Capitulo 6° - O cara novo
Em novembro o tão esperado herdeiro da família nasceu: Enzo, pesando 3kgs e meio. Eu como tio coruja que sou, fui no dia da minha folga vê-los e estavam todos babando em volta do pequeno. Minha mãe não se aguentava de tanto orgulho.
- Olha como parece o Paulo quando bebê – disse a dona Rosa.
- Ele é lindo, né? – falei sorrindo.
- Realmente ele lembra mesmo você, ele tem cara de joelho – falou o meu pai também rindo – Ele é um joelhinho lindo.
Dei um beijo no rosto da minha irmã e perguntei como ela estava. Ela me contou que aquela ligação mudou a vida dela e que quando ela viu pela primeira vez o seu filho, sentiu remorso só de pensar que quis tira-lo.
- Ele é o meu anjinho que eu amo demais – falou a mamãe Flavia, dando de mamar.
- Muito lindo, parece com você, mais com o nariz do papai dele – falei, analisando.
- Ainda bem que ele tem o nariz do papai dele, imagina ter o meu? Tadinho dele – falou ela rindo – Você ouviu o que o seu padrinho disse? Ele disse que o seu nariz é do seu papai.
- Ele realmente tem o nariz do...- dei uma pausa e perguntei - Padrinho?
- Aceita ser o padrinho do Enzo? – falou ela sorrindo para mim.
- Sim, com certeza eu aceito, com muito orgulho. Muito obrigado – agradeci. Eu estava emocionado, sou uma manteiga derretida. Eu amo ele.
- Viu só, Enzo? O seu tio te ama, a vovó de ama, o vovô te ama, o papai te ama, mas a mamãe te ama mais que todo mundo – falou ela rindo.
- Se eu puder eu vou comprar um monte de brinquedos para ele, vou estragar esse menino de tantas coisas que eu vou dar para ele - falei – Fico muito feliz que a nossa conversa te ajudou, Flávia, fico muito feliz mesmo. Pode contar comigo para qualquer coisa que você precisar.
- Eu sei disso maninho.
Minha mãe estava super orgulhosa, falava para todo mundo que tinha um neto e ainda falava que é a Vó mais nova do Brasil.
- Paulo, a idade esta na cabeça da pessoa – respondia ela, quando eu falava que ela não era a mais nova.
Meu sobrinho tinha nascido com alguns cabelos loiros, ele parecia o pai dele só que em versão menor e bem mais bonita.
Em janeiro de 2011, fiquei sabendo que o Vicente estava namorando o Toninho. Uma bicha alcoólatra, que ficava indo sempre no “Bar do J”. O bar do J é um dos lugares mais legais quando se é gay e quando não se é também. Lá é um bar, só que é frequentado pelos gays e todo mundo respeita isso. É um bar rustico, com mesas de sinucas, cadeiras e mesas. Quase todos os dias eu estava lá.
- Oi chefe, gostaria do mesmo de sempre – falei para o garçom.
- Vai se embebedar hoje né? – perguntou o garçom.
- Hoje eu quero ficar louco – falei brincando.
Quem ouvisse iria achar que era cerveja, mas eu não era tanto de beber e estava diminuindo mais o meu consumo de álcool. Ele me serviu um refrigerante geladinho.
- Essa esta bem gelada, mandou muito bem meu amigo – falei para o garçom.
De repente ouço uma mulher gritando:
- Paulo!
Eu olhei para os lados e não achei ninguém. Conheço essa voz, mas não estava sabendo de quem é.
- Paulo! – gritou novamente – Aqui perto do poste. Sou eu a Laira.
Olhei no poste e lá estava Laira, o Jerson, o Alifer e o Rogerio. Fui até eles. – Oi pessoal, não sabia que vocês iam vir aqui - falei.
- A gente te convidou, mas você não olha o celular – falou o Jerson.
Peguei o meu celular e lá tinham 5 chamadas e 30 mensagens sms, todas mais ou menos assim: “vamos no J?”, “onde você esta?”, “cadê você viado?”.
- Só vocês mesmo viu! – falei rindo.
- Hoje a noite está tão gostosa que seria um pecado ficar casa – falou o Roger – O Alifer estava entediado em casa também.
- Tava mesmo, aliás, eu queria ir para uma cachoeira, para uma praia, pra algum lugar bem chique – falou ele rindo – Mas o bar do J é um dos bares mais legais daqui de Londrina.
E vendo o Alifer dar um beijo no Roger, eu disse:
- Gente para, assim o pessoal vai achar que a gente é gay – falei dando risada e vendo que naquele lugar só tinha gays.
- Pois é, tem razão, Paulo – falou o Jerson rindo também.
Nós estávamos conversando animadamente, quando o Vicente passa por mim, junto com o seu namorado alcoólatra e bate no meu cotovelo.
- Oh palhaço, olha por onde você anda – falei olhando para o Vicente.
- Você ouviu alguma coisa Toninho? Parece que tem uma mosca falando comigo - ele estava mais arrogante do que nunca.
O Toninho só riu e não falou nada. Ele era um gordinho e baixinho, com o cabelo preto, todo bagunçado, mas não ficava legal o seu cabelo e sim bem estranho, era ridículo. Ele tinha um olhar que parecia que ainda estava dormindo, um olhar avoado, distante. Ele era menor que eu.
- Você deveria ter me trocado por um cara bem melhor né, meu filho? – falei – Olha isso, esse cara é estranho.
- Mas eu troquei, eu amo demais esse cara – falou o Vicente – Ele é perfeito.
Toninho deu um sorriso estranho, não sabia se ele estava realmente sorrindo, ou se havia tido um derrame facial.
- Você trocou esse filé mignon aqui, por essa carne de quinta, com o prazo de validade vencido? - eu não sou um cara metido, mas eu aprendi que temos que ter a auto estima lá em cima, não importa o quanto na merda você esteja, mas esteja na merda de modo chique.
Vicente veio para cima de mim querendo brigar, quando o Roger entrou na minha frente e disse:
- Se você for brigar com eles, vai ter que brigar antes comigo.
Eu estava atrás do Rogério rindo demais, me sentia super seguro.
- E ai tampinha vai arriscar? – gritei para o Vicente, enquanto eu me escondia atrás do Roger.
- Sua vida é essa, né Paulo? Se esconder atrás dos outros – falou ele saindo.
Enquanto eles estavam saindo, eu fui bem quietinho atrás do Vicente e gritei:
- Olha o caratê!
Ele caiu no chão de susto.
- Eu atrás dos outros e você no chão, rebaixado, ridículo –falei apontando para ele – E ai, você quer refrigerante?
Todos estavam rindo muito.
- Vão rindo, vão rindo, quem ri por ultimo ri melhor – falou ele.
- Ou atrasado, porque não entendeu a piada – falou o Alifer – Arrasei – comemorou ele.
- Arrasou sim amor – falou o Rogério – Mas, mais arrasado esta esse bosta ai no chão – falou sobre o Vicente que continuava no chão - Sai daqui, antes que eu faço você sair.
Vicente fez uma cara de bravo, se levantou e saiu.
- Se ele soubesse que eu sou tão calmo e que não gosto de brigar – falou Rogerio rindo – Eu dou aquela engrossada na voz e finjo que sou bravo.
Em maio fui para a casa dos meus pais, era um domingo e eu estava folgando nesse dia. Cheguei lá e como sempre a minha mãe havia feito um bolo de chocolate delicioso. Estava chuvoso nesse dia e o dente do meu sobrinho estava nascendo. Ele já estava com sete meses, era um garotão grande e lindo, o seu cabelo estava crescendo e ficando loiro e liso.
Minha irmã abriu a porta do quarto e me chamou:
- Padrinho Paulo, vem aqui logo – o Enzo chorava sem parar.
- O que foi Flávia? Porque ele não para de chorar?
- Eu não sei – falou ela se descabelando – É muito difícil, meu Deus, por favor, Enzo lindo da mamãe, para de chorar.
Ele não obedecia.
- Faz alguma coisa Paulo, por favor, senão eu vou ficar louca.
- Vai lá na sala com a mãe, vou ficar com ele. Vai logo menina. Ele só precisa de um momento com o tio padrinho – falei. Ela me obedeceu.
O menino berrava. Tirei-o da cama e coloquei no meu colo.
- Eu vou cantar para você. “ Nana nenê, que a cuca vem pegar” – comecei a cantar. O choro aumentou – Tem razão, a cuca vem pegar não é uma boa coisa. Vou tentar outra: “Brilha brilha estrelinha, brilha brilha lá no céu” – o menino ainda chorava muito - Poxa Enzo, brilha brilha estrelinha é um clássico, como assim você não gosta?
O que eu poderia fazer para acalmar esse menino? Então me lembrei de uma música linda que eu gosto muito:
- “Meu amor, essa é a ultima oração, pra salvar o seu coração...” – eu embalava o menino e ai cantando cada vez mais baixo – “Coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na dispensa” – ele tinha parado de chorar e parecia que estava me ouvindo – “Cabe o meu amor, cabe três vidas inteiras, cabe uma penteadeira, cabe nós dois, cabe até essa oração” – quando terminei de cantar, ele sorriu para mim e dormiu.
O menino dormindo e o padrinho chorando, eu nunca tinha feito o meu sobrinho dormir antes:
- O tio também ama essa música Enzo – falei colocando ele no berço.
Minha irmã veio correndo para saber o que tinha acontecido. Ela entrou na porta e perguntou:
- Padrinho Paulinho, porque eu não estou ouvindo o choro do meu filho? – perguntou ela entrando na porta com cuidado – Você deu remédio para ele?
- Não, eu só cantei a música da banda mais bonita da cidade. Ele gostou da música e dormir – falei.
- Por isso que eu te escolhei como padrinho – falou ela.
Eu voltei para a minha linda Londrina com o meu amigo caminheiro.
Enquanto dirigia o caminhão, ele disse:
- Parece que foi ontem que você foi para Londrina!
- Nem me fale, Milton – falei concordando com ele – Pode até aparecer que foi ontem, mas eu mudei bastante viu. Não sou mais aquele menino que foi daquela vez em novembro de 2007.
- Mudou para melhor, ou para pior? – perguntou ele fazendo uma curva.
- Para muito melhor.
Eu estava em um ótimo momento da minha vida. Eu tinha terminado a minha faculdade. Estava trabalhando, com poucos amigos, mas esses poucos são os melhores, eu já estava sabendo cozinhar muito bem e no alge dos meus 24 anos. Sinceramente? Se aparecesse alguém na minha vida, tudo bem, mas se não aparecesse alguém, tudo bem também. Eu estava feliz comigo mesmo, estava curtindo a minha vida
Laira me ligou:
- Amigo, tudo bem?
- Claro que sim, sua linda. E você como esta? – perguntei.
- Tudo ótimo. Deixa eu te perguntar, segunda feira vai ser o seu aniversario, o que você acha, que ir na balada com a gente hoje?
- Quem vai? – perguntei.
- A mesma galera de sempre.
- Ai que bom que você me ligou, já estava preocupado achando que eu ia ficar sábado aqui em casa sozinho- falei dando risada - Vamos sim.
- Nós queremos chegar antes da meia noite.
- Beleza, pode deixar, que eu vou estar lá nesse horário. Beijos sua linda
- Beijos seu lindo - ela falou desligando.
Eu estava com um sentimento que alguma coisa incrível iria acontecer. Como se eu soubesse que a minha vida ia melhorar. Não havia espaço para mais felicidade. Quer dizer, sempre a espaço para mais coisas boas. Um pouco antes da meia noite eu estava mostrando o meu RG para a segurança.
- Boa noite – disse ela.
- Boa noite.
- Vou ver o seu o seu RG só porque tem que ver, mas sei que você tem mais de 18 anos, você esta quase todos os dias aqui – falou a segurança rindo.
- Quem mandou o lugar ser legal, não é? – falei rindo também.
Entrei e sentadas estavam duas moças fazendo entregando o cartão de consumo da boate
- Oi Paulo, tudo bem? – perguntou uma delas.
É sério, como eu sou conhecido.
- Melhor agora – falei – Você sabe se a Laira e a turma já estão ai?
- Sim, eles estão sim. Estão super animados – me respondeu.
Havia duas grandes portas, eu as empurrei e entrei. Havia muita gente, como todos os sábados. A balada que nós íamos não era tão grande, mas havia um andar a cima, onde tinha sofá paras as pessoas sentarem, e a parte de baixo, que tinha havia faixas coloridas de LED que percorriam as paredes, de cima, até embaixo, também um balcão grande. Eu estava na parte de baixo. Laira e turma dançavam ao som de Shakira: Rabiosa.
- “Rabiosa,Tu tienes pila y loco haciendo cola, Mira palomo metioenlio,Y tu me quieresatracaoahi, ratata” – cantava a Laira, dançando junto com a Jenifer – Paulo, que bom que chegou.
Estavam todos em uma rodinha, Laira, Jerson, Alifer, Jenifer e Rogério:
- Achei que não ia vir mais – falou Jerson.
- Claro que eu ia vir, acha que eu sou louco de perder uma baladinha com meus melhores amigos? – falei - Nunca perderei.
Entrei na roda e comecei a dançar com todos. Eu estava com uma camiseta preta, uma calça jeans azul, um all star e com o cabelo arrepiado. Alguns caras olhavam para mim, mas sinceramente eu não queria ficar, eu fui para curtir os meus amigos, só iria ficar com alguém se parecesse quem realmente mexe-se comigo, mas até então não tinha visto ninguém. Estava me sentindo muito bem, a música como sempre estava ótima.
- Paulo, eu vou no bar pegar alguma coisa para beber, você vai beber alguma coisa? – perguntou o Jerson.
- Um refrigerante, por favor – falei entregando o meu cartão de consumo, assim ele passaria a minha bebida no cartão.
- Não quer uma cerveja?
- Não, não, hoje eu estou de refrigerante – falei rindo.
- Beleza, vou lá buscar.
Alifer que dançava do lado do Rogerio veio me dizer:
- Paulo, você já parou para pensar que já faz um ano daquele dia na sua casa?
- Já sim, Alifer.
- Você esta muito melhor hoje em dia – falou ele – Pelo menos é o que aparenta.
- Estou sim, estou feliz. Nem lembro mais daquele idiota do Vinicius, apaguei da minha memória. A única coisa que eu sinto por ele é pena e nada mais.
Ele me deu um abraço e disse:
- Fico muito animado que você. Vamos comemorar muito hoje – falou ele me puxando e puxando o Rogerio para dançar conosco.
Logo Jerson voltou com o refrigerante.
- Vamos conversar um pouco ali no fumódromo? – perguntou ele.
- Vamos sim – respondi a ele. Fiz um sinal para os outros que logo eu voltaria.
O fumódromo, era reservado para os fumantes e quem quisesse ficar conversando. Separado da parte interna, ficava ao ar livre, havia um grande banco de gesso para as pessoas sentarem e conversarem. Nós sentamos e o Jerson me perguntou:
- E ai, como você esta? – perguntou ele.
- Eu estou bem amigo e você? – perguntei.
- To ficando louco com tanto trabalho, nossa, mas é esse trabalho que me dá dinheiro para estar aqui no fim de semana. Então, enquanto eu não acho outro, eu tenho que aguentar.
- Isso mesmo, eu sei bem o que é isso, as vezes a gente pensa se vivemos para trabalhar, ou trabalhamos para viver. Sinceramente, eu não sei a resposta.
- Pois é, nem eu - mudando de assunto, ele disse - Tem um monte de carinhas olhando para você, porque você não dá uma chance para alguém?
- Não quero mais esse negocio só de ficar. Será que tem alguém aqui nessa cidade que realmente quer levar uma pessoa a sério? – e olhando para ele, eu disse - Eu tenho saudades disso.
- Ai amigo, alguma hora vai aparecer alguém, você é uma pessoa incrível e algum bofe vai enxergar isso e te dar o valor.
- Valeu amigão.
Eu dei uma olhada em volta, tinha varias pessoas se beijando. Do meu lado havia um rapaz e outro sentando no colo dele e os dois riam muito. Não sei qual era a graça, talvez estivessem só bêbados, ou talvez eu estivesse é com inveja por eles terem alguém e eu não. Com certeza eu estava é com inveja.
Ficamos conversando mais um pouco até que o Jerson falou que ia ao banheiro. Eu ia ficar esperando ele no fumódromo.
- Não demora, ta bom Jeh?
- Ok, só vou fazer pipi.
Estava uma noite quente e agradável. Eu então me encostei na parede, tomei um gole do meu refrigerante, fechei os olhos e fiquei curtindo a música. Então ouvi alguém falando comigo.
- Oi, boa noite? - ele tinha uma voz muito bonita.
Será que o Alifer, ou o Rogério? Não, não deve ser, eu não estava reconhecendo aquela voz. Eu continue com os olhos fechados e respondi:
- Boa noite!
Abri os meus olhos e olhei para ele. Ele estava sorrindo e tinha o sorriso mais lindo que eu já tinha visto. E olha que eu sou louco por sorrisos.
- A música esta muito boa, não acha? – perguntou ele.
- Sim esta ótima – falei. Eu nem estava ouvindo a música, então reparei que estava tocando: Igot feeling, do Black eyed peas – Adoro essa música.
- Eu também gosto muito dela.
O rapaz estava com uma camiseta branca por baixo, uma camisa xadrez e azul, aberta por fora Ele era loiro, com o cabelo loiro escuro, com uma barba cheia e loira escura, mas muito bem cortada, ela era muito bonita. Os seus olhos eram castanho claros. O seu cabelo estava penteado para o lado, ele tinha um cabelo curto bem liso. Um menino realmente lindo. Ele estava do meu lado direito.
- Você costuma vir sempre ao New? – perguntou ele.
Ele me parecia familiar, mas eu não estava conseguindo lembrar da onde eu o conhecia. Poderia ser algum cliente do bar onde eu trabalho.
- Só quando eu não trabalho no domingo, ou quando eu trabalho só á tarde.
- Assim entendi. Eu venho aqui normalmente para dançar com os meus amigos – falou o rapaz.
- Isso é o máximo! Eu também vim por causa da minha turma – aquele sorriso não era estranho, estranho era o que o seu sorriso menos era. Era um sorriso lindo demais.
Nós ficamos quietos, um olhando para o outro.
- Você não me reconheceu ainda Paulo? – perguntou o rapaz.
- Com sabe o meu nome?
Ele riu.
- Uma noite conversamos sobre música em um ponto de ônibus, lembra? Se eu não me engano, você estava esperando alguém, então eu e você fomos de ônibus cantando Oceano Djavan.
Nossa, era ele mesmo, como estava bonito, ele era tão novinho, agora já estava um homem barbudo e lindo.
- Não acredito! Como você esta? Desculpa, mas eu esqueci o seu nome.
- Marcus, o meu nome é Marcus.
Ele me cumprimentou e me deu um abraço. Lembrei, eu estava esperando o Tiago me buscar, mas ele não foi porque estava me chifrando e então fiquei conversando como Marcus no ponto de ônibus. Chovia muito. Foi tão divertido ficar cantando com ele dentro do ônibus, eu lembro que ele cantava muito bem.
- Se eu te contar uma coisa você não vai acreditar – falou o moço.
- Tenta, já vi de tudo nesse mundão de meu Deus – falei rindo.
- Eu tinha 18 anos quando a gente conversou e eu estava cursando a faculdade de processamento de dados, mas não gostava. E aquele dia nós ficamos conversando sobre música, que eu gostava muito, mas não tinha coragem de largar o que eu estava fazendo e ir fazer algo relacionado.
- Você lembra-se de tudo isso? Que máximo – eu estava muito contente.
- Sim e digo mais, quando estamos saindo do ônibus no terminal central, você me disse o seguinte: “Deveria fazer algum curso, você tem o dom Marcus, não desperdício.”, eu lembro que eu te agradeci e você me falou “Obrigado nada, vai fazer algum curso de música, o mundo que vai te agradece”.
- Gente, que memoria é essa? Você tem uma memoria incrível – falei.
Ele deu risada e continuo dizendo:
- Eu te escutei e conversei com os meus pais e larguei a faculdade de processamento e prestei para música e passei.
- Tudo isso por causa do que eu disse aquela vez? – perguntei.
- Sim, por causa do seu entusiasmo ao me contar sobre música, você me contagiou, pela sua alegria falando que eu cantava bem, que eu tenho um dom. Você disse para eu correr atrás dos meus sonhos e eu fiz isso. E
Eu estava com a boca aberta.
- Hoje em dia eu faço curso de música na U.E.L (Universidade Estadual de Londrina). São quatro anos, ou seja, eu termino esse ano.
Nossa, eu nunca iria imaginar, que eu havia interferido na vida de uma pessoa.
- Sabe, de certo modo eu queria te contar isso – falou ele – Lembra que enquanto eu estava indo para o ônibus você me disse: “A gente se encontra por ai, combinado?”, eu nunca quebrei uma promessa, Paulo! Eu disse que estava combinado te encontrar, demorou quatro anos, mas te achei.
- Quanto tempo procurando em Marcus – falei brincando – Essa promessa foi paga com sucesso. Eu não sei nem o que te dizer Marcus, nem nos meus sonhos mais loucos eu iria imaginar que eu te teria ajudar alguém a fazer o que gosta.
- Sabe Paulo, eu amo música e devo agradecer totalmente a você pelos seus conselhos. Muito obrigado! – ele me estendeu a mão.
Eu peguei em suas mãos macias e depois dei um abraço. Aliás, ele era muito cheiroso.
- Não precisa agradecer, só continua cantando e tocando violão – pedi.
- Hoje em dia eu também toco bandolim, piano e violino.
- Eu amo violino e piano, mas confesso que não conheço bandolim.
- Ele é como se fosse um mini violão – falou ele rindo – Eu não sabia que você é gay. Quer dizer, você é gay né?
- Sou sim, eu também não sabia de você – falei. Isso é sério, eu nem desconfiava.
- Desde pequeno eu já sinto atração por homens.
- Você mora com quem? – perguntei.
- “Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar” – falou ele cantando legião Urbana. Ele continuava mais afinado do que antes.
- Você só cantou Pais e filhos, do legião Urbana, ou isso é verdade? – perguntei.
- Meu pais são separados, ele esta no Canada com a minha irmã e eu moro com ela. Ela sabe de mim, mas a gente não conversa sobre isso – contou Marcus – E você, mora com quem aqui?
- Eu moro sozinho.
- Olha que legal. Ainda esta trabalhando no mercado?
- Não, aquele serviço era temporário. Agora eu trabalho em um bar como Barman. – falei.
- Que legal, Paulo! Você estuda?
- Já terminei a minha faculdade, me formei em letras.
- Que caixinha de surpresas que você é. Bonito, engraçado, sabe dar bons conselhos, sabe fazer vários drinks e ainda é formado em letras?
Ele estava dando em cima de mim. Era melhor ele parar, porque senão eu não ia resistir a ele. Eu queria resistir a ele? Não, eu não queria resistir a ele. Parecia que alguém tinha lido os meus pensamentos e criado uma pessoa com a aparência que eu acho bonita e ainda por cima colocado vários talentos. Podia ser coisa da minha cabeça, não tinha certeza que ele estava querendo algo.
Ele me olhou, veio chegando mais perto de mim. Não, eu não estava enganado, ele realmente estava interessado em mim. No momento em que ele estava chegando perto de mim, alguém gritou:
- Paulo, vem cá meu amor!
Puta que pariu, quem é o filho da puta? A minha pergunta já era uma resposta. Vicente, o meu ex. Ele estava muito bêbado e sujo. Parecia um mendigo, aliás, um mendigo normalmente não é tão sujo quanto ele. O cheiro de cigarro estava impregnado naquele ridículo. Ele não fumava quando estava comigo.
- O que você esta fazendo com o meu namorado? – gritou ele ao Marcus.
Nós nos levantamentos.
- Paulo, você esta namorando? – perguntou Marcus espantado, mas ainda tranquilo – Desculpa, eu achei que ele estava sozinho.
- Mas eu estou sozinho – falei para o Marcus - Ele não é meu namorado, ele é meu ex. Acredita em mim? – perguntei desesperado.– Esse cara é simplesmente o maior erro da minha vida, eu o detesto.
- Como assim meu amor? Nós estamos juntos! – falou o Vicente caindo de bêbado.
- Até parece, eu não encontrei a minha boca no lixo – falei. E olhando para o Marcus, eu perguntei novamente – Acredita em mim?
- Acredito sim – respondeu o bom moço.
- Sai de perto dele – gritou novamente o retardado.
O Vicente chegou perto de mim e disse:
- Eu te amo Paulo, volta para mim? – senti um cheiro de pinga, ele estava cambaleando na minha frente – Eu reparei que a pessoa certa na minha vida era você, volta para mim. O Toninho me largou, ele esta com outro.
Eu ri muito em pensamento, bem feito!
- Você mereceu isso, a gente colhe o que planta, essa é a leia da vida – falei. O Marcus estava do meu lado, ainda quieto.
Todos no fumódromo olhavam para a gente. Será que toda vez que esse Vicente aparece vai ser um barraco novo?
- Você foi o namorado mais perfeito que eu já tive, eu não sei o por que eu fiz tudo aquilo com você, eu me arrependo. Por favor, volta para mim?
- Não – falei sério.
Nisso apareceu os meus amigos e o Rogério vendo aquela situação, perguntou:
- Esse cara esta te atrapalhando Paulo?
- Está Rogério – falei – Tira ele aqui da minha frente.
Eu estava me sentindo um chefe da máfia. Falei isso como se ordenasse: “Pode mata-lo, cortar em mini pedaços e jogar o resto para os cachorros”.
- Não, eu não estou atrapalhando, eusó estou conversando com... – começou o Vicente.
- Cai fora daqui! – gritou o Rogério. O Vicente obedeceu.
Bem na hora em que eu ia dar um beijo no menino lindo? Sério isso Vicente! Nossa como eu odeio esse cara.
- Amigo, vamos lá dentro – falou a Jenifer me puxando.
- Tudo bem! Eu já estou indo – olhei para o Marcus e perguntei – Desculpa, por isso. A gente conversa mais lá dentro, o que acha?
- Claro, eu te procurei por quatro anos, agora eu não vou deixar você sumir novamente– falou ele sorrindo muito.
Voltamos a fazer uma roda.
- Jerson, eu achei que você já iria voltar. Que pipi demorado o seu, em menino?
- Eu voltei, mas quando eu vi que você estava conversando com um bofe, eu voltei para cá – ele fez uma cara de esperto – Aliás, vocês formam um belo casal.
- Nossa, ele é uma gracinha, ele tem um jeitinho manso de falar, que me deixa todo mole.
Começou a tocar a uma música bem legal.
- Que música é essa Jerson?
- Bicha retardada, como você não esta reconhecendo a voz da divã, Rihanna? Essa música é “We found love”– falou o rapaz dançando.
- Nossa, é demais, adorei ela. E a tradução é linda também – falei.
Marcus estava dançando com os seus amigos do outro lado da pista. Enquanto eu o via eu cantei para o Jerson:
- Ela diz o seguinte: “Encontramos amor em um lugar sem esperança. Brilha uma luz através de uma porta aberta, amor e vida eu separarei, volte, pois eu preciso de você mais, sinto o coração batendo em minha cabeça” – falei ainda olhando o Marcus – Ele é realmente muito lindo.
- Me conta sobre o bofe – pediu Jerson.
Eu contei ao Jerson e me lembrei demais detalhes. No dia em que eu conheci o Marcus, eu tinha brigado com o Carlos, ele tinha me dito que estava gostando de mim, e nós brigamos no refeitório do mercado. Mas tarde, lembro que o Marcus se molhou com a chuva e disse: “Olha isso moço, olha isso! Molhou toda a minha roupa” e eu ri. Depois eu disse que eu ria de desesperado, por que fiquei pensando que se eu molha-se a minha roupa, não teria outra. O que era mentira estava rindo dele mesmo. Fomos para o terminal central e ele disse que gostava muito de cantar, ele cantou e eu me encantei, ele era muito bom. Porque eu não tinha pego o telefone dele? Ah sim, eu estava conhecendo o Tiago, por isso. Quebrei a cara com o Tiago, mas o destino deu um jeito de nos juntar novamente. Quando voltei a olhar para ele, ele também me olhou e abriu o sorrisão.
- Olha Paulo, ele esta muito afim de você – falou o Jerson – Da para ver na cara dele.
- Será?
- Ele tentou te beijar?
- Tentou, só não conseguiu por causa do Vicente.
- Então bicha burra, lógico que ele esta afim de você – falou Jerson.
Marcus começou a andar em minha direção. O que ia fazer? Comecei a sorrir também, mas agora de desesperado, o meu coração batia a mil. Eu estava nervos por causa dele, fazia tempo que isso não acontecia comigo. Então ele chegou à minha frente e quando foi falar alguma coisa novamente Vicente também chegou perto de mim nesse instante, eu dei um abraço no Marcus e disse:
- Fica abraço comigo, por favor? Assim ele sai daqui do meu lado – falei perto do ouvido dele.
- Sim – respondeu o jovem rindo da situação.
Enquanto nós estávamos abraçados, ele colocou a mão na minha cintura, nós começamos dançar juntos. Ao som de Someone like you, da Adele, ele ia cantando no meu ouvido:
- “ I heard that you're settled down , that you found a girl and you're married now, i heard that your dreams came true, guess she gave you things, I didn't give to you, old friend, why are you, so shy, It ain't like you to hold back,or hide from the light”
- O que você esta fazendo comigo, Marcus? - perguntei com a minha boca perto da dele. Eu estava muito afim dele.
- Paulo, eu sou composto por 80% de música – falou o Marcus.
- E os outros 20%? - perguntei pertinho da boca dele, com as minhas mãos em seu rosto.
- Vontade de você! – falou me dando um beijo.
Enquanto a Adele cantava o refrão da música, pedaços de papel em pratas, iam caindo. Era formando um momento mágico:
“Não importa, eu vou encontrar alguém como você, Não desejo nada além do melhor para vocês dois. Não me esqueça, eu imploro, eu lembro do que você disse: Às vezes, o amor dura, mas, às vezes em vez disso ele machuca, as vezes, o amor dura, mas, às vezes em vez disso ele machuca.”.
- Seu beijo é perfeito – falou ele.
- Desculpa, eu não te ouvi, estava lá no céu – falei dando risada.
Será que o Marcus tem algum defeito? Quando a música acabou, os meus amigos estavam nos olhando. Alifer fazia coração com as mãos para nós. Então apresentei o Marcus a eles.
- Esse é o Marcus pessoal – falei apresentando ele.
- Tudo bem, galera? – cumprimentou ele.
Eles faziam que sim.
- Eu sou o Jerson, o melhor amigo do Paulo.
- Eu sou a Laira, melhor amiga do Paulo. Essa é a minha namorada Jenifer – falou a Laira.
- Prazer – cumprimentou a Jenifer ao Marcus.
- O Prazer é meu em conhecer vocês todos – falou o rapaz.
- A gente, não vamos confundir a cabeça do Marcus – falou o Rogerio chegando perto do Marcus . E falando baixinho, ele disse – Eu e o Alifer somos os melhores amigos do Paulo.
- Gente, eu sou o melhor amigo de todo mundo – falei rindo – Vocês moram no meu coração, meus lindos.
Coitado do moço, devia estar ficando louco, era muitos amigos para conhecer em um momento só. Daqui a pouco o rapaz sai correndo. Mas ele esta conhecendo uma das melhores partes de mim: Meus amigos.
Eles voltaram a dançar.
- Quem diria que o menino do ônibus estaria aqui nos meus braços – falou o Marcus.
- Eu também nunca iria imaginar isso – respondi – Mas estou adorando me surpreender com você.
- Você tem defeito, Paulo?
- Vários, mas iriamos ficar conversando três dias seguidos – falei brincando.
- Eu não ligo, você ter defeitos significa que você é de verdade e não um sonho. Porque tem horas em que você parece um sonho.
De repente a música parou e o Dj anunciou:
- Pessoal, vamos ter alguém que vai fazer aniversario daqui a alguns dias- falou ele.
Que vergonha, será que era eu?
- Paulo, cadê você? – perguntou o Dj.
Sim, era eu mesmo. Eu levantei a mão no meio de todos e quando olhei para o lado meus amigos estavam com um bolo de aniversario para mim.
- Vamos cantar parabéns para ele, pessoal? - pediu o Dj.
Todos estavam cantando parabéns para mim, Marcus estava segurando as minhas mãos.
- Eu não sabia que era seu aniversario – falou ele – Você não me falou nada.
- É só na segunda feira, dia nove, eu tinha até me esquecido – respondi.
Alifer estava segurando o bolo e disse:
- Assopra a velinha e faz um pedido, Paulinho.
Eu assoprei. Marcus veio me dar um beijo e disse:
- Espero que os seus desejos mais profundos e mais bonitos se realizem. Pode deixar que eu vou te dar um presente.
- Não precisa, você é o meu presente – falei dando mais um beijo nele.
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