Capítulo 4° - Vicente
Enquanto estava dentro do ônibus lindo para Londrina, eu pensei: “Esse ano vai ser realmente incrível. Agora minha família sabe de mim, vou ser efetivado no meu trabalho, vou conseguir me manter e vou pode curtir muito os meus amigos.” Para a minha surpresa não foi dessa forma que as coisas aconteceram.
Quando voltei para Londrina, fui até o mercado conversar com o meu antigo fiscal:
- Bom dia” – falei abrindo a porta do seu escritório.
- Pode entrar Paulo! – ele estava muito sério.
- Eu vou ser bem sincero com você, nós estávamos gostando muito do seu trabalho, você é um rapaz muito inteligente e proativo, mas ficamos sabendo que você é sempre mau educado com os nossos clientes.
- Eu mau educado? – perguntei espantado.
- Sim Paulo, ficamos sabendo que você quando vai ajudar o cliente a guardar as compras no carro, chega até a jogar a compra sem tomar cuidado. Ficamos sabendo que você desobedece as pessoas superior a você. Estamos extremamente decepcionados com você, Sr Paulo.
- Isso não é verdade – eu estava muito chateado com as mentiras – Quem foi que falou isso?
- Nós não vamos citar nomes!
- Foi o Carlos que inventou isso, né? – perguntei.
Ele ficou me olhando quieto e depois concordou com a cabeça.
- Não tem jeito de pegar as câmeras e mostrar que eu não fiz essas coisas? Eu não fui mau educado com ninguém e nem fiquei jogando as compras nos carros. Eu juro.
- Paulo, não precisa jurar nada. Eu sinto muito, fiquei tão espantado quanto você.
- Você não pode me ajudar a continuar aqui?
- Paulo, as ordens vem de cima, então independente disso já esta decidido, você esta desligado da empresa. Espero que consiga arranjar um emprego, que se estabeleça aqui em Londrina e que as coisas deem certo pra você – falou ele. Ele se levantou da mesa dele e me cumprimentando me disse - Passe no dia 10 para pegar os seus dias trabalhados.
Eu sai dali indignado. Quando o filho de uma puta do Carlos iria parar de me atormentar? Só porque eu não quis ficar com ele? Bem que dizem que amor não correspondido vira ódio. A minha vontade era de corta-lo em três partes diferentes. Ou ir lá falar com a mãe: “Senhora, senta aqui, deixa eu te contar todas as coisas que o seu filho esta fazendo!”. Bem que eu queria. Se bem que uma pessoa dessas tem mãe? Talvez tenha, mas com certeza ela o odeia. Ele estava se interferindo muito na minha vida. Primeiro contar para o meu pai que eu sou gay e depois falar que eu sem educação com clientes? Só para eu ser despedido. Olha Carlos, se realmente esta querendo me conquistar, você esta no caminho errado.
Eu tinha que mudar a minha vida, não podia deixar as coisas do mesmo jeito que estavam, por esse motivo eu peguei e fiz minha inscrição para o vestibular de verão de uma faculdade particular, o resto do dinheiro eu fiz compras. Fiquei uma semana estudando. Passei. Iria fazer faculdade de Letras. Era o meu sonho. Por esse motivo, o meu pai decidiu me tirar da pensão e comprar um apartamento. Eles iriam pagar o condomínio até eu achar um emprego novo. Um dia meus pais vieram para Londrina e compraram alguns móveis novos e outros usados. O apartamento ficou incrível. Era um apartamento de também médio, localizado na Avenida Av Inglaterra. Quando você chegava no apartamento você via da cozinha do lado direito, com um balcão americano - eu adoro balcão americano – A sala era grande, nós colocamos uma mesa grande para jantar na sala, junto com a sala separei um espaço para a televisão, o sofá, os “puffs” coloridos que eu tinha comprado, um tapete preto peludo entre o sofá e a televisão. E tinha uma sacada que era linda, de frente com um prédio em construção. Lá havia um vento que era muito perfeito. O meu quarto era muito maior do que da pensão, álias, era uma suíte, tinha um banheiro exclusivo para mim. Meus compraram um armário de seis portas cinza com detalhes pretos, também uma cama de casal. Também um quarto um pouco menor do que o outro e mais um banheiro. Eu estava adorando, era o meu lar. Eu podia falar que ali era o meu canto, o meu refugio. Meu pai me entregou as chaves, ele estava muito animado.
Uma semana depois, eu estava fazendo faculdade. Eu estava em uma fase em que eu não estava procurando ninguém. Realmente estava gostando de ser solteiro, curtindo essa vida, indo na casa dos meus amigos Laira, Jerson. Fazia um tempo que eu não sabia o que era estudar, então para mim estava muito puxada, mas eu estava indo bem. Por isso meus pais continuaram pagando o condomínio. Uma amiga da Laira tinha conseguido um “Free lance” de Bar man para mim, eu trabalhava todos os fins de semana na parte da tarde indo até a meia noite geralmente. Não ganhava muito, mas era suficiente para eu não passar aperto. Eu pagava a luz, internet de casa e também as minhas despesas com comida.
Em uma dessas noites frias de julho, eu fui para a casa da Laira e do Jerson, eles iram fazer um delicioso fondue . Bati na porta, quem abriu foi o Jerson.
- Fala Paulo, que frio em? – cumprimentou ele.
- Oi amigo, tudo bem? Nem me fale, esta muito frio – falei entrando no apartamento – Eu trouxe uma garrafa de vinho para nós.
- É assim que eu gosto – falou ele rindo.
Quando cheguei na cozinha, havia mais uma pessoa sentada junto com a Laira cortando as frutas para comer com chocolate no fondue. Um rapaz branco, que usava uma camiseta rosa, com uma camiseta branca e comprida por baixo. Ele se levantou e me deu “oi”. Então pude análisa-lo melhor. Tinha os cabelos pretos, curtos e os olhos castanhos esverdeados. Tinha a minha altura. Havia chamado a minha atenção.
- Oi! – falei cumprimentando ele e a Laira..
- Oi! Esse é o nosso amigo, Vicente – disse a Laira.
- Prazer Vicente, me chamo Paulo.
- Já ouvi falar bastante de você – falou ele.
- Sério? Já passaram a minha ficha criminal, gente? Que amigos vocês, hem? – falei sentando e rindo.
- Não, criminal ainda não, mas eles disseram que você é um sujeito gente boa, engraçado, bonito, que faz varias bebidas deliciosas em um bar, que pretende ser professor de português e que é super simpático – falou o Vicente.
- A gente mentiu um pouco – falou o Jerson morrendo de rir – Na verdade, mentimos muito.
- Não sei em relação às outras coisas, porque ainda não o conheço, mas ele realmente é muito bonito – falou o rapaz me deixando vermelho. Parece que ele também tinha gostado de mim, pois não parava de me olhar.
- Não sei nem o que falar, não me acho muito bonito, sou tão normal - falei.
- Isso é verdade, não é muito bonito mesmo – falou Jerson brincando – Mas o importante é a gente se gostar, né! – ele ria muito - Ai amigo, relaxa, você é ajeitadinho.
Eu peguei uma faca que a Laira estava cortando as frutas e fingi que ia acertar ele.
- Olha que eu vou um sujeito bravo viu – falei.
- Você, bravo? Aham e eu sou a Monalisa, olha a minha cara – falou ele fazendo pose igual ao quadro do Leonardo da Vince.
Nós comemos muito fondue, estava realmente muito bom, principalmente acompanhando de um vinho. Naquele frio não havia combinação melhor. Mais tarde, o Jerson, a Laira estavam sentados nos pufes da sala, enquanto eu lavava a louça e o Vicente enxugava.
- Não acredito que esse tal de Tiago fez isso com você, sério? Que cretino teria coragem de fazer essa babaquice? Ah coragem! – falou o rapaz.
- Nossa eu odeio muito ele.
- Você já chegou a vê-lo depois disso? – perguntou ele.
- Não, graças a Deus não.
- Desculpa, eu sei que você gostava dele, mas para um cara fazer isso, só pode ter problema de cabeça. Principalmente com você.
- Como assim?
- Pelo o pouco que eu conversei com você Paulo, deu para perceber que você é totalmente diferente dos outros caras. Você é tudo aquilo que eles falaram mesmo e muito mais. Quando você fala, você fala com amor, com uma pureza nos olhos e isso contagia a gente.
- Agradeço o elogio, não sei o que dizer. Pelo o que estávamos conversando você também parece ser um cara muito gente boa. - falei entregando um prato para ele secar.
Ele pegou o prato, colocou do lado e pegou a minha mão e olhando elas, ele disse:
- Você tem mãos lindas – ele estava tímido.
O Vicente estava me atacando muito, várias vezes eu via ele me olhando de uma forma diferente, ele ria de qualquer coisa que falava. O que eu iria fazer se ele quisesse ficar comigo? Eu estou solteiro e não estou devendo nada para ninguém. Não estou afim de namorar por enquanto, mas isso não me impede de conhecer pessoas novas. Vicente continuou segurando as minhas mãos e me olhando. Ele segurou a minha outra mão, foi se aproximando de mim e ficou me olhando bem perto de mim.
- Vicente, se você esta querendo me dar um beijo, dá logo – falei direto.
Acho que era o vinho, eu estava muito atirado. Ele então me beijou e ficamos alguns minutos se beijando até que ouvimos:
- Arrasou! – falaram o Jerson e a Laira na porta da cozinha.
Eu tinha certeza que eles estavam querendo me apresentar o Vicente e já sabiam que a gente ia ficar, porque o Vicente era do jeito que eu achava gostava. Olhos claros, sorriso bonito, gente boa, engraçado, disponível a conhecer. Tinha certeza que tudo aquilo era armação dos dois.
- Deixa eu te perguntar uma coisa, Vicente? - perguntei.
- Claro que pode! – falou ele.
- Você esta solteiro?
- Estou.
- Não esta escondendo que tem outros namorados, não né?
- Sim, estou escondendo todos lá no meu sótão – falou ele rindo - Estou brincando!
Enquanto Laira e Vicente conversavam, Jerson chegou perto de mim e disse baixinho:
- Amigo, já te arranjamos um bofe, agora você tem nos arranjar também – falou ele rindo.
- Eu sabia que tinha alguma coisa – falei rindo mais ainda – Olha amigo, por enquanto não conheço ninguém, mas assim que eu conhecer te apresento, pode ter certeza.
Passamos a se encontrar todos os dias. Nos estávamos levando um ao outro muito sério, ainda não estávamos namorando, mas estávamos curtindo muito um ao outro. Eu sei que eu disse que não queria namorar ninguém, mas ele me dava atenção, era bonito, sabia cozinhar e me fazia muito bem, agora eu queria ficar com ele. Ele dormiu quase todos os dias em casa. Em uma quinta feira a noite ele fez um delicioso macarrão, com molho vermelho e nos bebemos muito refrigerante. Depois ficamos no ficamos conversando na sacada, eu liguei o meu celular e deixei tocando: I’m yours do Jason Mraz . Eu estava encostado ele peito dele e estávamos olhando o céu, era dia de lua cheia.
- Eu sei que normalmente não se deve dizer isso a alguém quando esta em um relacionamento curto, mas o que você faria se eu te disse-se que eu estou apaixonado por você? - perguntei.
- Eu séria a pessoa mais feliz do mundo – disse Vicente sorrindo.
- Mas eu acho que não é paixão – falei.
- Não, então o que? – falou ele me olhando muito curioso.
- Não sei o que é isso o que eu sinto.
- Te amo! – disse o moço rindo.
Dizer: Te amo! Para mim é uma coisa séria. Mas eu continue:
- Teu olhar me deixa louco, meu anjo, sua boca me faz delirar, seu sorriso fácil me amar.
- Te amo! – ele estava segurando o meu rosto e me olhando com carinho.
- Não sei se é vicio, obsessão ou paixão. Quem sabe, talvez seja até amor.
- Te amo! - falava Vicente me olhando com muito carinho.
- Sabe Vi, talvez eu esteja sentindo algo que eu ainda não senti por nenhuma outra pessoa. Talvez esse sentimento nem tenha um nome. E mais, acho que eu sou o primeiro a senti-lo – falei rindo.
- Te amo!
- Então, já que esse sentimento só foi sentido por mim, eu batizo como eu quiser. Batizarei com o nome mais lindo que existe: “Vicente”. Eu estou sentindo Vicente.
- Oh meu mor, que lindo! – falou ele não sabendo se ria ou se chorava. Então ele fazia os dois.
- Você para mim vale mais do que eu ouro – falei encostado a cabeça com a dele.
- Te amo!
- Só você vale mais do que ouro – deixei um beijão nele e depois eu continuei - Sabe, quando eu te vi pela primeira vez, aquele dia na casa da Laira e do Jerson, aconteceu uma coisa incrível.
- O que? – perguntou Vicente – O que aconteceu meu amor?
- Meu coração ficou por inteiro, encontrei a minha metade – falei com os olhos cheios de lágrimas.
- Te amo! – disse o jovem rapaz, também com os olhos cheio de lágrimas.
- Eu não quero nunca te esquecer, te dei o meu coração de presente pra sempre – falei enxugando as lágrimas dele - Posso te pedir um favor?
- Sim meu lindo! Você pode pedir o que você quiser. Você quer a lua? - falou ele apontando para a lua cheia. Você quer o mundo? Pode pedir tudo, eu te dou meu anjo.
- Cuida bem do meu coração, ele fica sempre feliz em te ver!
- Te amo! – então, ele me perguntou - Você quer namorar comigo?
Não respondi com palavras, respondi com um beijo demorado. O moço parou de me beijar, olhou para cima e gritou:
- Ai como eu estou feliz! Só para entender, isso é um sim? – perguntou ele.
- É um super sim – falei rindo.
- Estou namorando a pessoa mais maravilhosa do mundo - falou ele gritando com os braços para cima.
- Não grita seu louco, os vizinhos estão dormindo – eu estava rindo também – Então estamos namorando a mesma pessoa, porque eu também estou namorando a pessoa mais maravilhosa do mundo.
Em agosto, Vicente deixou a casa dos pais deles, para mora comigo.
- Filho, então é o seu namorado que esta morando com você? – perguntou minha mãe por telefone.
- Sim mãe, é o Vicente.
- Ta bom, eu vou dizer para o seu pai que é um amigo da faculdade - Ele não precisa saber agora que ele é o seu namorado, tem problema?
- Você é genial mãe – falei pelo telefone - Claro que não tem problema, ele vai conhecer o Vicente e eu falo que estávamos namorando.
Dezembro chegou, eu passei para o segundo ano de faculdade, com excelentes notas. Eu o Vicente continuávamos muito apaixonados, raramente brigávamos. Minha mãe então me disse para passarmos o ano novo com eles e nós fomos.
No dia 31 de dezembro, meu pai me encontra no corredor do primeiro andar da casa e me pergunta:
- Paulo, esse rapaz que você trouxe, ele é seu namorado? – perguntou ele sério.
Eu fiquei olhando para ele, sem responder. Então ele assentiu com a cabeça e foi para o quarto dele. Será que isso era um bom sinal? O ano novo foi muito legal, nos divertimos demais. Reparei que meu pai não estava falando muito, mas minha mãe disse que isso iria passar.
Em 2009, uma crise atacou o mundo e chegou ao Brasil, fazendo uma grande parcela dos trabalhadores perderem os seus empregos. Eu não podia perder o meu free lance, eu pagava a faculdade com ele e ainda tinha algumas despesas do apartamento para pagar (agua e luz e condomínio). Então, em março, no final do expediente de um domingo, a Rosângela, minha gerente me chamou em uma das mesas e me disse:
- Paulo, eu gosto muito de você. Gosto mesmo. Mas você estava vendo como o movimento esta fraco? Praticamente não estamos abrindo nos fim de semana para atender umas três pessoas só. O patrão me chamou e pediu para eu economizar nas despesas do bar. Então eu vou ensinar um dos garçons a fazer bebidas.
- Rosângela, não faz isso comigo, por favor – falei me adiantando ao assunto – Não diz que vocês vão me dispensar.
- Paulo, é isso mesmo, eu te adoro e eu estou com ums dor em te dizer isso - ela estava muito tensa – Mas eu estou dispensando os seus serviços como free lance. Me desculpe, mas eu não posso me dar o luxo de ter um free lance nos fim de semana, temos economizar.
Quando eu cheguei no apartamento Vicente estava vendo televisão e me olhando chegando mais cedo e com um semblante muito triste, ele pergunto:
- O que aconteceu mor? Você esta bem? Chegou mais cedo do que o normal.
- Fui demitido - falei sentando no sofá, jogando a bolsa no canto e encostando a cabeça no ombro do Vicente.
- Não acredito, isso não pode acontecer - falou ele.
- Porque meu anjo? - falei me levantando
- Porque eu também fui, eles fecharam essa filial do meu trabalho, todos foram demitidos.
- Não pode acontecer mor, como é que a gente vai fazer agora? – perguntei.
- Calma amor, a gente vai achar uma solução – e me olhando ele perguntou – Você confia em mim? – eu fiz que sim coma cabeça – Eu te prometo que vamos solucionar esse problema, vamos arranjar emprego e vamos sair dessa “marolinha”.
Sabendo da nossa situação, os meus pais, através do nosso amigo verdureiro e caminhoneiro, começaram a mandar algumas compras para nós. O nosso almoço e janta passou a ser macarrão, com salsicha, alguns dias arroz, com macarrão e salsicha, outros dias, arroz, ovo, farinha e salsicha. Nos bebíamos água da torneira.
- Vamos fazer o seguinte – disse o Vicente – Vamos colocar as dividas aqui em cima do hacke e nós vamos gastar nada enquanto não pagarmos as nossas coisas, estamos em recessão.
- Mesmo se não colocar as contas ai em com, nós já estamos em recessão, não gastando nada – falei brincando.
No começo de abril nós começamos a trabalha de panfleteiros, para um empresário que comprava ouro. Estávamos nos dois na rua Sergipe entregando panfletos.
- Tó moço – falei, tentando entregar panfleto para um rapaz que passou direto - Nossa amor, estamos realmente na merda, né? Esse povo passa pela gente como nós fossemos invisíveis.
- Calma amor, tudo vai ficar bem.
O Vicente viu uma senhora cheia de jóias e disse:
- Olá boa tarde, tudo bem?
- Sim, vou bem – falou ela parando.
- Estou fazendo uma pesquisa e gostaria de saber o que a senhora acha da crise mundial? – perguntou ele.
- Olha moço, essa crise complicou tudo, ela é horrível, inclusive eu estou até sem dinheiro.
– Então eu tenho a solução para você minha amiga – falou ele como se fosse se tivesse algum produto milagroso. “Vamos falar de coisa boa?”
- Qual? – perguntou ela interessada.
- Nós temos um amigo que compra jóias e paga muito bem por elas – falou o rapaz entregando o panfleto a ela.
Eu estava querendo rir, mas me aguentei.
- Nossa moço, perfeito, eu vou lá agora – falou ela me agradecendo.
Eu fiquei olhando ele e disse:
- Genial – falei – Eu não sei se fico animado ou assustado com a sua cara de pau.
- Obrigado lindo, pode ficar animado, pois estou usando para o nosso bem – falou ele se achando.
- Nossa, se eu pudesse te dava um beijo agora – falei baixinho.
- Daqui a pouco nós vamos pra casa e você vai pode me pagar com muitos beijinhos.
Nós não ganhávamos muito dinheiro e o que ganhávamos não dava para pagar todas as nossas contas, sempre deixávamos alguma para o outro mês.
- Mor? – falou o Vicente - Você tem um monte de livros caros, não é?
- Tenho alguns romances e ficção que são um pouco caro, mas o que você esta pensando?
- A gente esta sem dinheiro para pagar a luz e é perigoso a luz ser cortada em breve.
- Ah não meu amor, você não esta pensando em... – eu não completei a frase.
- Sim vender para as sebos. – ele confirmou para o meu desespero. Você também não tem uma revista do “Homem aranha” que é rara?
- Ah coragem que alguém vai mexer no meu gibi do homem aranha.
- Mor, pensa comigo, nós temos que ter luz, se ficar sem luz nem jeito de fazer comida nós vamos ter.
- Ah amor, eu não quero.
- Qual das nossas contas estão vencida esse mês?
- Estamos em maio não é? – perguntei. Ele fez que sim – esse mês esta vencida além da luz , um condomínio e a minha faculdade.
- E você quer ficar tomando banho na água gelada? Mor eu não quero isso para nós, mas temos que fazer alguns esforços – falou ele segurando a minha mão.
- Amor, mas ela é autografada pelo Stan lee, que é quem criou o Homem Aranha, eu não posso vender a revistinha numero um, dele – falei. Ele ficou me olhando sério enquanto me mostrava a conta de luz – Como você é persuasivo, né? Tudo bem, mas eu não vou ir lá vender, você é quem vai.
Ele levantou, foi no quarto, pegou o gibi raro e meus livros e foi. Mesmo vendendo para a sebo, não foi o suficiente para pagar tudo, ainda estávamos devendo o condomínio, que estava cada vez mais caro e com uma conta vencida, porque eu optei por pagar as contas vencidas da faculdade.
Tivemos que vender alguns moveis do apartamento. Fomos à Rua Duque de Caxias e pedimos para os donos dos moveis usado irem ao apartamento e ver o que oferecíamos. Eles só deixaram a cama, o fogão, a geladeira e televisão, que agora ficava no chão. Vicente queria me mostrar algum lado positivo em tudo isso.
- Olha amor, quanto espaço nós temos – falou ele de braços no meio da sala.
- A gente não tem mais sofá, vamos ter que usar a cama como sofá, a gente não tem quase nada mais – falei muito sério.
- Temos um ao outro, temos saúde e é isso o que importa – falou ele.
Em novembro a crise já estava diminuindo e nós já estávamos empregados, eu no meu antigo emprego e Vicente estava trabalhando como chefe de cozinha em um restaurante. Tínhamos comprado alguns móveis novos pra nosso apartamento, tudo estava voltando ao normal. Para minha total surpresa, a Rosângela não queria mais que eu fosse free lance, mas sim que fosse registrado para trabalhar todos os dias como barman.
Um dia eu acordo, o Vicente já havia ido para o restaurante e do meu lado da cama estava um pacote, escrito: “Para o amor da vida deu!”. Não podia ser possível, eu não estava conseguindo acreditar, comecei a chorar muito, era a coisa mais bonita que alguém tinha feito por mim. Ele havia comprado à revista rara do homem aranha novamente para mim.
Nós já estávamos com quase dois anos namoro. O ano de 2010 começou tranquilo, sem muitas novidades, trabalhando, estudando e brincando com o Vicente. Infelizmente estávamos brigando muito, quando se começa um relacionamento tudo são flores, mas depois de quase dois anos, elas murcham. Estávamos morando juntos fazia um tempo e a vida de casado havia desgastado o nosso relacionamento. Juntos nós acordávamos, tomávamos café da manhã, escovávamos os dentes, banho, almoçávamos, jantávamos e no final já não aguentávamos mais ver um ao outro. Nesses últimos dias, nós dormíamos abraçados, mas depois ficávamos longe, cada um querendo o seu devido espaço da cama. A desculpa era que estava calor.
Normalmente eu ia passar uns dias na casa dos meus pais para ver se isso diminuía. Diminuía, mas depois de um dia inteiro de juras de amor, vinha à rotina e começávamos a brigar novamente. Nós não nos beijávamos mais tanto, não dizíamos palavras bonitas e muitas vezes íamos dormir brigados. Isso é péssimo para um relacionamento. Meus amigos sempre me falavam que ele ficava estava estranho.
- Paulo, é sério amigo ele esta muito diferente – falou Jerson.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei.
- No começo ele era um príncipe com você e agora como é que ele está? Ele esta grosso, gritando e brigando por qualquer coisa. Um gelo cai no chão e a culpa é sua, você esta demorando pra levantar da cama e ele já vai brigar com você. Qualquer coisa ele briga com você amigo. Isso o que eu to te falando é somente as coisas que eu vejo, deve ter mais um monte de coisas que você não me conta.
- Você tem razão Jerson – falei.
Nós estávamos tomando sorvete no calçadão. Thiago estava sentado em um banco olhando para o celular e rindo sem parar. Passou um rapaz muito perto dele, Vicente nem disfarçou, olhou o rapaz dos pés até a cabeça, parecia que ia ataca-lo. Jerson olhou para mim com uma cara de : “ To te falando!”.
- Eu não sou dono da sua vida, eu só sou seu melhor amigo, mas esse cara esta muito estranho - falou ele.
Na manha do dia oito de maio, acordei e como sempre fui tomar o café da manhã com o Vicente, que já me esperava na cozinha. Estava ele sentado na cadeira em frente à mesa, com uma cara de emburrado. Eu coloquei o café e o leite na minha xicara e não aguentando tanta pressão, eu perguntei:
- O que foi que aconteceu? – perguntei tranquilo.
- Porque você não lavou a louça ontem à noite? – perguntou ele muito bravo.
- Cheguei muito cansado e deixei para lavar hoje de manhã amor – falou muito calmo.
- Você esqueceu do nosso acordo? – perguntou ele muito irritado – Paulo, você devia ter lavado a louça.
- Eu sei, mas como te disse, cheguei muito cansado. Nossa! Ontem trabalhei demais – olhei para ele sorrindo e comecei a contar – Sabe aquela senhora que eu disse que foi chata comigo? Ela voltou lá e...
- Você esta mudando de assunto – falou ele me cortando e gritando – Hoje vou ter que lavar essa louça suja como eu faço sempre, pelo o que eu estou vendo.
Ele havia levantado e estava apontando o dedo para mim. Havia um prato, uma faca, um garfo e um copo. Essa louça era do que, ouro?
- Para de gritar comigo Vi, foi só uma louça. Na verdade nem tem nada na pia, deixa que eu lavo isso em um minuto, só quero tomar café, você sabe que eu não funcionou sem café – falei tentando parar o assunto.
- Não, não precisa, eu vou lavar – falou ele com um olhar de quem iria me matar – Seu escravo Vicente vai fazer isso meu rei.
O que é havia naquele pão que ele estava comendo? Ele estava totalmente descontrolado por uma coisa que era insignificante.
- Calma meu amor – falei ainda sentado – Você não precisa ficar bravo assim.
- Calmo? Calmo? Você tem que aprender a fazer as coisas, Paulo. Sua mãe não te ensinou nada?
Me levantei da cadeira.
- Nunca fala da minha mãe, não diga mais nada sobre ela – eu estava irritado.
- Você sabe que eu não gosto dela, ela é muito falsa. – falou ele, alto.
- Ela nunca te disse nada e ela gosta de você. Minha mãe aceitou você na família.
- Uma mulher falsa – repetiu Vicente em um tom irônico.
- Parabéns Sr Vicente, conseguiu me deixar irritado – peguei o prato e mostrando para ele, eu disse – Mas eu não vou lavar não, eu vou quebrar essa merda – falei jogando no chão – E esse copo? Ele é bonito né? Era – joguei o copo na parede. Quem comprou essa bosta foi essa mulher que você chamou de falsa.
- Você um retardado Paulo!
- Retardado é você Vicente, um idiota desequilibrado. Agora eu vou sentar aqui nessa cadeira e terminar o meu café com leite, calmamente.
Me sentei. Ele foi até o quarto, eu podia ouvir a respiração ofegante dele. Cortei um pedaço de pão e quando eu fui pegar a manteiga, o Vicente veio correndo até a mim, pegou o meu café que estava muito quente e jogou em minha camiseta branca. Eu cai da cadeira.
- Ta quente, ta muito quente – falei tirando a camiseta.
Ele continuava me olhando preocupado. Tirei a camiseta e vi que havia feito uma marca em um meu peito.
- Filho da puta! Porque você fez isso, seu animal? – falei me levantando e empurrando ele.
- Desculpa, eu estava muito bravo e quando a gente esta assim fazemos coisas sem pensar.
- Eu estou muito bravo, então acho que você vai entender isso – falei dando um soco bem forte no rosto dele.
Ele caiu no chão, se levantou e começamos a brigar. Eu o empurrava, ele também me empurrava, me batia e eu devolvia os socos.
- Você quer brigar, quer? – perguntei – Então vem apanhar seu viadinho.
Ele veio com muita raiva. Quando veio, joguei ele no banheiro, dentro do box, liguei o chuveiro, Não me pergunte o porque, mas depois de um soco, eu o beijei. No começo ele não queria, mas depois retribuiu. Assim paramos de brigar e ficamos namorando. Era um sábado e naquele dia, o Vicente não trabalhava e eu só trabalhava a noite. Estávamos juntos deitados na cama, conversando.
- Mor, o que esta acontecendo com a gente? – perguntei.
-Como assim? – perguntou Vicente.
- Nós não estamos mais nos dando bem – falei.
- Você realmente acha isso? - deitado na cama.
- Amor, pensa na nossa briga hoje, a gente discutiu por causa de uma louça – falei – só para deixar claro, só você que começou – falei rindo.
Era só uma louça e eu ia lavar.
Ele continuou quieto.
- Você esta tão estranho ultimamente. Não sai do celular, fica olhando para todo mundo, esta ficando bravo por qualquer coisa que aconteça. Cadê aquele homem que era o mais romântico do mundo?
- Ai meu anjo, desculpa eu não sei o que aconteceu comigo. Eu ando muito estressado. É o meu gerente brigando comigo, o meu pai que até hoje não me aceitou. E você é a pessoa que eu mais vejo e por isso acho que acabo descontado tudo em você. Desculpa de novo meu amor.
- Por favor, nunca mais faça isso, não gosto de brigar com você. Olha como esta roxo o seu rosto – falei colocando a mão em cima.
- Ai mor, para, para, para, por favor. Esta doendo. Você tem uma mão pesada demais – falou ele rindo.
- Você não lembra que eu fazia karate quando era mais jovem?
- Tinha esquecido, mas você me lembrou.
- Amor, acho realmente que a gente precisa conversa e pensar bem sobre nós - falei.
Ele sentou, olhou para mim e disse:
- Pode deixar amor, vou tentar ser um namorado mais calmo, não vou descontar nada em você, você não é culpado pelas minhas coisas, ao contrario, você é o único motivo de e u conseguir acreditar as coisas.
O Celular do Vicente vibrou.. Ele pegou o celular e fez um cara de susto.
- O que aconteceu amor? – perguntei curioso.
- Mensagem da operadora.
- Mas porque você ficou tão espantado?
- Eu imaginei que eu tinha bastante crédito e agora fiquei sabendo que os meus créditos estão abaixo dos três reais.
- Deixa eu ver a mensagem? - pedi.
- Eu apaguei já – falou ele colocando o celular do seu lado.
Olhei no meu relógio e já estava na hora de tomar banho e ir trabalhar. Levantei, tomei banho, tomei mais um pouco de café antes de sair e fui para a porta. Vicente estava na porta me dando tchau, quando o celular dele começou a tocar.
- Atende Vicente – falei para ele. Eu estava encostado na porta.
- Não, deixa quieto, depois eu atendo.
- Certo. Mor, se cuida, qualquer coisa me liga – o celular dele continuava tocando – Atende esse celular Vicente.
- Não, não vou atender nada – falou ele meio estranho - Depois eu atendo e retorno para ver o que é.
Eu peguei o celular do bolso dele, era uma chamada sem identificação. Atendi, a ligação era a cobrar.
- Alô? – ouvi uma respiração e a pessoa desligou o telefone.
- Deve ser trote - falou o Vicente meio sem graça.
- Pois é, deve ser mesmo – falei meio desconfiado – Estou indo trabalhar Vicente – tava com tanta raiva que não estava conseguindo nem chamar de amor - Qualquer coisa me liga, beijos.
- Beijos.
Dia nove de maio, era o meu aniversário, eu completava vinte e três anos. Todos diziam que era perto do ano da revelação, vinte e quatro anos. Ou você escolhe ser gay, ou vira hetero. O que eu ia revelar? Moro com um homem, eu chamo ele de amor, tem relações com ele. O que eu tenho que decidir? Tenho que decidir nada, já ta tudo decidido. Eu sei qual é a minha sexualidade e nada iria mudar. Naquela noite do dia oito de maio, estava tudo tranquilo no meu trabalho, estava um movimento que não era pouco, mas também, não era algo para ficar preocupado. Eu estava lavando copos e pensando porque o Vicente estava agindo daquela forma tão estranha.
- Será que ele esta me traindo? – pensei em voz alta – Eu não sei o que eu sou capaz se ele fizer algo.
- Paulo, corre, vem logo para cozinha, caiu um botijão de gás no pé da Marcilene - gritou minha gerente.
Sai correndo até a cozinha, tadinha da Marcilene. Cheguei lá, todos os funcionários estavam lá, com um delicioso bolo de chocolate e refrigerantes.
- Parabéns pra você, nessa data querida ... – continuaram cantando o pessoal.
Eu estava ao lado da Marcilene, porque mesmo sabendo que era mentira, eu havia ficado preocupado com ela. Ela estava abraçada comigo.
- Com quem será, com quem será , com quem será que o Paulo vai casar? Vai depender, vai depender, vai depender se o Vicente vai querer – cantaram todos.
- Gente ele já aceitou – falei assoprando as velinhas –Já estamos juntos faz um tempo – todos riram comigo.
- Meu aniversario é só amanha, gente!
- Paulo, você já viu que horas são? - perguntou Marcilene - São meia noite e cinco. Já seu aniversario - falou ela me dando um abraço.
Eles iam pegando pedaços de bolo e refrigerantes. Eu fiquei recebendo os parabéns de várias pessoas.
- Paulo, o movimento esta tão tranquilo, pode ir pra sua casa aproveitar o seu dia e a sua noite – falou Rosângela.
- Tem certeza? Não vai descontar depois de mim, né? – falei brincando.
- Para de ser bobo – falou ela – Claro que eu vou descontar - ela ria e comia bolo ao mesmo tempo.
Normalmente Vicente sempre ia me buscava no trabalho para irmos embora juntos. Liguei no celular dele e ele não atendeu. Tentei mais umas quatro vezes e nada. Então resolvi mandar uma mensagem para ele.
“ Amor, fui liberado mais cedo do trabalho, estou indo pra casa. Beijos, te amo!”.
Cheguei na porta do meu apartamento, a luz estava apagada.
- Filho de uma mula, deve estar com o outro no apartamento do cara – falei baixo.
Abri a porta e não vi nada. Andei mais um pouco Quando alguém liga a luz e todos saem de trás da mesa gritando:
- “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida”.
Vicente veio correndo até a mim e me deu um abraço bem gostoso e disse:
- Oh meu amor, desculpa não atender as suas ligações, é que tudo isso fazia parte da surpresa.
E eu ainda pensando mal dele. Tadinho do meu lindo. Estávamos todos os meus amigos. Laira, Jerson e Alifer foram os primeiros que eu vi.
Alifer fazia faculdade comigo. Ele é muito engraçado, me faz rir de mais, cada hora que ele fala alguma coisa você de rir. Ele é magro, deve ter 1,70 de altura, com o cabelo liso, penteado para o lado, mas com volume. Ele tinha uma concorrente no peito de um cavalo marinho em prata. Alifer também é gay (como a maioria dos meus amigos) e ele é casado com o Rogério.
- Ai migo, feliz aniversário, seu lindo! Tudo de bom para você nesse ano de aniversário que esta começando – falou a Laira.
- Obrigado Laira, vocês são demais - falei abraçando ela. Veio o Jerson também me abraçando – Obrigado por ter vindo Jeh, vocês são os melhores amigos do mundo – Alifer estava me olhando com um olhinho de cachorro molhado e eu completei – Vem para cá também Alifer, esse grupo não ficaria completo sem você, seu lindo.
- Paulinho, o Rogério te mandou um beijo, ele não pode vir, porque esta com uma peça em cartaz e eles em turnê, mas quando ele vir vai até um presente.
Olhei a casa estava toda enfeitada, com bexigas no teto, uma mesa cheio de doces, salgados e um bolo chocolate, com morangos em cima.
- Nossa gente, eu to tão feliz que vocês estão aqui comigo.
- Oh pessoal, vocês são o máximo. Fico muito orgulhoso de ter vocês como amigo - falei para eles
- Você esta sabendo que hoje vai ter um super Dj aqui na sua casa, né Paulinho? – perguntou o Jerson.
- Não. Quem vai vir?
- Eu mesmo – falou Jeh - Eu vou colocar aquelas musicas antigas que tocavam na sua época – falou ele.
- Eu adoro essas musicas – falou Alifer.
Jerson colocou pra tocar saideira, da banda Skank para a gente ouvir.
- Tem que deixar o som baixo, né? – perguntou Jerson .
- Passou das dez horas, mas não também não tão baixo – falei rindo.
Todos estavam muito animados, bebendo cerveja, refrigerante, comendo salgados. Quando de repente eu noto que o Vicente não esta ali.
- Você viu o Vicente por ai? - perguntei aos convidados da festa.
Eles disseram que não.
- Tudo bem, ele deve ter ido comprar alguma coisa pra gente ou esta armando mais uma surpresa para nós - falei - Gente, eu vou lá trocar de camiseta e eu já volto.
Cheguei no quarto, peguei uma camiseta que estava na minha arara, que fica do lado do armário. Sentei na minha cama e comecei pensar, como eu estou feliz, não achei que iria chegar nesse ponto da minha vida, estudando, trabalhando, namorando, cheio de amigos legais.
- Como eu estou feliz – falei, deitando na minha cama. Ouvi um barulho estranho no armário - Ué, que barulho é esse?
Estava cada vez mais alto, como se algo tivesse batendo no armário. Fui quietinho até o armário e abri. Quando eu abri a porta, eu vejo Vicente beijando Carlos, os dois estavam pelados. Isso mesmo, Carlos, o cara que ligou para os meus pais e contou que eu sou gay, que acabou com o meu trabalho.
- Filho da puta, o que você esta fazendo aqui? – perguntei muito bravo ao Carlos - eu não estava conseguindo acreditar que isso estava acontecendo.
- Você não vai brigar com ele – falou Vicente entrando na frente do rapaz.
Dei um tapa no Vicente.
- Eu ia dar nele, mas como você entrou na frente - falei - O que você esta fazendo aqui no meu apartamento, com o meu namorado? Fala filha da puta - falei como muita raiva.
- Ele veio por causa de mim – falou Vicente.
- Cala a boquinha Vicente – falei bravo - Você fica defendendo esse bosta e não deixa ele falar.
Da sala, ouço o Jerson gritando:
- Paulo, ouve essa musica, ela é do nosso tempo.
“Ser corno ou não ser, ex a minha indagação. Sou um homem conformado, sei que já fui chifrado, mas o que vale é tesão.”
- Mamonas é um clássico não é Paulo? – perguntou Vicente rindo.
- Essa musica veio bem a calhar – completou Carlos - Então Carlos, você nunca me chamou para vir na sua casa, então o Vicente me convidou.
Pulei no pescoço dele e comecei a apertar, Carlos me puxou, me jogou em cima da cama e foi cuidar do Vicente que estava sem ar. Eu fiquei na cama querendo chorar, mas a raiva era demais.
- Seu idiota, imbecil, filho de uma cabra – gritei.
Meus amigos vieram ver o que estava acontecendo.
- Que baixaria é essa? Daqui a pouco os vizinhos vão vir aqui – falou a Laira.
- Lembra que eu te contei daquele idiota chamado Carlos, em Laira? - falei. Vicente gritou dizendo que ele não é idiota – Cala a boca Vicente, senão vai sobrar pra você de novo – ele ficou quieto - Então, o Vicente e ele estavam se beijando bem no dia do meu aniversario, dentro do meu armário.
- Essa não é só sua casa, é minha também - disse o Vicente.
- Vicente, quanto mais você falar, mais você vai apanhar – falei gritando.
- Como você esta bravo, Paulinho – falou Carlos – Precisa de gritar tanto assim? – ele ainda estava dentro do armário – Cuidado que você já não é mais uma criança, esta chegando em uma idade avançada já, se gritar muito pode machucar a sua garganta – falou ele de um jeito muito sínico.
O Jerson e o Alifer foram ver o que estava acontecendo.
- Pessoal, esta tudo bem? – perguntou Alifer. E vendo a situação toda ele falou para mim – Paulo, o que é isso?
- Uma confusão, Alifer, mas resumindo, esse cara é o meu namorado e esse é um cara que estava pegando o meu namorado.
- Eu não quero mais você Paulo – falou Vicente se achando.
- Então que terminasse comigo e não que estivesse com o meu inimigo no dia do meu aniversário. Por favor, alguém me segure, porque senão eu vou matar esses dois.
- Matar com o que, caratê? – perguntou o idiota do meu ex.
- Não, com uma faca – falei muito bravo - O caratê vai ser só para te deixar inconsciente.
- Ninguém vai matar ninguém não – falou o Jeh me segurando – Não vai fazer nada não Paulo. Por favor, você não merece esse babaca. Ele esta mostrando quem ele é verdade.
Os dois ainda estavam na frente do meu armário e eu estava na porta ao lado dos meus amigos.
- Agora fala Vicente, porque no dia do meu aniversario? Se vai me trair, que traia quando eu estou trabalhando e não na minha festa – falei - E por favor, me traia com alguém que seja no mínimo mais bonito do que eu e não esse ratinho de laboratório.
Carlos gritou comigo, dizendo que não é rato.
- O Carlos sempre teve uma tara por ficar aqui na nossa cama.
- Você já veio aqui? – perguntei abismado.
- Talvez até mais do que você – falou Carlos.
Meus amigos estavam do meu lado, olhando a situação. Vicente continou falando:
- Quando eu disse que hoje é o seu aniversario, ele quis mais ainda vir para casa – e olhando para o Carlos ele disse – O Carlinho tem esses fetiches loucos as vezes.
O Alifer falava para o Jeh:
- Esses caras estão falando tanta besteiras para o Paulinho, eles devem estar drogados, só pode. E eles ainda estão pelados.
- Pior que às vezes não – comentou o Jeh - Eles são só louco mesmo ou psicopatas.
- Sabe Paulo – continuou Vicente - não era para você ouvir, era para ser algo rápido. Mas o Carlos beija tão bem, que eu acabei me empolgando – falou o otário do Vicente, abraçando o Carlos e beijando.
- Por favor, alguém queime meus olhos – gritou Laira.
Sério, aquilo era demais pra mim, os dois no dia do meu aniversario se beijando pelados.
- Fetiche? Essa é sem-vergonhice. Isso Paulo, é só para você descobrir – gritou Laira – tenho certeza que o Carlos queria que você descobrisse.
- Queria mesmo – falou o Carlos – Você não me quis, agora vai ter que sofrer.
- Paulo, mas pelo o que eu estou vendo aqui, você não vai sentir muita falta deles né? – falou Alifer olhando para as partes intimas dos dois – Com essas “pequenezas” ai, é melhor você ficar sozinho mesmo.
Eu dei risada.
- Fica quieto, é que esta frio – falou Vicente.
- Então esteve frio todos os dias né Vicente, todos os dias desde que te conheço – falei rindo. Meus amigos estavam fazendo aquilo momento ficar engraçado.
Alifer continuou:
- Carlos, ainda bem que ele não te quis né?
- Porque que bom? Que bom nada, ele que saiu perdendo – respondeu ele.
- Não meu querido, que bom sim, porque o Paulinho é gay e não hetero, ele gosta de homem e não de mulher.
- Eu não sou mulher – gritou ele.
- Ué, isso ai não é perereca? – falou ele apontando para as partes intimas do Carlos.
Carlos, tentou esconder.
- Ta tentando esconder o que ai? Não tem nada – disse o Jeh.
Todos nós estávamos rindo muito, eu estava até sem ar. O mais legal é que Carlos e Vicente estavam totalmente sem graça. Mas Vicente ainda queria falar.
- Você esta rindo , mas esqueceu é corno, né? - falou ele. Somente ele e o Carlos riram - Agora que você descobriu, eu vou te contar mais – começou o Vicente – Toda vez que você ia para a casa dos seus pais, o Carlos vinha aqui, quando você vai trabalhar também. Sabe aquelas mensagens de operada e aquelas ligações a cobrar? Eram todas dele.
- Porque você não terminou comigo, ao invés de ficar fazendo isso? – perguntei.
- Simples, porque assim é muito mais divertido. E eu gosto do perigo – falou ele.
A Laira veio correndo da cozinha com o bolo de chocolate na mão e jogou no Vicente e no Carlos.
- Isso é por vocês terem mexido com o meu grande amigo – falou ela.
Os dois ficaram muito lambuzados. No radio continuava tocando mamonas assassinas e a musica era “Chopis centis”. Eles iram tirando o bolo do rosto e jogando no chão. O Alifer foi á cozinha e voltou cheio de brigadeiros e começou a tacar neles. Enquanto, ele jogava os dois tentavam correr do quarto, mas o quarto estava cercado pelos meus melhores amigos. Jerson para não perder a piada, foi á cozinha e voltou cheio de refrigerantes de 2 litros, entregou para o Alifer , para a Laira e para mim. Nós chacoalhamos os refrigerantes e miramos nos dois e acertamos em cheio. Eu estava adorando, mesmo que fosse algo trágico e chato, os meus amigos estavam ali para me ajudar e me fazer rir. E claro, para se vingarem comigo.
- Paulo, vamos conversar, eu acho que ... – começou Vicente, mas eu não deixei ele falar, joguei refrigerante na boca dele, fazendo ele engasgar.
Carlos ficou atrás dele, batendo nas costas do engasgado e o Vicente ali no chão vermelho e sem ar. Nós continuamos tacando refrigerantes neles sem parar.
- Toma refrigerante, seu imbecil – gritou Alifer, se divertindo muito com a situação.
Quando os refrigerantes acabaram, o Vicente desengasgou e veio para cima de mim. Mas os meus amigos estavam todos atrás de mim, fazendo caras de bravos. Ele ficou com medo e recuou.
- Vai embora daqui Vicente – falei.
- Vou sim – falou ele gritando – Mas deixa pelo menos eu colocar a minha roupa antes? – pediu ele.
- Não, você vai colocar mais nenhuma roupa – respondi.
Fui atrás deles e empurrei eles até a sala.
- Não precisar empurrar, eu conheço o caminho – disse ele.
- Então por favor, esqueci o caminho e nunca mais volte para cá
- Eu ainda vou voltar buscar as minhas coisas, Paulo. – falou o Vicente.
Peguei o ultimo docinho em cima da mesa e joguei no olho dele, deixando vermelho.
- Seu besta! – gritou ele – Ai meu olho.
- Quer mais? – perguntei. Ele fez que não – Então vai embora e leva esse saco de bosta junto com você – falei me referindo ao Carlos.
- Saco de bosta é a sua... – quando ele foi falar, eu dei uma voadora no peito dele.
Ele caiu no chão e batendo a cabeça na porta.
- Da minha mãe ninguém fala – falei em cima dele, com ele sem ar.
- Carlos, lembra que eu te disse para nunca falar mal da mãe dele? Então, quando eu disse isso, o negocio era sério mesmo – falou Vicente – Levanta dai e vamos embora.
Ele levantou e os dois foram embora. Meus amigos estavam comemorando e rindo demais. Peguei e interfornei pro porteiro para avisar que tinha caras pelados descendo as escadas.
- Chama a policia – falei para o porteiro.
- Você viu a cara deles? – perguntou o Alifer.
- Eu vi sim, inclusive adorei, me senti em uma série de televisão – respondi.
- A gente tinha que fazer isso novamente algum outro dia – falou Alifer, rindo sem parar.
Todos estavam rindo, mas pararam quando viram como eu estava. Eu estava parado, olhando para a porta, querendo chorar, ao mesmo tempo que eu estava feliz.
- Amigo, porque essa cara? – perguntou Jerson.
- Ele sendo cachorro ou não, eu era completamente apaixonado por ele, me dediquei por dois anos, todo o que eu fazia era para nós, a gente passou por muitos momentos juntos, passamos por fome, por alegrias, tristezas – e olhando para os meus amigos, eu falei – Talvez estivesse na melhor para ficarmos juntos, nós estávamos com uma renda boa, com moradia nossa, ele não podia ter feito isso comigo – falei bravo.
Então, Laira, Jerson, Alifer, vieram e me deram um grande abraço coletivo.
- Não fica assim Paulo – falou a Laira.
- Isso mesmo meu amigo, tudo vai ficar bem – falou o Jerson.
- Eu amava ele, não fiz nada de errado com ele, sempre dei o meu melhor, não sei porque ele fez isso – falei.
- É a oração funcionando – disse o Alifer – “ mas livrai-me de todo mal amém”. Esse mal não é mais seu e você está livre.
- Isso mesmo Paulo, você vai ficar muito bem e do que depender da gente vai ficar bem logo – falou Laira.
Jerson foi até o som e colocou a musica da Valeska Popouzuda:
- Essa musica é pra você Paulo: “Agora estou solteiro e ninguém vai me segurar, daquele jeito” – cantou Jerson enquanto dançava.
Alifer cantava e dançava com ele. Como ficar triste com pessoas tão incríveis assim do meu lado? Não tem jeito. Quer saber? Realmente, fui livrado de uma pessoa ruim, eu não tenho eu ficar triste, ele não merece a minha tristeza, ele esta colendo o que ele plantou. Agora eu estou solteiro em Londrina e ninguém vai me segurar!
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