Capitulo 9° - Férias
Como eu puder ficar tanto tempo sem o Marcus? Ele todos os dias me mostra como eu sou importante para ele e eu também tento fazer a mesma coisa. Eu sei que começo de relação é sempre muito bom, mas tinha a certeza que era algo a mais, não pode de ser uma paixão temporária, aliás, não vai ser uma paixão temporária. Ele me faz sentir diferente do que os outros me faziam sentir.
Eu estava terminando de lavar a louça no meu trabalho, nesse dia não tinha mais ninguém e nós íamos fechar as 23:00.
- Paulinho, você pode vir aqui um pouco? – pediu minha gerente.
- Claro que posso, deixa só eu terminar essa louça e eu já estou indo – falei terminando de lavar o copo.
Ela estava me esperando de pé, com alguns papeis na mesa.
- Sente-se por favor – falou apontando a cadeira.
- O que manda? – perguntei.
- Paulo, você viu que hoje vamos fechar mais cedo?
- Vi sim – falei.
- Geralmente a gente fecha mais tarde, né?
- Sim.
- O movimento esta fraco, estamos passando por uma crise.
Eu não estava gostando daquela conversa.
- Paulo, eu vou ser direta – falou ela.
Era agora.
- O Bar vai fechar– ela não estava nada feliz, amava aquele lugar tanto quanto eu.
- Então acabou? Estamos todos demitidos? – perguntei triste.
- Sim, mas o chefe vai pagar tudo o que vocês tem direitos. Como você nunca tirou férias e já está aqui mais ou menos três anos e pouco, o Roberto vai te mandar embora, dessa forma você não vai precisar pagar o seu aviso-prévio, também recebe o seu FGTS e ainda pode pegar o seguro-desemprego por um bom tempo.
- Isso em dinheiro da quantos? – perguntei ficando animado.
- Muito, muito mesmo - ela estava tentando sorrir para me deixar alegre. Amanhã é sua folga e segunda você não precisa mais vir.
Ficamos quietos por um tempo. Eu tive um crescimento gigantesco trabalhando no bar, conheci várias pessoas e eles me chamavam de: “The Barman Best”, que em português significa: O melhor Barman.
- Não segura ás lágrimas Paulo. Eu mesmo chorei por horas. Trabalho aqui á quinze anos e do nada eu vou parar. Não é fácil.
Ela puxou a cadeira do meu lado e falou enquanto nós dois chorávamos.
- Eu lembro quando você entrou aqui, eu achava que você não ia durar, mais de um dia, mas você abraçou as nossas ideias, foi evoluindo todos os dias, aprendendo, sendo carismático e hoje em dia é o melhor barman de Londrina – ela me deu um abraço e disse - Tantas vezes que você veio me contar dos seus amores, das coisas que aconteceram com você e eu fui te dando dicas, te ajudando. Fui a sua mentora. Fico muito orgulhosa de ver um homem aqui na minha frente, diferente daquele menino que chegou aquele dia pedindo emprego.
- Só tenho que te agradecer Rô – falei – Não vou dizer adeus, eu vou dizer até mais.
- Nossa viado, não é só porque você namora um musico, que você tem falar tudo relacionado com música – falou ela rindo.
- Como assim?
- “Pra dizer adeus, pra dizer jamais”, a musica do Titãs – falou ela cantando - Vou sentir muitas saudades de você e seu jeito louco e sincero de ser.
- O que você vai fazer nesse tempo? – perguntei.
- Vou abrir um restaurante lá na cidade dos meus pais – falou ela- Esse tempo que eu sou gerente aqui, eu consegui guardar uma boa renda, o bastante para abrir um restaurante.
Levantamos e nos abraçamos mais uma vez.
- Boa sorte meu the best barman – falou ela.
- Você também com o seu restaurante, the best gerente – falou rindo - Eu não sei como se fala gerente em inglês.
Marcus foi me buscar nesse dia. Ele estava com o carro parado ali na frente do bar. Eu entrei e dei um beijo nele.
- O que aconteceu meu amor? – perguntou ele – Você disse que precisa me falar algo sério, o que houve?
- Então, o bar vai fechar. Todo mundo foi mandado embora – falei.
- Eles vão pagar todos os seus direitos, né?
- Vão sim, segundo ela isso dá uma boa bolada – falei ainda triste.
- Amor, eu sei que você ama aquele lugar, mas não precisa ficar triste, você vai encontrar um lugar melhor, tão legal quanto esse. Você é a pessoa mais talentosa que eu conheço. Você também pode dar aula. Ou até fazer algum curso.
- Você tem razão – falei sorrindo – Tenho que pensar que foi um ciclo que se fechou e se fechou com perfeição.
- Assim é que se fala meu lindo.
- Olha, eu gosto muito de fotografia, eu podia fazer um curso né?
- Claro, com certeza você pode fazer sim meu anjo – falou me animando.
- O que eu vou fazer amanhã? Eu gostava de saber que no outro dia eu ia trabalhar, que eu ia ser útil a alguém.
Marquinhus ficou me olhando sério.
- Amor, lembra que você me disse que estava com saudades dos seus pais?
- Sim, estou sim, faz tempo que eu não vejo eles.
- O que você acha da gente ir na casa dos seus pais?
- Hoje? Já é quase meia noite.
- Hoje não, mas amanhã cedo. Chegamos lá de surpresa.
Meu amor na minha cidade? Adorei a ideia.
- O que você acha da gente fazer o seguinte, eu vou lá em casa agora, falo para a minha mãe que eu vou ter que viajar com a banda, pego as minhas coisas, enquanto isso eu deixo você no seu ap arrumando a sua mala e daqui a pouco eu te encontro, eu durmo na sua casa e de manhã a gente vai cedo. Pode ser?
- Pode sim meu anjo.
Então, ele me deixou em casa e em 40 minutos ele estava no meu apartamento com todas as suas coisas. Marcus sentou na minha cama e falou:
- Já arrumou tudo?
- Sim, eu tenho bastante roupas minhas lá também. Tem coisas que eu não preciso pegar.
- Amor, nossa primeira férias juntos, você tem noção? Eu não estou nem acreditando nisso. Vai ser demais.
Primeira férias. O que eram férias? Acho que eu nunca tinha tido férias em trabalho antes. Se bem que isso não era uma férias era uma demissão mesmo. Eu fiquei sem trabalhar só aquele tempo em que eu estive com o Vicente, onde eu fazia alguns bicos para ganhar dinheiro. Fui pra cama, sentei no colo do Marcus e dei um beijo nele.
- Eu estou muito feliz meu anjo – falei, dando mais um beijo nele - Você vai conhecer a minha família, nós estamos namorando e tudo esta dando certo para nós.
- Quando a gente faz coisas boas, o mundo devolve em dobro – falou o Marcus me dando dois beijos – Eu te amo, sabia?
- Eu também te amo meu anjo. Obrigado por ter aparecido em minha vida.
Nós tomamos banho, fizemos um lanche e depois dormimos. Em poucas horas precisaríamos acordar para ir viajar.
No outro dia de manhã, o Marcus acordou e eu já estava na cozinha fazendo café da manhã para nós. Marcus foi andando muito devagar até a mim.
- Que horas são? – perguntou ele.
- Seis e meia da manhã – falei terminando de passar o café para nós.
- E você já acordou por quê?
- Porque são duas horas de carro até lá, a gente tem que ir cedo. Eu preparei um café da manhã delicioso para nós dois – e apontando as coisas eu falei – Café para acordar, banana, manga – ele nem deixou eu falar o resto.
- Manga – gritou ele pegando a manga – Amo manga.
- Deu para perceber – falei rindo – Por isso que eu coloquei aqui para você.
Eu já estava conhecendo as manias dele.
- Será que a sua mãe vai gostar de mim? – perguntou Marcus.
- Claro, tem jeito de não gostar de você?
- Tem sim – respondeu ele comendo um pedaço de manga.
- Me fala alguém então.
- Se eu começar a falar os nomes, quando eu terminar já estaremos lá na casa dos seus pais – falou ele rindo.
Era de manhã e ele estava com muito bom humor. Eu e ele indo viajar, era tudo o que eu mais queria.
- Você avisou a sua mãe que nós vamos?
- Não, eu quero fazer surpresa para ela.
Nós terminamos de tomar café, colocamos as coisas no carro e fomos.
Claro, durante a viagem nós ouvimos muitas musicas.
- Amor, você já ouviu João e Maria? – perguntou Marcus dirigindo. Eu estava como “copiloto”.
- Ouvir não, eu só assisti – respondi.
- Como assim, você assistiu?
- Normal, aquele filme João e Maria, matadores de bruxas. Não é isso que você esta falando? Daquelas duas crianças que vão deixando migalhas pelo chão e quando crescem matam as bruxas?
- Não – ele estava dando risada – Eu estou perguntando da música João e Maria, do Chico Buarque e da Nara Leão.
- Ah, esse não! Mas quero conhecer.
Ele ligou o rádio, colocou o seu mp3 e a música começou:
"Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês. A noiva do cowboy era você além das outras três. Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões. Guardava o meu bodoque e ensaiava um rock para as matinês. Agora eu era o rei era o bedel e era também juiz e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz."
- Agora meu amor, a gente é obrigado a ser feliz! – falou ele me olhando e sorrindo.
- A gente já esta sendo feliz, meu anjo, muito feliz – respondi a ele.
A música continuo:
“E você era a princesa que eu fiz coroar e era tão linda de se admirar que andava nua pelo meu país.” Até esse momento a música era cantada pelo Chico Buarque. Depois disso foi cantado pela Nara Leão.
- Eu amo cantar essa parte, eu finjo que eu estou cantando com o Chico Buarque – falou ele rindo. Ele então começou a cantar - "Não, não fuja não finja que agora eu era o seu brinquedo, eu era o seu pião o seu bicho preferido. Vem, me dê a mão a gente agora já não tinha medo, o tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido." - agora ele cantava com o Chico Buarque - "Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim. Pois você sumiu no mundo sem me avisar e agora eu era um louco a perguntar: O que é que a vida vai fazer de mim?"
- Eu não sei – respondi.
- Não sabe o que, anjo?
- Não sei o que é que a vida vai fazer de mim, se você sumir - falei rindo.
- Deixa de ser bobo, eu não vou sumir não, nunca.
A gente riu tanto nessa viagem, que quando vimos já estávamos entrando na cidade. Incrível como tudo vai rápido quando estamos nos divertindo. As lojas estavam abertas, algumas pessoas andavam na calçada. Tinha um banco de um lado, uma farmácia do outro, depois outra farmácia.
- Amor, quantas farmácias uma perto da outra – falou o Marquinhus.
- Será que tem bastante farmácias porque tem bastante gente doente, ou tem bastante gente doente porque tem bastante farmácias?
- Não sei, boa pergunta – ele riu – Vai me guiando amor, eu não sei onde é a casa dos seus pais.
- Vira aqui a direita, depois a esquerda e direita de novo.
Ele fez o caminho.
- É aqui virando a esquina – falei.
Quando viramos a esquina, meus pais estavam do lado de fora, colocando algumas malas na camionete. Minha mãe nos viu e começou a acenar.
- Buzina amor – falei.
Ele obedeceu. Minha mãe fez sinal para colocar a Zafira na garagem de casa. Descemos e fomos falar com a mãe e o pai.
- Porque vocês não avisaram que iam vir? – perguntou minha mãe – E porque você não esta no seu trabalho?
- Primeiro, tudo bem mãe? – perguntei dando um beijo nela – Esse é o Marcus, essa é a minha mãe Rosa e esse é o meu pai Osvaldo – eles todos se cumprimentaram – Primeiro, nós queríamos fazer surpresa para vocês e segundo, o meu trabalho fechou por causa da crise. Mas eles vão me pagar tudo certinho. Pode ficar tranquila, eu tenho dinheiro guardado e eu consigo me manter até o dia que eles vão me pagar.
- Quase que vocês teriam uma surpresa – falou o meu pai – Nós estamos indo para fazenda. Vocês iam chegar e não teria ninguém em casa.
- Não acredito, sério? Deveríamos ter avisado – falei rindo.
Minha irmã veio com o meu cunhado, ele segurando uma mala e ela o Enzo, ela estava dando mama para o pequeno. Ele estava loirinho, com 6 meses.
- Tio Paulo, vem ver o seu afilhado, olha como ele está grandão – ela me deu o Enzo para eu segurar e foi cumprimentar o Marcus - Tudo bem? Eu sou a Flávia, você de ser o Marcus, certo?
- Sim, sou eu mesmo – falou ele com um pouco de vergonha - Você deve ser a famosa Flávia.
- Ai que legal que vocês vieram, a gente vai se divertir muito na fazenda. Vocês vão pra fazenda, né? – perguntou a Flávia.
- Eles vão sim – falou meu pai, pela primeira vez – Quero muito que vocês vão conosco – meu pai estava sorrindo.
Que estranho, meu pai provavelmente sabia que o Marcus era o meu namorado e ele não estava preocupado com isso? Depois eu ia perguntar para a minha mãe.
Meu cunhado estava olhando o carro, com o Marcus e enquanto isso eu estava falando com a minha mãe e irmã na cozinha, enquanto comíamos um pão, com café. Enzo estava deitado no carrinho de bebê.
- Que namorado lindo, o seu – falou a Flávia – Parabéns! Maninho você sabe escolher.
- Fazer o que, eu tenho bom gosto – falei rindo.
- Cuida bem dele viu, homem assim, bonzinho e bonito esta difícil de achar hoje em dia no mercado – comentou a minha mãe.
- Deixa eu contar isso para o pai, que a senhora esta procurando homem por ai – falei para ela – Você vai ver quando o véio saber.
- É porque a senhora esta procurando no mercado, no mercado só tem mercadoria, a senhora tem procurar nas ruas, no shopping, nas baladas – falou a Flávia dando risada.
Minha mãe estava fazendo careta para ela e para mim.
- Deixa de ser besta, Flávia e Paulo, vocês entenderam o que eu quis dizer – falou ela – Não estou procurando ninguém, eu estou bem com o meu Osvaldo, meu eterno namorado a muitos anos.
- Claro que eu entendi mãe - falou Flávia – É que eu não podia deixar de brincar.
Nesse momento chegou o Orlando e o Marcus na cozinha.
- Flávia – falou o Orlando – O Marcus tem um carro com sete lugares, dá para nós irmos com ele.
- Orlando, você esta se convidando? – brigou a Flávia.
- Claro que não, ele que nos convidou, a Zafira tem sete lugares, vai caber eu, você, o Enzo no bercinho e os dois – falou ele apontando para eu e o Marcus - A sua mãe e o seu pai vão na camionete. A gente pode pagar a gasolina com eles.
- Vai ser um prazer levar vocês conosco – falou o Marcus sorrindo.
Mais ou menos umas 10:30 saímos da casa dos meus pais e fomos para Candido de Abreu. Até chegar lá seria uma hora mais ou menos. Meu pai estava dirigindo na frente e nós estávamos atrás. Eu estava na frente com o Marcus, a Flávia estava nos bancos do meio sozinha e nos bancos de trás estavam o Enzo e o Orlando dormindo.
- Entenderam porque ele queria vir no seu carro? – perguntou Flávia a nós dois – Ele queria dormir.
Nós rimos.
- Tadinho dele, o Enzo chorou de madrugada e quem ficou cuidando dele a noite foi o Orlando. Eu não posso reclamar dele não, ele é um bom marido, um ótimo pai, é o meu melhor amigo - falou ela, olhando o Orlando que roncava.
- Que bom que vocês estão bem – falei.
- Que bom que vocês estão bem – falou ela a nós dois - Cuida do meu irmão viu Marcus – falou ela para ele e batendo no meu braço, ela disse – E você cuida dele. Cada um cuida do outro e assim dá tudo certo.
Ela é um amor. Nós contamos como nós conhecemos e como começamos a namorar.
- Gente, que história louca a de vocês - falou ela.
- Com certeza, daria um filme, um livro, um curta metragem, até mesmo uma peça – falou o Marcus.
- Ou uma esquete do porta dos fundos - falei, fazendo eles rirem.
- Se fosse um filme, seria um musical – falou ela rindo – Porque só tem música na vida de vocês. Sério, imagina vocês inspirarem um roteiro de um musical?
- Quem faria meu personagem? – perguntei.
- Tiririca – respondeu a minha irmã – Ou o Bozo.
- Que nada meu lindo, acho que seria o Cauã Reymond – falou o Marcus - Meu personagem quem faria seria o Reynaldo Gianecchini.
- Você é bonito, então seria mesmo – falei para o Marcus e olhando para a Flávia, eu falei – E seu personagem seria feito pela Priscila da Tv Colosso, ou quem sabe o seu barriga do chaves.
- Ele é homem - respondeu ela.
- Mas coloca uma peruca nele e tira aquele bigode, fica idêntico – falei a ela.
- Eu sou magra – falou ela – E nem vem dizer que eu fiquei mais cheinha por causa da gravidez. Ok, eu fiquei um pouco mais cheia por causa da gravidez - falou Flavia se entregando - Mas estou bem mais magra do que antes. Mas também não sou o seu barriga, né Paulo – falou ela me batendo e rindo ao mesmo tempo.
Ela odiava que chamasse ela de gorda, alias, ela nem estava gorda, nem parecia que tinha ganhado bebê.
- Flavia, você esta linda, não precisa emagrecer mais nada – falou o Marcus.
- Como você é lindo, gostei tanto de você – falou ela – Quem faria minha personagem seria a Flávia Alessandra , a Fernanda lima ou a Grazi Massafera – falou ela brincando.
- Sabe Flávia, música é vida, música anima a alma, nos encanta, nos motiva, nos inspira, a gente chora ouvindo elas, vive outras histórias. Eu sem música não sou nada – falou o Marcus.
Flávia me olhando disse:
- Paulinho, agora eu entendo porque você esta com ele, ele fala cada coisa bonita e olha que você é quem fez letras – falou ela.
- Falei que eu sei escolher – respondi.
- Se for com base nos seus últimos namoros, eu não concordo, mas se for pelo Marcus, eu concordo – falou ela.
Flávia não deixa escapar nada, se tem que brigar, ela briga, se tem que falar a verdade ela fala, isso sem ligar para o que vai acontecer. Ela é oito ou oitenta, ou ela gosta ou não gosta. Quase como se tivesse lido a minha mente, ela respondeu:
- Eu sou libriana meu amor, eu falo mesmo, não sou de guardar nada, por isso no fim da noite eu descanso a minha cabeça sem peso na consciência e nem remorso de não ter falado o que eu queria.
- Certa você – falou Marcos.
Estávamos muito perto de Candido de Abreu, para ir para a fazenda tínhamos que entrar em uma estradinha de pedra:
- Você quer dirigir? – perguntou Marcus a mim.
- Não faça isso Marcus, a gente tem um filho para criar e não temos seguro de vida - falou meu cunhado acordado.
Todo mundo riu. Eu olhei para o Orlando e falei:
- Você acordou só para me zuar? Volta a dormir Orlando - e olhando para o Marcus, eu respondi – Quero dirigir sim. Onde que liga o carro?
- Puta que pariu, vou descer e vou a pé – falou o Orlando brincando.
- Eu tenho carteira, Orlando, relaxa – respondi.
- Pode ter carteira, mas não tem pratica de dirigir – falou ele.
- Mas também, meus pais ao invés de deixar eu dirigir falaram para eu esperar pegar a carteira de cinco anos para dirigir mais, peguei a carteira e fui embora para Londrina. Lá eu tenho carro? Tenho nada.
- Tem o meu – falou o Marcus – Mas na cidade é difícil de dirigir – respondeu ele.
Marcus desceu do carro, foi do lado do “copiloto” e eu fui para o lugar motorista.
- Senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante – falei fazendo uma voz mais forte.
- Olha ai, ta achando que esta em um avião – falou meu cunhado.
- Peço que todos coloquem os seus cintos de seguranças e tenham uma ótima e confortável viagem até a fazenda “Três José’s”, do senhor Osvaldo e da dona Rosa.
Eu liguei o carro e comecei a dirigir. Para o espanto de todos, eu estava dirigindo muito bem.
- Isso mesmo, esse é o meu menino – falou o Marcus.
Nesse momento deixei o carro morrer. Minha irmã, cutucou o Marcus e disse:
- O Paulinho não pode ser elogiado, se não ele faz cagada – falou ela calmamente.
- Lindo, liga de novo e vamos lá – falou ele.
Liguei e continuei dirigindo.
- Isso, agora você coloca na primeira para ela subir esse morrinho – pediu ele – Certinho, parabéns.
Eu estava me achando dirigindo o carro dele. A Zafira é maravilhosa e me ajudava muito.
- Agora vamos descer. Então pisa no freio – pediu Marcus. Eu não estava pisando – Pisa no freio Paulo, Paulo, pisa no freio, pela amor de Deus se não a gente vai bater.
Eu fui diminuindo a velocidade do carro e deixei-o parado.
- Você quer que eu tenha um ataque cardíaco com 22 anos? - perguntou ele – Você quase conseguiu.
- Eu só não caguei porque não tinha bosta pronta – falou meu cunhado.
- Porque você parou? - perguntou Marcos.
- Parei, porque chegamos - falei.
- Mas você parou na estrada – falou ele.
- Sim, foi para te mostrar isso – falei apontando o cachoeira que estava dentro da fazenda.
Havia uma cachoeira que para mim deveria ser umas das 7 maravilhas do mundo. Era grande, com muito volume de água, muitas arvores, mato, grama, dava para ver os animais da fazenda brincando em volta e bebendo a água da cachoeira no lago que ela formava. Era simplesmente um lugar maravilhoso.
- É a coisa mais linda do mundo - falou ele - É de vocês?
- Sim – respondeu a Flávia.
- Daqui do carro já da para ver que é lindo, imagina lá de perto? – perguntou ele – A gente vai lá depois? – perguntou Marcus todo animado, parecia uma criança - Eu amo cachoeira.
- Vamos sim – respondi.
Liguei o carro e entrei na fazenda. Minha mãe estava na porta nos esperando.
- Porque vocês demoraram tanto para chegar? – e me olhando descendo do lado do motorista ela falou – Ah, o Paulo veio dirigindo, ta explicado porque a demora – falou ela rindo.
Nós descemos as coisas do carro e deixamos as malas nos quartos. A sede da fazenda três José’s, era de alvenaria, onde você entrava com uma cozinha (com geladeira, fogão a lenha, uma mesa grande com uma tolha de mesa branca, com muitas coisas escritas.
- Quantas coisas escritas – falou o Marcus.
- Geralmente a noite a gente a joga baralho e aqui colocamos quem ganhou, quem perdeu, as pessoas que vem aqui também gostam de deixar recados para a gente - contou a Flávia - Aqui por exemplo é quando eu ganhei todas as partidas do Paulo.
- Lá vem ela falar que é a melhor jogadora de baralho mundo – falei – Ela fala isso para todo mundo que vem aqui.
- Mas eu sou ruim? – perguntou ela – Não, eu realmente eu sou muito boa.
- Sorte no jogo? – comecei falando.
- Sorte no amor também – respondeu ela - Nem vem com essa história de azar no amor – falou ela rindo – Sou super bem casada.
- A noite nós vamos jogar e você esta convocado para jogar conosco – falou minha mãe passando por nós e indo para o quarto dela.
- Pode deixar dona Rosa, vou jogar sim.
Junto com a cozinha, estava a sala. Na sala, tinha dois sofás, duas janelas grandes de vidro e uma televisão pequena. No chão tinha vários brinquedos do Enzo. Virando a esquerda tinha um banheiro e no corredor tinha três quartos, cada quarto com uma cama de solteiro e uma de casal. O quarto dos meus pais era uma suíte e ficava no final do corredor.
- É muito lindo aqui – falou o Marcus deixando a bolsa dele no quarto que escolhemos para nós – É uma mistura de rústico com moderno. Vocês poderiam fazer um hotel fazenda aqui se quisesse.
- Já passamos nisso sabe, Marcus – falei a ele – Mas a gente fica com medo das pessoas não cuidarem como cuidamos, de rasgarem a nossa toalha de mesa, joguem fora as coisas que para a gente é importante - expliquei para ele sentado na cama ao seu lado - Mas assim, os meus pais deixam os vizinho irem lá na cachoeira, é nosso, mas eles não tem problema com isso. Quando é alguém que não conhecemos, eles veem aqui na fazenda, conversam com o caseiro e ele autoriza. Se bem que nesse mês não esta fazendo muito calor, maio é um mês frio, principalmente nessa região sul do Paraná. Mas mesmo assim algumas pessoas vem nadar.
- Já percebi que aqui é mais frio que Londrina mesmo, eu até gosto de frio, o problema é como eu sou mais magro, eu não tenho muita gordura para me sustentar nesse frio, ou seja, eu sinto mais frio – falou ele. E voltando a falar da cachoeira, ele disse - No por do sol e no nascer deve ser muito lindo.
- É perfeito – respondi.
Eu e o Marcus resolvemos dormir um pouco, porque estávamos bem cansados, foi uma viagem longa de Londrina a Candido de Abreu e além disso, dormirmos pouco. Nós deitamos no quarto na cama de casal e dormirmos por quase duas horas. Fechamos bem as cortinas, ficou tudo bem escuro. Às 13 horas minha mãe foi até o quarto, bateu na porta e falou:
- Meninos, vocês estão acordados?
- Não – respondi.
Minha mãe deu risada.
- Filho, você pode ir lá na horta pegar umas verduras para o nosso almoço? O almoço já esta pronto, só falta isso.
- Posso sim mãe – falei para ela - Marcus, quer conhecer a nossa horta?
- Quero sim, vamos lá – falou ele - Parece que dormir aqui, mesmo que seja só um pouco já descansa mais do que na cidade.
- Aqui não tem barulho de ônibus, de carro, somente o barulho dos bichos.
- Eu estou bem mais disposto – falou ele.
- Que bom! Porque hoje vamos andar nessa fazenda toda – falei a ele.
Fomos até a horta, pegamos algumas verduras, entre elas: Tomate, couve, alface, cenoura, pepino e pegamos laranja para fazer suco também. Entregamos tudo para a mãe e em 10 minutos estava tudo pronto. Minha mãe serviu a mesa e disse:
- Gente, vamos almoçar?
Minha irmã estava dando mama para o meu sobrinho no sofá.
- O Enzo já esta almoçando - falou minha irmã - Vai ficar fortão para um dia andar na camionete do Vovô.
- Cadê o pai e o Orlando, mãe? - perguntei.
- Eles estão pela fazenda, vendo algumas coisas ai. Você sabe como é seu pai, ele chega e some, volta só a noite.
Marcus devia estar com muita fome, ele encheu o prato de comida, principalmente de arroz.
- Eu amo arroz – falou ele pegando salada.
- Deu para ver – falei olhando a “ serra” de arroz que ele estava fazendo - arroz é muito bom mesmo – olhei para a minha mãe e perguntei - Mãe, como esta aquele pé de manga que fica perto da cachoeira?
Marcus parou de pegar comida e me olhou.
- Pé de manga, perto da cachoeira? - perguntou ele.
- Sim - respondeu a minha mãe.
- Tudo bem gente, é oficial, eu estou me mudando pra lá – falou ele rindo.
- Mas lá não tem arroz – brincou minha mãe.
- Então é melhor eu ficar aqui mesmo e ir lá as vezes – responde ele também rindo.
- Você gosta de andar de cavalo, Marcus? – perguntou Flávia.
- Amo andar de cavalo – respondeu ele.
- Então ensina o Paulo a andar, ele não gosta de andar de cavalo – falou ela - Aliás, ele nunca andou.
- Como assim, Paulo? – perguntou ele a mim.
- Ah sei lá, aquele negocio é estranho, não sei como faz para parar ele. Como acelera? Como ele freia? Ele dá ré? – perguntei dando risada.
- Não, ele é um animal, seu animal – falou minha irmã gargalhando.
Marcus, me olhou e disse:
- Você anda comigo?
- Eu tenho medo de cair – falei olhando para o Marcus.
- Se cair o que é que tem?
- Machuca, vai que eu quebro alguma coisa?
- Paulo, se você caiu você levanta e sobe de novo, se você se machucar eu cuido de você. Combinado?
- Combinado, eu vou sim.
Marcus estava amando a comida da minha mãe.
- Olha Dona Rosa, o Paulo tinha me falado que a senhora cozinhava bem, mas eu não imaginava que era tanto.
- Que bom que gostou Marcus – respondeu ela.
- Gostei? Eu amei essa comida. A senhora tem que conhecer a minha mãe, acho que na hora em que a senhora conhece-la vocês vão conversar muito, ela também cozinha muito bem.
- Imagina as duas na cozinha? – falou a Flavia – A gente ia engordar 50 kilos em cada braço.
- Quero conhece-la - falou minha mãe - Logo nós vamos para Londrina, dai eu vou lá conhecer ela, pode ser?
- Claro que pode, vai ser um prazer ter a senhora em casa - afirmou ele.
O almoço estava delicioso, a comida estava fresquinha, a salada sem nenhum agrotóxico. Estava tudo perfeito, principalmente pela companhia de todos eles. Resolvemos esperar um pouco a comida abaixar, para depois sair andar pela fazenda.
A tarde o Enzo estava na sala, no chão com vários brinquedos em sua volta, com os travesseiros para ele encostar e dos lados para ele não cair. Nós fomos brincar com ele.
- Cadê o Enzo, do tio Paulinho? – perguntei.
Ele só ria para mim.
- Cadê o Narizinho do bebê? – falei fingindo que estava pegando o seu nariz. Eu lembro que quando eu era criança, eu achava tão bobo os meus tios fazerem isso e hoje em dia eu estou fazendo o mesmo - Cadê o bebê? – falei escondendo o meu rosto com as minhas mãos.
- Paulinho, porque você esta falando com essa voz com o meu filho? – perguntou minha irmã – Sério, ta parecendo que você esta falando com um cachorro – falou ela rindo - Ele não é retardado, não precisa falar assim.
Ela sentou do meu lado no chão e disse com a mesma voz do que eu:
- Oh amor, fala para o titio Paulo que você não é um bobinho, que você é o grandão da mamãe.
- Você esta fazendo a mesma voz que eu – falei olhando sério para ela.
- Eu sou a mãe, eu posso tudo, o filho é meu e eu falo o jeito que eu quiser – respondeu fazendo careta.
- Oh mãe, olha a Flávia fazendo careta para mim – falei fingindo que eu era uma criança.
Minha mãe gritou da cozinha:
- Crianças, parem, senão eu vou chamar o pai de vocês para bater em vocês com a cinta - falou ela. Minha mãe estava morrendo de rir.
- Ta bom mãe – falamos.
- Viu só Marcus, os filhos nunca crescem, podem ter 60 anos, mas sempre vão ser os pequeninhos da mamãe.
- Estou vendo – respondeu ele, nos olhando e rindo.
Marcus estava lavando a louça e rindo da nossa conversa toda.
- Aquele é o Tio Marcus – falou Flávia apontando para o Marcus – Ele é bonito, né? Ele é loiro igual a você, ele parece mais seu tio, do seu o Paulo – falou ela rindo – Ele é seu tipo também.
Uma vez eu conversei sobre como ela iria dizer para o Enzo que eu sou gay. Ela me disse que ia fazer da forma mais natural do mundo, apresentando meu namorado ao Enzo, chamando ele de tio, fazendo ele ver isso da forma mais normal do mundo. Marcus terminou de lavar a louça e sentou no chão na frente do Enzo.
- Ele está com sono – falou minha irmã – Vamos dormir, Enzo? Ta na hora de dormir. Ele esta com sono, mas esta tentando resistir ao sono.
- Flávia, o seu filho dormi com música? – perguntou o Marquinhus.
- Ele ama dormir com música – respondeu ela - Quando ele esta cansado mais não dormir, eu coloco música pra ele.
- Então, já sei um modo de fazê-lo dormir – falou ele.
Meu namorado foi até o quarto e voltou com o seu violão.
- Tem alguma música que você cante para ele sempre? – perguntou ele.
- Várias músicas, mas tem uma música que ele ama , ele sempre dorme ouvindo ela- respondeu ela - Sabe “O Caderno”, do Toquinho?
- Ela é linda. Eu vou tocar ela para vocês então e pra fazer dormir o pequeno Enzo – falou o Marcus.
- Viu filho, vai ter música ao vivo pra você – falou ela brincando.
Minha mãe estava no sofá, deitada com os pés para cima, enquanto Flávia, Marcus, Enzo e eu estávamos no chão. Marcus afinou o seu violão e começou a tocar:
- “Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco até o bê-a-bá. Em todos os desenhos coloridos vou estar. A casa, a montanha, duas nuvens no céu e um sol a sorrir no papel. Sou eu que vou ser seu colega, seus problemas ajudar a resolver, te acompanhar nas provas bimestrais você vai ver, serei de você confidente fiel se seu pranto molhar meu papel.” - ele tocava de um jeito tão lindo, cantava olhando para o Enzo, que olhava sem piscar para o violão e mexia dos pezinhos de alegria. Ele estava amando.
Minha mãe chegou bem perto de mim e disse bem baixinho:
- Se um dia você deixar o Marcus, eu vou bater em você, ele é fantástico.
- Se algum dia eu deixar o Marcus, eu me bato – falei.
Marcus continuou cantando impecavelmente:
- “Sou eu que vou ser seu amigo vou lhe dar abrigo se você quiser, quando surgirem seus primeiros raios de mulher. A vida se abrirá num feroz carrossel e você vai rasgar meu papel, o que está escrito em mim comigo ficará guardado se lhe dá prazer à vida segue sempre em frente o que se há de fazer? Só peço a você um favor se puder, não me esqueça num canto qualquer.” - ele parou o violão e cantou olhando para o Lorenzo de um jeito bem calmo e afinado, enquanto segurava as mãos dele – “Só peço a você, um favor se puder, não me esqueça em um quanto qualquer”.
Nós três batemos palmas para ele. Lorenzo parecia estar muito animado também.
- Paulo, que lindo – falou minha mãe, enxugando os seus olhos cheio de lágrimas – Quando o Paulo disse que você cantava bem, eu não imaginava que era tanto assim. Desculpa as minhas lágrimas, mas é que essa música é muito linda e com você cantando dessa forma então, sou uma manteiga derretida.
- Nem sou tanto assim. Só gasto de cantar, agradeço o elogio, dona Rosa.
- E ainda é modesto – falou minha mãe.
- Que bom que gostaram – falou ele - Querem ouvir mais uma?
- Sim, queremos sim - respondemos ao mesmo tempo.
- Essa próxima música também é do Toquinho e é um clássico, todo mundo ama ela. Acho que ela faz a gente viajar, parece que nos faz sentir criança de novo, em um mundo perfeito, sincero, livre de todos os problemas da vida.– falou ele – Alguém sabe qual música?
- Aquarela? – perguntou minha mãe.
- Exatamente – falou Marcus - A senhora conheci de música. Já vi da onde o Paulo herdou o bom gosto de musica.
- Fazia ele ouvir todos os meus discos quando ele era criança. Ele amava – falou ela.
- Fez muito bem - respondeu ele. E pegando o violão, Marcus começou a cantar - “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo. Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva e se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva. Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel, num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu. Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul, vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul. Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.”.
Minha mãe e irmã olhavam encantadas. Meu sobrinho estava começando a fechar os olhos.
- “Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená. Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar. Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo e se a gente quiser ele vai pousar.” – cantava Marcus. Meu sobrinho estava dormindo. Marcus então pulou para a ultima parte da música - “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo”.
- “Que descolorirá” – cantou minha mãe.
- “E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”.
- “Que descolorirá” - cantamos minha mãe, Flávia e eu.
- “Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo”
- “Que descolorirá.” - cantamos todos.
Enzo dormia como um anjo. Minha irmã pegou ele e colocou no bercinho que estava no seu quarto.
- Vamos na cachoeira? – perguntei para o Marcus.
- Claro – respondeu ele prontamente – Vamos também Flávia e dona Rosa?
- Obrigado Marcus, mas eu vou ficar, vai que o Enzo aguarda, a mãe esta aqui, mas tem coisas que só eu posso ajudar, como mama.
- Eu vou ficar aqui também – falou minha mãe - Obrigado pelo convite. Vão com cuidado, meninos.
Nós pegamos uma mochila e colocamos nossas toalhas e uma troca de roupa. Queríamos nadar na cachoeira. Nós saímos e começamos a ir em direção a cachoeira.
- Que lindo aqui – falou Marcus , enquanto andava pelo sitio.
- Sim, aqui tem gado, tem milhos, tem porcos, galinhas, cabritos, tem cachoeira, tem terra para a gente descarregar as nossas energias, frutas para colher do pé – falei – E ainda tem cavalos para a gente andar, quer dizer, você andar, porque eu não gosto de andar de cavalo. Mesmo sem andar, eu não gosto.
- Ah amor, você me prometeu que vai andar comigo, não pode voltar atrás.
- Eu tenho medo.
- Você vai comigo, vai ficar tudo bem – falou o Marcus.
- Ta bom amor.
Chegamos na cachoeira. Ela é linda, grande, deve ter muitos metros ( sou péssimo em dizer quantos metros, mas era bem alta), com um fluxo de água muito grande. Em volta tem várias árvores com frutas e também um lago cristalino.
- Vamos morar aqui? – perguntou Marcus – É o lugar mais lindo e harmonioso que eu já vi. E ainda tem o pé de manga – falou ele apontando para uma arvore que estava perto de nós.
- Já pensei nisso também. Faz uns 10 anos que nós temos a fazenda e todos os dias que estamos aqui, eu venho na cachoeira, nem que seja para colocar os pés na água. Eu falo que essa água cura tudo.
- Se bobear deve curar mesmo – respondeu ele.
Nós fomos no pé de manga. Marcus subiu nela e começou a tacar as mangas para mim.
- Amor, segura essa - falou ele tacando a manga para mim - Essa é a minha – ele tacou uma outra e disse – Essa aqui também é a minha, essa outra aqui também – e abraçando a arvore, ele disse – É tudo meu – ele estava parecendo um louco - Ainda bem que a Zafira é grande, da pra levar muitas mangas.
- E pra mim nada?
- Tudo bem meu amor, vou pegar uma para você - ele pegou uma manga pequena e disse – Essa aqui é do seu tamanho.
Marcus pegou mais algumas mangas, desceu da arvore e me perguntou:
- Vamos entrar no lago? - perguntou o Marcus tirando a camiseta, a calça e ficando só de cueca. Uma cueca box, azul escura, enquanto eu ficava só olhando.
O Marcus é o meu tipo físico predileto, ele é mais magro, com uma barriga quase sem gordura, branquinho, com uns pelinhos loiros no seu peito, os seus braços são bem definidos e seus ombros são mais altos.
- Como você é lindo – falei olhando para ele.
- Você que é - falou ele - Você está me olhando com uma cara de bobo.
- Completamente bobo.
- Vai entrar na água com roupa?
- Claro que não – falei tirando a camiseta, também a calça e ficando só de cueca.
Ele segurou em minhas mãos e entramos na água. Começamos a jogar água um no outro, a nadar para ver quem era o mais rápido. Parecíamos duas crianças brincando na piscina de um clube. Marcus me puxou para perto dele e me beijou. Ficamos ali nos curtindo por um bom tempo, nós beijando, brincando e beijando mais ainda. Era perfeito. Parecia que não existia problema que não poderia ser apagado por aquele lugar. Nem o frio da água nós estávamos sentimos. Nós chegamos perto da água da cachoeira e ficamos embaixo dela. Ela caiu com força em nossas costas, parecia que estava fazendo massagem em nós.
- Isso aqui é muito bom – falou o Marcus.
- Nossa nem me fale - falei sentindo muito prazer.
- Parece uma massagem.
- É a força da água, é muito bom.
- Cada momento que passa, eu quero penso em morar aqui – falei.
Marcus nem conseguia responder, ele estava delirando com a massagem da cachoeira. Ele só voltou a falar quando viu um cavalo branco comendo uma maça em uma árvore. O caseiro estava em cima do cavalo.
- Oi Joca, tudo bem? – falei cumprimentando-o.
- Tudo ótimo e com você? – perguntou ele.
- Tudo perfeito. Esse que esta aqui é o Marcus – falei mostrando o Marcus.
Eles se cumprimentaram.
- Sua mãe falou para vir trazer o cavalo para vocês andarem – falou ele - Ele já esta todo equipamentado para vocês andarem.
- Como você sabia que estaríamos aqui, a mãe falou?
- Não, não falou, mas é que você não sai desse lugar – respondeu ele – Já imaginei que estaria aqui - Joca estava com a gente desde quando compramos o sitio, então ele me conhecia bem. Era um senhor simpático.
E olhando para o Marcus eu disse baixinho.
- Agora tenho um motivo melhor ainda para querer voltar aqui sempre.
- Qual?
- Esses momentos perfeitos que passamos aqui – respondi para o desligado do Marcus.
Nós saímos do lago, nos enxugamos, colocamos nossas roupas e fomos até o Joca.
- Qual que é o nome dele? – perguntou o Marcus, mostrando o cavalo.
- Esse é o pé de pano – respondeu o Joca – Foi o Paulo quem deu esse nome para ele. Não me pergunte dá onde veio.
- Lembra do cavalo branco do desenho pica pau?- perguntei ao Marcus.
- Sim – respondeu o Marquinhus.
- É por causa dele - respondi – Ele se chama pé de pano.
- Só você mesmo, Paulo – falou ele.
Joca desceu do cavalo.
- Pé de pano, a gente vai andar um pouco em você, mas pode ficar tranquilo, que vai ser um passeio bem tranquilo – falou ele passando as mãos no cavalo. Marcus subiu.
- Vem Paulo – falou ele me estendendo as mãos.
- Jura? Eu tenho medo. Não sei como isso funciona – falei.
- Já conversamos sobre isso mais de uma vez – falou ele ainda com as suas mãos estendidas.
- Ta bom, como você insistente, em Marcus? - falei - mas como é que eu faço para subir nele?
- Você coloca o seu pé aqui, puxa aqui onde senta e empurra o seu corpo para sentar – explicou o Joca.
Fiz o que ele falou e subiu no cavalo. Eu estava atrás do Marcus que estava com as rédeas do cavalo em suas mãos.
- Agora segura em minha cintura – pediu Marcus.
- To começando a gostar de andar no cavalo - falei.
- Mas é bobo mesmo viu – falou o Marcus rindo - Quando você puxa a rédea para a direita ele vai para a direita e quando vira para a esquerda ele vira para a esquerda.
- Como é que faz para freia?
- Você puxa a rédea - respondeu ele.
- Entendi.
Nós começamos a andar de cavalo. Joca tinha ido ajudar o meu pai em alguma parte da fazenda. Marcus estava andando devagar, ele é muito cuidadoso, andava de um modo que eu não tinha como ficar com medo. Aliás, confesso que eu estava gostando.
- Amor, o que esta achando?
- Amando – respondi - Você me da segurança.
- Que bom meu lindo.
Continuamos andando, passamos por várias trilhas, passamos pelos bois que comiam sal grosso, por outros lagos menores.
- Já te falei hoje que eu te amo? - perguntou ele.
- Nós últimos 10 minutos não.
- Eu te amo, eu sou completamente louco por você – falou ele me olhando. O cavalo tinha parado.
Ele me deu um beijão.
- Eu também te amo, de todos os namorados que eu tive, você é quem me faz sentir algo diferente. Antes eu achava que era amor, mas eu tenho certeza que agora sim é o amor.
- Assim você me “desmoronta” - falou ele rindo, bem próximo da minha boca.
- Você ainda lembra disso?
- Como esquecer do dia em que nós nos conhecemos? Impossível! Lembro de tudo, de cada momento com você.
O sol estava se podendo, como tinha chovido um pouco a tarde, tinha ficado algumas nuvens escuras e algumas claras, onde o sol que estava vermelho iluminava e deixava o céu colorido.
- Eu amo o por do sol. E o que dizer desse céu bonito? – perguntei.
- Verdade Paulinho, céu bonito assim só vi de Londrina - falou Marcus. -
- Agora vai ser impossível ver o por do sol e não lembrar de você.
Ele ficou quieto um pouco e depois disse:
- Você consegue me deixar sem saber o que falar. E agora produção? O que eu faço?
Imitando o coro de um público, eu repetia: “beija, beija, beija!”. Ele me deu um beijo demorado.
- Eu te amo! – falou ele novamente.
- Ele merece, ele merece, ele merece – falei imitando novamente o coro de um público.
- Você tem o dom de quebrar climas românticos – falou Marcus rindo – Lança um livro chamado: “Manual de como estragar os momentos românticos” - brincou ele.
- É que eu também não sei o que falar e acabo jogando uma piada sem graça – falei.
Novamente demos um beijo demorado.
- Amor, esta anoitecendo, vamos voltar pra casa da fazenda? – perguntei.
- Claro, vamos sim.
Eu continuei abraçado com ele, conversando até o horário em que a vistamos a casa, mas ela ainda estava alguns metros de distancia de nós. Minha mãe estava do lado de fora.
- Eu não acredito que você conseguiu fazer o Marcus andar de cavalo –gritou minha mãe – Você é realmente muito bom.
- Falei para a senhora que ele ia andar, agora ele até perdeu o medo – falou o Marcus.
- Amor, deixa eu pilotar um pouco esse cavalo? – perguntei.
Ele riu.
- Pilotar você pilota uma moto, ou carro - brincou o Marcus – Mas se você quiser conduzir o cavalo, pode sim.
Eu fui passar a minha perna por cima do Marcus, mas estava bem difícil.
- Amor, cuidado pra não cair – falou ele - Cuidado amor.
Não estava dando certo passar a perna por ele. Quando eu fui voltar a minha perna onde ela estava, cai do cavalo. Não bati a cabeça, mas o modo como bati as minhas costas e a perna direita em uma pedra grande, por isso ela estava doendo. Marcus, pulou do cavalo e veio ver como eu estava.
- Paulo, esta tudo bem? – perguntou ele. Ele estava desesperado.
- Minha perna – tentei falar. Quase não saia voz - E minhas costas.
- Calma amor, você deve ter batido as costas e esta sem ar. Calma amor – falou o Marcos. Eu estava calmo, ele quem estava desesperado - Se você ver uma luz, vai pra longe da luz. Ta ouvindo Paulo? Fica longe da luz – falou quase gritando.
Eu queria dar risada, mas a minha voz não estava saindo. Minha mãe veio correndo ver como eu estava também. Marcus falou para ela que eu tinha batido as costas e perna direita. Depois de um minuto a minha voz começou a voltar e eu conseguia falar.
- Gente, ta tudo bem. Só bati as costas e a perna. A perna direita que estão doendo mais, as costas foi só no momento em que eu cai, agora já estou bem – falei.
- Será que levamos ele no médico? - perguntou o Marcus a minha mãe.
- Na verdade é o certo, mas o médico mais perto esta longe daqui – falou ela – Vamos fazer o seguinte, a gente da um remédio para ele, passa algo para cuidar dessa perna e se piorar a gente leva pro médico. Pode ser?
- Pode sim – falou o Marcus – Ouviu isso mocinho? – perguntou ele para mim – Qualquer dorzinha diferente você vai para o médico.
- Pode ser sim – respondi.
Marcus me colocou nas costas e me levou até a casa.
- Você não vai querer parar de andar de cavalo, né lindo? – perguntou ele.
- Não, eu vou querer andar de novo, até porque eu gostei. Eu cai por erro meu mesmo, eu me desequilibrei - respondi, enquanto eu estava em suas costas.
- To com peso na consciência.
- Porque amor?
- Porque você disse que estava com medo e eu insisti milhões de vezes para você andar de cavalo, eu poderia simplesmente ter dito tudo bem, não precisa. Olha ai, agora você esta todo quebrado – falou o Marcus, triste.
- E perder os momentos bonitos que tivemos em cima do cavalo? Não aceito isso não – falei – Repetiria tudo novamente. Você, beijos, por do sol, cavalo e chão.
- Vou cuidar de você muito bem – falou ele.
- Eu vou cobrar isso viu e eu sou dramático, qualquer dorzinha para mim vira um festival – falei brincando, mas se bem que eu sou dramático mesmo – Gosto de ser cuidado e mimado.
- Eu vou cuidar sim meu amor.
Nós chegamos na casa. Marcus me colocou no sofá, colocaram alguns travesseiros embaixo da minha perna para não doer, me deram um remédio para tirar nas costas ( um relaxante muscular) e passaram uma pomada na perna, assim ela iria diminuir a dor. Meu pai chegou um pouco depois com meu cunhado, quando ele me viu começou a dar risada. Ele disse que gostaria de ter visto o meu tombo.
- Primeiro eu iria dar risadas, depois iria perguntar se esta bem - falou meu pai.
- Nossa pai, quanta consideração - falei para ele - Eu fiquei sem ar na hora, não estava conseguindo respirar, fiquei assim por alguns minutos, mas depois eu melhorei. Coitado do Marcus, ele me carregou nas costas aqui a casa.
- Sério? – falou meu pai.
- Olha seu Osvaldo, fiquei com muito medo de ele relar o pé no chão e machucar, a gente não sabe ainda o que aconteceu com a perna direita dele. Agora ele já esta me medicado e esta bem melhor. Eu não sei o que eu ia fazer se ele se machuca-se.
Meu pai o olhava ele espantado.
- Ainda bem que você estava lá. Obrigado por cuidar do meu filho - falou ele estendendo as mãos ao Marcus. Marcus deu a mão para ele e depois meu pai o puxou e deu um abraço.
Marcus também não sabia o que falar, minha irmã e mãe que estavam na sala conversando, parar de conversar e passaram a olhar a cena de boca aberta.
- Não precisa agradecer não, Senhor Osvaldo, eu não saberia o que fazer se ele tivesse se machucado mais, esse menino vale ouro.
- Osvaldo – falou meu pai.
- Desculpa, não entendi - falou Marcus.
- Pode me chamar de Osvaldo, Senhor Osvaldo é para pessoas que não me conhecem, que não são amigos ou que não são da família.
Eu acho que eu morri na hora em que eu cai do cavalo. Meu pai sendo incrivelmente simpático com o Marcus? Quem diria.
- Você também pode chamar ele de Osvaldinho - falou minha irmã.
- Eu não gosto desse apelido – falou meu pai.
- Por isso que a gente chama você assim – falei.
- Ah você quer que eu fale coisas que a gente não gosta de ouvir, senhor Paulo? – perguntou meu pai fingindo que estava bravo – Sabe Marcus, o Paulo não sabia fazer compras quando foi para Londrina, nunca arrumou a sua cama, não sabe limpar o chão de casa, se for para ele trocar uma lâmpada ele não sabe como faz.
- Ta bom pai, já entendemos – falei.
- Precisa trocar chuveiro? - continuou ele sem me dar atenção – Não chame o Paulo, chama um macaco para trocar, mas não o Paulo. Além disso ele ronca também.
- Peida – falou Marcus brincando com o meu pai e rindo para mim – Tem vezes que parece que eu estou em uma sinfonia noturna, se apresentando estão o quarteto do ronco e um cantor soprando do peido. Sério é muito engraçado, irrita, da vontade de enfiar uma rolha de vinho lá para parar o barulho, mas é engraçado.
- Ta bom gente, já deu por hoje – falei.
Minha mãe entrou na brincadeira.
- Quando ele era mais novo as pessoas não gostavam que ele fosse na casa delas, porque ele sempre entupia a privada da casa dos outros.
- Mãe, para!
- Não dava pra saber se ele estava cagando ou tendo um filho – falou minha irmã entrando na brincadeira também - Cada vez que ele ia no banheiro praticamente saia uma criança dele.
Eles riam muito de mim. Marcus estava vermelho de tanto rir, ele quando ria ficava com os olhos bem fechadinhos, era a coisa mais linda do mundo. Resolvi brincar também fazendo o meu drama.
- Ah não gente, pra mim ta bom, deu por hoje, vou me embora desse lugar – falei ameaçando colocar o pé não chão.
- Não, não, não – pediu o Marcus para mim – Se for para ir embora não pode ir não, só pode se você quiser ir pro banheiro ter um parto.
Novamente eles riram e eu fiquei lá, rindo com eles. Eu estava gostando de ver o Marcus enturmado com a minha família, era a coisa que eu mais queria ver. Aquele momento estava perfeito.
- Se eu ficar solteiro, vocês vão ter que arranjar um namorado para mim viu – falei.
- Se possível que não tenha olfato e nem audição – falou minha mãe.
- Mãe - gritei – Vocês deveriam estar cuidando de mim e não tirando sarro da minha cara - falei fazendo vozes de bebê.
- Filho, a gente só enche as paciências de quem amamos – falou minha mãe.
Minha mãe sempre conseguindo amenizar as coisas.
Lá pelas oito horas da noite, a minha mãe estava fazendo a janta, meu pai estava tomando uma cerveja com o Orlando na mesa na sala e nós estávamos na sala. Eu continuava deitado no sofá. Marcus colocou um colchão no chão para ficar perto de mim caso eu precisasse dele. A gente tentou fazer alguns testes, como colocar o pé no chão, a perna direita continuava doendo, mas aparentemente não tinha quebrado nada. Eu tinha que tomar banho, mas precisava de ajuda para isso. Marcus foi comigo. No banheiro, enquanto ele me banhava, ele falou:
- Desculpa amor - pediu ele.
- Desculpa de que?
- Eu fiquei tirando sarro de você.
- Você estava brincando, se enturmando com a minha família - falei – Se isso te ajudou a ficar mais intimo deles, então para mim tudo bem. Eu não liguei para o que vocês disseram, eu achei engraçado.
- Você é tão lindo desse jeito – falou ele.
- Como, pelado?
- Sim.
- Amor, para. Meus pais estão ai fora – falei.
- Não estou fazendo nada, só te olhando.
Ele estava passando sabonete em meu corpo. Depois ele ligou a água, tirou todo o sabonete, jogou shampoo no meu cabelo e esfregou.
- Parece um bebê – falou Marcus – Precisa de ajuda para tomar banho.
- Confesso que eu estou gostando de ser mimado por você meu amor, tirando a dor, esta sendo muito bom.
Ele terminou de me secar, me ajudou a me vestir e fomos para sala de novo.
- Vamos jogar baralho? – perguntou a minha irmã, que estava sentada na mesa da cozinha com o Orlando e o Enzo em um carrinho de bebê.
- Vamos sim - falamos.
Nós levantamos e fomos para a mesa. Minha mãe estava fazendo a janta, meus pai e o Orlando continuavam do lado de fora tomando uma cerveja e nós estávamos na mesa para jogar baralho. Minha irmã embaralhando, falou para nós:
- O nome do jogo é dorminhoco, funciona da seguinte forma, existem varias cartas e elas tem quatro letras iguais, cada pessoa tem 4 cartas na mão também, no jogo você pega uma carta e passa outra pro coleguinha do lado. Quem conseguir fazer quatro letras iguais tem que abaixar as cartas sem os outros verem, quem abaixar por ultimo tem que beber um pouco de whisky com guaraná.
- Não vou pode jogar – falei.
- Tinha que ser ele, porque não vai jogar? – perguntou a Flávia,
- Porque eu tomei remédio anti-inflamatório e se eu beber posso passar mal.
- Você tem razão. Ah, podemos fazer o seguinte, o Marcus bebe por você, o que acha Marcus?
- Por mim tudo bem. Eu não sou acostumado a beber, mas pro Paulo não beber, eu bobo.
O jogo começou, eu peguei uma carta, passei para a Flávia que estava do meu lado, ela olhou, pensou um pouco, pegou outra carta que estava com ela e passou para o Marcus.
- Então, eu pego essa carta que você me deu, olho e vejo se ela completa as quatro cartas iguais? – perguntou ele. E olhando para mim e a Flávia, ele viu que ela já tínhamos abaixado as nossas cartas - Ah não, eu já perdi?
- Sim. Perdeu sim. O Paulo me passou justamente a carta que eu precisava, eu vim com quase todas as quartas iguais já – respondeu ela.
Ela pegou um copo pequeno, colocou um pouco de Whisky, jogou um pouco de guaraná e deu para o Marcus.
- Pronto, agora você toma - falou ela.
Ele bebeu.
- Ai que coisa ruim - falou ele, fazendo todos rirem.
Eu embaralhei as cartas, distribui e novamente começou o jogo. Minha irmã pegou uma carta, passou para o Marcus, Marcus passou um para mim, eu olhei, tirei uma das que estavam comigo, quando eu vi ela já estava com as suas cartas abaixadas, junto com o Marcus, eles riam de mim.
- Ah não vale, eu estava concentrado olhando as minhas cartas – falei para ela - Há sim não dá nem graça de jogar, você não deixa passar uma rodada inteira, Flávia.
Por ter poucas cartas, era mais fácil fazer o jogo certo, o difícil é quando se joga com muitas pessoas.
- Lembra que eu disse? Sorte no jogo e no amor - respondeu ela - E outra, você lembra qual é o nome do jogo? Dorminhoco! Você dormiu e perdeu. Marcus estava rindo
- Você esta rindo de que? – perguntou ela ao Marcus - Quem vai ter que beber vai ser você.
- É verdade, eu tinha me esquecido – respondeu o moço ficando chateado.
Flavia colocou mais Whisky com guaraná e ele bebeu
- Nossa, que coisa ruim. Por isso que eu não bebo, é muito ruim isso gente.
Agora era a vez do Marcus distribuir as cartas, ele estava ficando bêbado. A gente não tinha comida mais nada depois que voltamos da cachoeira e de estomago vazio a comida sobe muito mais rápido. Ele distribuiu as cartas e começamos a jogar. Marcus me passou uma carta. Eu peguei a carta, fiquei olhando para ela e ele estava dando risada sozinho.
- O que foi Marcus? – perguntei.
- Nada – falou ele rindo.
- Fala – pediu.
- É que eu estava olhando aqui a toalha de mesa, tem um desenho do Paulo e do lado esta escrito: “ O pior jogador de baralho do mundo!” - e olhando para nós ele viu que já tínhamos abaixado os nossos baralhos – Quem bateu agora?
- Eu bati, você me passou a carta que eu precisava – respondi.
Ele tomou mais um pouco de Whisky com guaraná e falou:
- Sabe que agora nem esta ficando tão ruim assim?
A gente riu. Nós jogamos por mais meia hora e a Flávia nunca perdia, ou seja, nessa meia hora só o Marcus bebeu o Whisky com guaraná.
- Eu estou realmente bêbado – falou ele dando risada.
Ele nem estava ligando mais para o jogo, a gente entregava a carta para ele e ele ficava desenhando na toalha de mesa.
- Vou desenhar o Paulo em Londrina, ou melhor, eu vou desenhar o Paulo voando do cavalo. Dai vai ficar eternizado o momento em que ele caiu – falava rindo muito – Quando vocês baterem podem me passar a bebida aqui para mim.
Ele olhou para a carta dele, olhou para nós, pegou uma carta, passou para mim, eu passei para a Flávia e a Flávia passou para o Marcus. Marcus olhou novamente a sua carta e ficou muito sério.
- O que foi Marcus? O que tem nessa carta? – perguntei.
- Estou pensando nessa mulher da carta, essa rainha, será que ela era casada? Será que ela já jogou dorminhoco e ficou bêbada? – perguntou ele dando risada sozinho. E olhando para nós, ele disse – Eu perdi de novo, né?
- Sim - falou a minha irmã entregando mais Whisky para ele.
- Você quer continuar jogando? – perguntou minha irmã.
- Quero sim – falou Marcus muito bêbado – Eu sei que eu to bêbado, essa não é a grande revelação da noite, mas eu quero sim.
Novamente eu separei as cartas, distribui e minha irmã entregou para a gente. Eu olhei para o Marcus e ele estava desenhando com a sua caneta no ar. Minha mãe esta terminando de fazer comida e estava dando risada do jeito do Marcus, mas dava para ver que ela também estava preocupada com ele. Eu olhei as minhas cartas, eu precisava de uma carta só para bater. Fui passar a carta para a Flávia e vi que eles estavam rindo de mim, junto com o Marcus. Olhei para eles e o Marcus gritou:
- “Rah”, você perdeu e eu bati!
- Mesmo assim é você quem bebe – falou minha irmã.
- Eu esqueci disso – falou ele se arrependendo - Tudo bem, pode colocar mais Whisky pra mim, se quiserem colocar uma dose tripla para mim tudo bem também, eu não estou sentindo mais nada, não estou sentindo a perna, os braços, nem a cabeça - ele já estava rindo sozinho – Flávia aproveita e trás amendoim também, to com fome – falou o Marcus de um jeito engraçado.
- Você esta bem, Marquinhos? – perguntei - Tem certeza que quer continuar a brincadeira?
- Oxi, eu não sou homem de voltar atrás, eu vou continuar e vou fazer a sua irmã beber também - falou ele.
Todos nós demos risadas. Minha irmã, pegou um copo, colocou whisky e guaraná e bebeu:
- Pronto Marcus, eu bebi, não precisa continuar, você não é acostumado a beber, a bebida já esta fazendo efeito em você - ela queria falar: “ Você esta bêbado, vai dormir!”
Ele a olhava muito sério, não dava pra saber o que ele ia dizer.
- Vamos parar a brincadeira, ta bom? A gente joga esse jogo mais tarde, mas sem bebida – falou ela - A gente pode fazer que a pessoa que perder paga algum mico.
Ele continuava muito sério, até que ele levantou e foi correndo para o banheiro. Ele estava vomitando. Todo mundo ficou se olhando na cozinha. Depois de alguns minutos ele voltou, pálido, com o rosto molhado. Me lembrava um cachorro que saiu na chuva, com o rabo entre as pernas. Ele olhou para a minha mãe e disse:
- Desculpa dona Rosa, primeira vez que a senhora me vê e eu já faço isso, desculpa mesmo, desculpa Flávia, geralmente eu não me comporto desse jeito que eu me comportei, eu não bebo. Tinha bebido só uma vez na vida e nesse dia eu bebi tanto que eu jurei que não beberia mais. Paulinho, eu não sei não sei nem o que te dizer, além de desculpas.
Minha mãe chegou perto dele e disse:
- Marcus, fica tranquilo. Você foi um cavalheiro, mesmo sem o costume de beber, bebeu quando o Paulo errava, só porque ele não pode beber agora. E vocês estão em desvantagens, além da Flávia nunca perder, o Paulo ainda é muito desatento. – falou minha mãe.
- Marcus, eu sinceramente achei muito bonito você beber pelo Paulo, pode ter certeza que se o Orlando que tivesse no seu lugar, ele faria eu beber, mesmo eu estando doente. Parabéns, pode ter certeza que gostamos mais ainda de você depois disso - falou a Flávia – Você esta melhor?
- Estou sim – respondeu Marcus. Ele estava em uma mistura de alegria pelo o que a Flávia falou e vergonha pelo jeito que ele estava.
- Que bom, porque a comida já esta pronta - falou a minha mãe colocando a janta na mesa.
Marcus sentou do meu lado e eu disse para ele:
- Eu tenho orgulho de ter você como namorado, ninguém faria por mim o que você fez – falei. Cheguei perto do ouvido dele e disse – Eu te amo, você é a pessoa mais linda que existe.
- Eu também te amo.
Minha mãe terminou de servir a janta, meu pai e meu cunhado sentaram para jantar com a gente. Foi um jantar muito gostoso, Marcus me olhava sorrindo, eu realmente tenho orgulho dele ser o meu namorado, mesmo que eu com a perna machucada, o Marcus ficando bêbado, eu ainda estava com o meu namorado, com a minha família, todos nos respeitando, sendo agradáveis.
Hoje a tarde, sem o Marcus ver, eu perguntei para a minha mãe porque o meu pai estava tão receptível com o Marcus e ela me disse que ele mudou a cabeça dele, que não ia trata-lo mal por ser meu namorado e sim bem, principalmente por ser alguém que me fizesse feliz. Ela também contou que um amigo do pai, esses dias contou que tem um filho gay e tinha pensado em mandar o filho embora da casa, meu pai então conversou com ele e convenceu-o a não fazer isso, que ser gay não é uma doença e nem uma opção, que a pessoa nasce assim e que não tinha nada de mal ser assim. Meu pai estava me dando muito orgulho.
Depois que jantamos a minha mãe pediu para o Marcus tocar mais algumas musicas para nós. Ela disse que não é sempre que temos um cantor de uma banda na fazenda. Lógico que ele tocou e cantou muito. E por ultimo ele cantou para o meu sobrinho dormir.
- "Vem meu ursinho querido, meu companheirinho, Ursinho Pimpão.Vamos sonhar aventuras voar nas alturas da imaginação. Como na história em quadrinhos eu sou a Sininho você Peter Pan. Vamos fazer nossa festa brincar na floresta Ursinho Tarzan enquanto o sono não vem eu sou Chapeuzinho você meu galã”
Minha irmã esta chorando, pois uma vez ela cantou e tocou essa musica em um festival na nossa cidade quando era criança. E agora meu amor estava tocando para o filho dela. Todos estavam em volta do Marcus ouvindo ele cantar.
- “Dança também, pelo salão, é tão bonita, nossa canção. Manhã já vem, dorme Pimpão, Urso folgado, não tem lição.” – ele terminou de cantar sendo muito aplaudido por todos nós.
- Desculpa eu chorar tanto assim, mas foi a primeira musica que eu toquei no violão quando eu era criança.
- Você toca violão? – perguntou Marcus, a Flávia.
- Estou um pouco enferrujada, mas eu toco sim – respondeu ela.
Meu pai, foi até a cozinha, pegou uma cerveja e voltando para a sala ele falou:
- Olha Marcus, você canta e toca muito bem, mas será que eu posso te fazer um desafio?
- Claro que pode – respondeu ele – Adoro desafios.
- Toca “Chalana” ai pra nós.
- Toco sim, mas só se o senhor cantar comigo. Pode ser?
Como esse Marcus está audacioso, chamando o sogrão para cantar junto com ele.
- Eu aceito – respondeu meu pai.
Marcus foi até a Flavia, falou alguma coisa em seu ouvido, não dava para saber o que ele tinha falado, mas a resposta dela foi: “Faz tempo que eu não toco”. Ele entregou o violão para ela, foi até o quarto e voltou com o violino dele.
- Você não vai parar de surpreender a gente, não? – perguntou a minha mãe.
Ele deu risada.
- E ele ainda toca guitarra, piano e bandolim – falei para a minha mãe.
Meu pai pegou dois chapéus, um preto e um marrom, colocou um chapéu no Marcus (o Marrom), colocou o outro e ficou do lado dele de pé no centro da sala.
- “Bora” parceiro? – perguntou ele para o Marcus.
- “Bora cumprade”! – respondeu o Marcus - Vai Flavinha.
Minha irmã sentada, começou a toca o começo, sendo acompanhada pelo Marcus no violino:
- "Lá vai uma chalana , bem longe se vai , navegando no remanso do rio Paraguai. Oh! Chalana sem querer tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor. Oh! Chalana sem querer tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor.".
Marcus deixou o pai cantando a primeira parte, enquanto ele acompanhava fazendo a segunda voz.
- "E assim ela se foi nem de mim se despediu , a chalana vai sumindo na curva lá do rio. E se ela vai magoada eu bem sei que tem razão. Fui ingrato, eu feri o seu pobre coração. Oh! Chalana sem querer tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor. Oh! Chalana sem querer tu aumentas minha dor, nessas águas tão serenas vai levando meu amor."
Nós todos nos levantamos e aplaudimos os dois. Foi sensacional. Minha mãe foi até o meu pai e deu um super beijo nele. Eles realmente estavam felizes, fazia tempo que eu não via meus pais se beijando. Aliás, eu não lembro quando eu vi meu pai tão feliz quanto aquele momento. Marcus também estava sorrindo demais. Nós começamos a gritar: “Mais um, mais um, mais um, mais um”. A Flávia olhou para o Marcus com uma cara de: “Vamos dar mais uma canjinha pro publico?”. Ele fez que sim com a cabeça. Por isso ele começou a tocar. Meu pai reconheceu a musica e gritou comemorando:
- Milionário e José Rico, 60 dias apaixonado - ele estava jogando o seu chapéu pra cima.
- “Viajando pra Mato Grosso, Aparecida do Taboado , eu conheci uma morena que me deixou amarrado.” – meu pai tinha esquecido que era para cantar, ele foi até a minha mãe, puxou ela pra dançar, enquanto o Marcus continuava cantando e tocando no seu violino, acompanhado da Flávia -“ Deixei a linda pequena, por Deus, confesso desconsolado. Mudei meu jeito de ser, bebendo pra esquecer os 60 dias apaixonado”.
Meu pai deve ter lembrado que era para cantar também, mas ele não soltou a sua morena (minha mãe), enquanto dança com a sua morena:
- “Dois meses juntinho dela eternamente serão lembrados, pedaços da minha vida, lembranças do meu passado. Jamais será esquecida a imagem dela, de uma anjo amado. Dois meses passaram logo, é num copo que eu me afogo 60 dias apaixonado. Se alguém fala em Mato Grosso, eu sinto o peito despedaçado o pranto rola depressa, no meu rosto já cansado
jamais eu esquecerei Aparecida do Taboado. Deixei a minha querida, deixei minha própria vida, 60 dias apaixonado.”
- Ah “muleke” bom! – falou meu pai batendo palmas. Todos nós estávamos batendo palmas para eles.
- Muito obrigado pessoal, eu gostaria muito de agradecer a presença de todos vocês aqui, também da nossa musicista especial, Flávia Mendes Gladiole, além do Osvaldo, que hoje começa uma dupla comigo – falou o Marcus, nos fazendo rir – O nome da dupla vai ser, “Taruim e Tafraco”.
Depois que eles foram dormir, eu e o Marcus fomos conversar do lado de fora pra conversar um pouco. Sentamos um do lado do outro no chão, dava para ver muitas estrelas, o céu estava lindo, sem nenhuma poluição, sem baralho, a não ser dos animais da fazenda.
- Como esta a sua perna, Paulo?
- Esta melhor, meu lindo! Eu já tinha até esquecido que tinha machucado.
- Porque você esta sorrindo tanto? - perguntou o Marcus.
- É por estar feliz, foi um dia muito bom hoje, realmente valeu a pena ter vindo para cá, me diverti muito. Machuquei a perna direita? Sim. Mas também nadei, beijei, comi manga, andei de cavalo, vi o por do sol, ouvi muita musica boa cantada pelo meu namorado e pela minha irmã e ainda com a presença do meu pai cantando, almocei, jantei muito bem, joguei baralho, vi você bêbado desenhando no ar – quando eu falei isso, o Marcus deu risada e tampou o seu rosto com as mãos - Além de você dar uma prova que realmente me ama. Achei lindo, você é fantástico.
- Eu te amo! – falou ele - Você é fantástico, tem uma família linda. Eu que tenho que agradecer tudo o que você faz por mim.
- O que eu fiz por você?
- Me tornou um cara melhor, me mostrou que existem pessoas boas no mundo. Me fez acreditar que eu posso ser feliz sendo quem eu realmente sou. Já tive medo de não ser feliz.
- Por que amor?
- As pessoas são muito preconceituosas, elas ficam julgando, acham que só porque a gente fica com outro homem nós somos aberração. Quer causar na televisão é só colocar um casal de homens, ou mulheres se beijar. Tudo bem ter cenas em novela de gente mantando gente, mas o que realmente vai deixar o provo incrédulo é o casal gay - falou ele – Eu sempre tive medo que as pessoas iam falar, se iam me aceitar do jeito que eu sou, por eu ter uma relação homoafetivo.
- Eu sempre fico pensando, que importância tem a pessoa que eu me relaciono para as outras pessoas? Existem tantas coisas que tem que ser ajeitadas, tantas pessoas com fome, tanta gente morrendo por guerra, mas o que realmente importa é porque nós temos uma relação - falei – Até hoje não dá para ser 100% livre, querendo ou não, a gente sempre se esconde um pouco dependo do lugar.
- Exatamente, meu lindo.
- Mas um dia nós teremos o nosso cantinho, teremos filhos, adotados ou não, vamos construir nossas coisas juntos. Quem sabe a gente não compra um sitio assim para a gente? – falei mostrando o sitio com os braços abertos.
- Eu quero uma igual ao do seu pai, com cachoeira, pé de manga, pé de pano – falou ele.
- Pé de manga e pé de pano? Não entendi - falei bocejando.
- O cavalo amor, o nome dele não é pé de pano?
- Ah é verdade – falei esfregando os olhos.
- Ta morrendo de sono, né? Da para ver na sua cara que esta. Vamos dormir meu amor, amanhã vai ser um dia tão quanto hoje. Tem muita coisa para a gente fazer por aqui ainda.
- Vamos sim.
Olhando para o céu, eu vi que estava passando uma estrela.
- Olha Lá amor, uma estrela caindo, faz um pedido - falei.
Ele olhou a estrela, fechou os olhos e olhou para mim.
- Meu desejo já se realizou, esta aqui do meu lado.
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