a Laira aplaudiam. Ele estava saindo, quando eu cheguei perto dele e falei, com ele ainda de costa:
- Vai sim, mas não antes disso – ele se virou e dei um soco nele.
Ele caiu alguns degraus da escada do prédio, o Jerson foi até lá e chutou no meio da perna dele (nas partes intimas).
- Isso é por enganar o Rodolfo – falou ele. E dando um novo chute ele completou – E esse é por enganar o meu novo amigo, Paulo Mendes – e deu mais um chute muito forte.
Tiago ficou sem voz, depois que ela voltou, ele perguntou:
- E esse é por quem? – perguntou Tiago com pouca voz.
- Esse é por mim mesmo - ele disse – Pra você deixar de ser babaca.
Ele deixou o menino caído lá e volto para o apartamento sorrindo. Rodolfo foi atrás dele e os dois saíram do prédio. Vendo pela janela que eles tinham ido embora, eu comecei a chorar.
- Não acredito que ele fez isso comigo – falei tirando a correntinha de cruz e jogando pela janela da casa da Laira – Ele me enganou e me iludiu.
- Ai meu amigo, Deus te livrou de uma péssima, esse rapaz não merecia você – falou a Laira me abraçando – Eu nunca gostei dele, eu não sei o que ele tinha que encantava o Rodolfo.
Bonito, bom de papo, loiro, olhos verdes, uma voz bonita e cheiroso. Eu contei para eles como aconteceu toda a história nossa e os deixei de boca aberta.
- Quer dizer que ele estava caçando no igapó, anoite? – perguntou o Jerson.
- Como assim? – perguntei.
- Paulo, o lago a noite, normalmente vira local para o pessoal ficar fazendo sexo, ou ficar procurando pessoas para fazerem sexo – falou o Jerson calmamente – Claro, que vai muita gente de bem caminhar lá a noite, por estar mais fresco, mas calmo, mas geralmente é para caçar mesmo.
- Não acredito! Nossa! Eu estava achando tudo tão romântico, achando que o destino estava me ajudando.
- Ele esta te ajudando, ele te livrou daquele maníaco do lago igapó – disse a Laira.
Nesse momento chega Rodolfo, com os olhos cheios de lagrimas, dizendo que ele tinha conversado e que o Tiago falado um monte de coisas chatas pra ele.
- Eu o amava – falou o rapaz – Nós estávamos juntos faziam um ano mais ou menos.
- Mas já passou e quem vive de passado é a história e essa história vocês já passaram de ano – falou a Laira nós fazendo rir.
- É isso mesmo amigo – falou o Jerson - Bola pra frente e esquece esse cara.
Eu estava quieto no canto, quando ele veio até a mim e disse:
- Eu sei que não é culpa sua, Paulo. Ele é um cara encantador e você não sabia que ele estava comigo. Ele pode ser cachorro, idiota, mas ele é tão bonito né? – disse ele.
- Sim, ele realmente é muito bonito mesmo – falei – Nós dois não resistimos.
- Quem resiste aqueles olhos verdes e cabelinho loirinho de anjo? – perguntou Rodolfo.
- Nós dois que não – falei rindo – Que bom que você entende. Peço mil desculpas.
- Relaxa – falou ele – Porque pedir desculpas?
- Desculpa por não ter dado mais um soco nele – falei rindo.
- Deve ter sido ótimo – disse o Rodolfo.
- Foi bom - falei.
- Mas muito melhor foram os três chutes que eu dei no meio da perna dele – falou o Jerson.
A Laira voltou da cozinha com mais dois copos de champagne e disse entregando para mim e para o Rodolfo:
- Aquele babaca não vai acabar com o nosso natal, a gente tem que comemorar e beber bastante – disse ela.
- Isso mesmo – falei – E que o Tiago se exploda.
- Isso mesmo – gritaram os outros três brindando comigo.
Continuamos bebendo até o sol se por.
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